BAURU

Entrevista da Semana - Leandro Douglas Lopes: 'Na dúvida, basta colocar o coração'

Por Tisa Moraes | da Redação
| Tempo de leitura: 5 min
Larissa Bastos
Leandro Douglas Lopes
Leandro Douglas Lopes

A fala pausada e em tom baixo parecem guardar algo do menino retraído que, por medo de sofrer bullying, se manteve longe de pessoas de sua idade. Em toda sua adolescência, Leandro Douglas Lopes, hoje com 36 anos, cultivou amizades com mulheres adultas e fortes, começando por sua avó, Amélia, até cruzar o caminho com outras, como a socialite Neusa Azevedo e a atriz Françoise Forton, que lhe apresentaram um mundo novo.

Do garotinho tímido que ficava junto com os pais, Benedito e Ana Regina, no trailer dos tradicionais churros "Oba-Oba", na Praça da Paz, Lopes desenvolveu potencialidades e, além de ter se tornado corregedor-geral administrativo da prefeitura, passou a atuar em diversas outras frentes. 'Na dúvida, basta colocar o coração, que tudo acontece', diz.

Já afirmado sua homossexualidade publicamente, foi, por exemplo, presidente da Comissão da Diversidade Sexual e de Gênero da OAB Bauru e presidente do Conselho Municipal de Atenção à Diversidade (Cads). Nestas funções, ajudou a organizar diversas ações, como a anual Semana de Combate à Discriminação e Preconceito.

Nascido em Bauru, formou-se em direito, fez pós-graduação em direitos humanos e mestrado em direito constitucional, advogou, foi professor e segue como corregedor da prefeitura sem deixar de participar do negócio da família. Nesta entrevista, ele conta como a retaguarda familiar e as amizades foram fundamentais para sua trajetória, fala sobre ativismo e os avanços conquistados pela comunidade LGBTQIAP e revela um pouco sobre seu trabalho na resolução de conflitos dentro da prefeitura.

JC - Como foi sua infância, quando ainda não tinha ferramentas para lidar com o bullying?

Leandro - Eu era um menino muito retraído. Para não sofrer bullying, ficava mais com a professora. Aliás, sempre busquei me resguardar nas pessoas mais velhas. Não tinha amigos da minha idade, porque precisava me proteger deles. Ainda na infância, uma vizinha já adulta, a Brasília, se tornou minha melhor amiga. É, até hoje, minha fiel escudeira. Ela foi dona de uma lavanderia e tinha uma cliente, a Neusa Azevedo, uma socialite elegante e culta. Ela foi minha segunda amiga. Com uns 13 anos, comecei a viajar com a Neusa, ir a óperas, concertos, lugares que eu nunca tinha ido.

JC - Seus pais são donos do famoso Churros Oba-Oba, da Praça da Paz. Sua infância também passou por lá?

Leandro - O trailer existe há 30 anos. Então, à noite, eu ficava na praça ou com a minha avó Amélia, que morava perto. Era uma mulher brava, enérgica, que impunha uma disciplina espartana. Mas adquirimos uma cumplicidade e um amor muito fortes. Ela é minha primeira referência, que eu chamo de "menina do meu coração" e faz muita falta. Às vezes, ainda ajudo no trailer, mas minha responsabilidade é fazer as compras dos 257 itens três vezes por semana, além de cuidar da parte financeira. Até hoje, tenho calos nas mãos por escrever e fazer churros.

JC - Você também foi muito amigo de outra mulher: a atriz Françoise Forton, que participou de inúmeras novelas da Globo.

Leandro - Sim. Eu tinha 13 anos e ela veio dar um curso de teatro em Bauru. Minha mãe me levou para que eu desinibisse. Quando acabou o curso, a Fran teve um carinho muito grande e me deu o telefone dela. Ela era muito inteligente e me abriu as portas de um outro mundo. Fui a festas de lançamento de novelas, conheci artistas. E ela vinha a Bauru para decorar textos, construir personagens. Tenho um grande amor pela Fran e o privilégio de ter convivido com a magia de uma pessoa única.

JC - Ter sido rodeado de mulheres fortes desde a infância acabou norteando sua trajetória?

Leandro - Sim. Tenho encantamento por mulheres de personalidade forte. São as mais sensíveis. Com elas, aprendi muito e errei menos ao longo da vida. Estive com minha avó, a Fran, a Neusa - e também com a advogada Ilda Aiello, que me entregou meu diploma, quando me formei - em momentos felizes e no leito da morte. Com tantas partidas em sequência, às vezes, tenho a impressão de ter envelhecido precocemente. Estas mortes foram pesadas e me deixaram muito triste e reflexivo. Mas estas mulheres sempre viverão em mim.

JC - Elas também abriram portas para você se sentir confortável para falar publicamente sobre sua sexualidade?

Leandro - Com as experiências que tive com elas, me senti fortalecido para me impor gay. Mas isso só ocorreu quando eu já estava na faculdade. Ainda existe muito preconceito e é preciso afirmar-se para garantir respeito. Assim como tantos amigos gays, eu poderia estar imerso em drogas e baladas, como subterfúgio, mas a retaguarda moral de uma família rígida, que me acolheu, e os acessos proporcionados por minhas "mulheres" me permitiram estudar e me portar de forma diferente. Não sou melhor que outros, mas tive oportunidades.

JC - Avalia que houve avanços em relação ao respeito à comunidade LGBTQIAP ?

Leandro - Houve. Bauru foi a primeira cidade do Brasil a emitir carteira de nome social a travestis e transexuais e uma das primeiras a ter um Ambulatório de Assistência à Saúde de Travestis e Transexuais, mantido pela prefeitura. Participei ativamente destas conquistas, sempre buscando aproximar mundos, envolvendo outros segmentos que não apenas os que levantam nossa bandeira, como a Igreja Católica e o Conselho de Pastores.

JC - Como é o seu trabalho como corregedor do município?

Leandro - Reviso atos praticados pelos servidores, desde discussões, que são as situações mais comuns, até casos graves de corrupção. Coordeno as ações das comissões e fazemos as investigações, que podem gerar penalidades, de advertência à suspensão. Faço o juízo de admissibilidade com relação à pertinência, enquadramento, e a prefeita toma a decisão final. É um exercício constante de colocar-se no lugar do outro. Qualquer tentativa de entender requer vestirmos outras peles. Além do trabalho, a família, as amizades e a militância são as coisas que amo.

O que diz o corregedor

"Eu era um menino muito retraído. Para não sofrer bullying, sempre busquei me resguardar nas pessoas mais velhas"

"Tenho encantamento por mulheres de personalidade forte. Com elas, aprendi muito e errei menos ao longo da vida"

"Só me impus gay na faculdade. Ainda existe muito preconceito e é preciso afirmar-se para garantir respeito"

Leandro com a avó Amélia (in memoriam), o pai Benedito, a mãe Ana Regina e a irmã Nathália
Leandro com a avó Amélia (in memoriam), o pai Benedito, a mãe Ana Regina e a irmã Nathália
Com a equipe da Corregedoria da Prefeitura, durante a campanha Outubro Rosa
Com a equipe da Corregedoria da Prefeitura, durante a campanha Outubro Rosa
Com a amiga Françoise Forton, provando um dos tradicionais churros
Com a amiga Françoise Forton, provando um dos tradicionais churros "Oba-Oba"
Militando pelo respeito à diversidade com a mãe, Ana Regina
Militando pelo respeito à diversidade com a mãe, Ana Regina

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