ENTREVISTA

Entrevista da Semana com o médico e cirurgião Constantino José Sahade

Por Tisa Moraes | da Redação
| Tempo de leitura: 5 min
Tisa Moraes
Médico angiologista e cirurgião vascular Constantino José Sahade, 72 anos (veja mais fotos no final)
Médico angiologista e cirurgião vascular Constantino José Sahade, 72 anos (veja mais fotos no final)

GENEROSIDADE NAS VEIAS

"Quando alguém pedir ajuda, não negue. Às vezes, você é a resposta de uma oração". O ensinamento dado pelo pai é o que norteia a vida do médico angiologista e cirurgião vascular Constantino José Sahade, 72 anos. Generoso e humanista, ele é daqueles profissionais que atendem seus pacientes olhando nos olhos, com entendimento e empatia pelo momento de fragilidade vivido por eles.

Com 48 anos de profissão, sendo 43 em Bauru, é formado pela Unesp de Botucatu, onde conheceu a esposa, a médica ginecologista e obstetra Maria Cecilia, com quem teve os filhos Nara, Estela e Pedro, que lhes deram sete netos. Cirurgião vascular com mais idade ainda atuante em Bauru, ele também é médico voluntário na Igreja Santo Antonio, onde atende pacientes gratuitamente.

Realiza, ainda, apresentações beneficentes com seu grupo, o Samba de Raiz, para ajudar entidades assistenciais. Filho do libanês Boutros e da descendente de sírios Amelin, Constantino nasceu em Ipaussu, cresceu em Piraju, cursou medicina e fez residência em Botucatu, até fixar-se em Bauru, em 1980, a trabalho.

Aqui, foi, ainda, médico pioneiro do Detran para que pessoas com deficiência física pudessem dirigir carros adaptados. "Foi muito gratificante vê-las voltarem a ter autonomia", diz. Nesta entrevista, ele conta como descobriu a vocação para a medicina, as transformações da profissão, a paixão pelo samba e pelo esporte, o que o move a manter a mão estendida para o próximo e os milagres que teve o privilégio de presenciar em sua trajetória. Leia, abaixo, os principais trechos.

JC - O que lhe inspirou a seguir na carreira médica?

Constantino - Nunca pensei em fazer outra coisa. Meu pai tinha um parceiro de truco, que era médico. Eu nem tinha entrado na faculdade e o acompanhava no hospital, entrava em centro cirúrgico. No quinto ano da faculdade, descobri com o professor doutor Maffei que queria ser cirurgião vascular. A forma como ele fazia medicina era inspiradora. Quando fazíamos as visitas aos pacientes, ele nunca andou na frente dos alunos. Ele ia ao lado, era o último a sair do quarto e sempre dizia para o paciente: "fique tranquilo, nós vamos cuidar de você". Ele é um exemplo, muito ético, dedicado e estudioso.

JC - Você também foi professor da universidade?

Constantino - Fui voluntário. Toda segunda-feira, tinha discussão de casos e, durante uns doze anos, participei. Discutia meus casos com os professores, trazia alguns alunos de residência, todos médicos cirurgiões, para operar aqui comigo. Além de contribuir com a formação dos estudantes, aprendi muito. Tem uma história interessante dessa época. Uma vez, cheguei na faculdade, no início do ano, e tinha um outdoor feito pelo centro acadêmico, onde estava escrito: "Bem-vindos, calouros da medicina". E, embaixo, tinha o rosto de Jesus Cristo e a frase: "Não foi vocês que escolheram, Eu vos escolhi". Acho que o médico é escolhido. A gente escuta dor o dia inteiro. Não é fácil. Nossa maior função é trazer cura ou amenizar o que não pode ser curado.

JC - Você está há quase 50 anos fazendo medicina. O que mudou de lá para cá na sua área?

Constantino - Medicina é uma ciência de verdade temporária. Quando você sai da faculdade, tem uma bagagem para três a cinco anos. Por isso, a gente precisa estar sempre estudando. No passado, a gente secava vasinhos com uma agulha quente. Hoje, seca aplicando uma solução de glicose, com agulha. Antes, quando eu fazia um aneurisma de barriga, abria de fora a fora. Hoje, fazemos por videolaparoscopia, um cortezinho pequeno na virilha, às vezes com anestesia local.

JC - Você também faz um trabalho voluntário, atendendo pacientes gratuitamente. Ajudar o próximo é sua missão?

Constantino - Faço este trabalho há 35 anos na Pastoral da Saúde da Igreja Santo Antônio, na Bela Vista. Tenho o maior orgulho. O seo Candinho, que era profissional de farmácia aposentado, era pai de um menino especial que eu atendia. O seo Candinho fazia este trabalho na igreja e eu quis ajudar. Hoje, atendo todas as terças-feiras, fazendo medicina geral. Temos uma farmácia grande de medicamentos doados. É um trabalho maravilhoso. E, quando chega um caso em que tenho dúvidas, conto com médicos voluntários, que atendem estes pacientes em seus consultórios gratuitamente. Muitos também separam remédios e vamos buscar. Meu pai me falou uma vez: "Quando alguém pedir ajuda, não negue. Às vezes, você é a resposta de uma oração".

JC - Teve um caso, na sua carreira, que mais te marcou?

Constantino - Sou católico, mas já vi milagre em todas as religiões. Teve um caso de uma senhora que estava em coma no Hospital de Base e um parente veio perguntar se era para chamar a família e eu disse que sim. Sou da maçonaria, assim como meu pai e avô foram. E, lá, tem o que chamamos de cadeia de união, em que todos se juntam, dão as mãos com os braços cruzados, fazendo um laço, e oram para quem está precisando. Então, lá no Base, uma filha dessa senhora disse que um padre estava chegando e perguntou se poderíamos fazer uma oração. E propus fazermos a cadeia de união. No dia seguinte, passei cedo no hospital e a senhora estava sentada na cama. Ela acordou, viu e conversou com toda a família, e morreu depois do almoço.

JC - O que gosta de fazer nas horas vagas?

Constantino - Sou são-paulino e Noroestino. Quase fui jogador profissional de vôlei e minhas filhas jogaram vôlei pelo BAC. Hoje, jogo tênis aos fins de semana, no BTC. Gosto de samba, toco percussão e saxofone. Fui bicampeão pela escola de samba Camisa 10, em Bauru, como diretor de harmonia. Integro um grupo, o Samba de Raiz, que faz apresentações beneficentes quando uma entidade pede ajuda. Combinamos com um bar, o público paga ingresso e o valor vai para a instituição. Também fui diretor de eventos no BTC durante oito anos e organizei muitos carnavais e festas. Conheci muita gente. Prezo muito a família e amigos.

Constantino com Pedro (esq.), Clara, Alice, a esposa Maria Cecilia, Felipe, Eduardo, Estela, Guilherme, Rafaela, Henrique e Nara (crédito: Arquivo pessoal)
Constantino com Pedro (esq.), Clara, Alice, a esposa Maria Cecilia, Felipe, Eduardo, Estela, Guilherme, Rafaela, Henrique e Nara (crédito: Arquivo pessoal)
Equipe da Pastoral da Saúde da Igreja Santo Antônio: Constantino (ao centro), com Ana Martins, Alessandra Daltio, Ana Martinello, Conceição Mendes, Nuria Fainer e Bete Tiba (crédito: Arquivo pessoal)
Equipe da Pastoral da Saúde da Igreja Santo Antônio: Constantino (ao centro), com Ana Martins, Alessandra Daltio, Ana Martinello, Conceição Mendes, Nuria Fainer e Bete Tiba (crédito: Arquivo pessoal)
Constantino com o professor Francisco Maffei, sua inspiração desde a faculdade para seguir na carreira de cirurgia vascular (crédito: Arquivo pessoal)
Constantino com o professor Francisco Maffei, sua inspiração desde a faculdade para seguir na carreira de cirurgia vascular (crédito: Arquivo pessoal)

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