ENTREVISTA

Entrevista da Semana com o 'fera' da Física Roberto Nardi

Por Marcele Tonelli | da Redação
| Tempo de leitura: 5 min
Marcele Tonelli
Roberto Nardi mostra medalha internacional recebida em dezembro da Iupap, maior honraria na área de ensino à Física no mundo
Roberto Nardi mostra medalha internacional recebida em dezembro da Iupap, maior honraria na área de ensino à Física no mundo

DO BELA VISTA AO MUNDO PELA FÍSICA

Ele é bauruense, filho de funcionário da ferrovia e criado no Jardim Bela Vista, mas hoje é reconhecido no mundo como uma sumidade do ensino à Física. Professor da Faculdade de Ciências (FC) da Unesp, Roberto Nardi, 71 anos, possui mais de 50 anos na docência e foi condecorado, em dezembro último, com um prêmio internacional por sua contribuição em relação à disciplina. Trata-se de uma medalha conferida anualmente pela Comissão Internacional do Ensino de Física (ICPE), uma das comissões formadas por mais de 60 países que integram a União Internacional de Física Pura e Aplicada (Iupap).

Considerada homenagem máxima na área (e que havia sido recebida apenas uma única vez na história por brasileiro), a premiação consagra legados cuja influência ultrapassa as fronteiras do país. O nome de Nardi foi indicado ao prêmio pela Sociedade Brasileira de Física (SBF).

Com 45 livros publicados, o professor da Unesp é considerado um dos mais antigos do País no ensino à disciplina, tendo contribuído para formação de centenas de mestres e doutores Brasil afora. Docente apaixonado, ele confessa "viver" pela educação, tendo como segunda paixão as viagens, geralmente feitas com viés profissional.

JC- Conte um pouco sobre suas origens

Nardi- Sou neto de italianos que trabalhavam na roça. Meus pais, Paschoal Nardi e Mafalda Froline, vieram para Bauru em razão da ferrovia, porque ele conseguiu um emprego na antiga Companhia Paulista. Sou o caçula de três irmãos (ele, Neusa e Rubens). Cresci no Jd. Bela Vista e precisei que trocar as brincadeiras na rua para começar a trabalhar, meu primeiro emprego foi aos 14 anos como auxiliar de escritório na Casa Lusitana.

JC - A decisão de fazer faculdade de Física surgiu como?

Nardi - Meus pais queriam que todos os filhos fizessem faculdade e eu estudei sempre em escolas públicas, na João Maringoni e Morais Pacheco. Tive professores excelentes e que cobravam bastante, então, sempre me dediquei. Na época, o único curso superior em Bauru era de Odontologia, na USP, mas aí a prefeitura abriu a Fundação (atual Unesp) com o curso de Física. Foi aí que eu decidi que me tornaria professor e mergulhei. Fui bolsista e, no 3º ano de faculdade, já lecionava. Concluí o curso em 1972 e, em 1974, passei a professor da E.E. Luiz Zuiani. Em 1975, fui convidado para ministrar aula de Ciências na Fafil (atual Unisagrado).

JC - Foi nessa época que você foi para a Temple University, nos Estados Unidos? O que veio depois disso?

Nardi - Fiquei na Filadélfia de 1976 a 1978 e voltei ao Brasil como mestre. Depois, prestei concurso e, em 1980, ingressei para o departamento de Física da UEL, o qual chefiei depois. Fiquei lá até 1994, ano em que vim para a Unesp de Bauru.

JC - Qual o momento em que sua carreira como pesquisador viveu "uma virada de chave"?

Nardi - Quando estava na UEL fui convidado para presentear a SBF pelo Paraná. Me filiei e comecei a participar de todos os simpósios e, assim, fui assumindo cargos, chegando a me tornar presidente da comissão de pesquisa. Acredito que eu estava no local certo e na hora certa, porque tudo confluiu para me abrir caminhos depois. Foi a SBF que me indicou ao prêmio internacional que recebi.

JC - Fale sobre suas principais contribuições na área acadêmica.

Nardi - Orientei o trabalho de mais de cem pesquisadores e até ganhei uma arte pintada por uma aluna, a "árvore acadêmica" com os nomes dos orientados de mestrado, doutorado e pós-doutorado das últimas décadas. Sou um dos fundadores do Programa de Pós-graduação em Educação para a Ciência da Unesp, que desde 1997 já formou cerca de 650 mestres e doutores, incluindo pesquisadores de países como Colômbia, México, Canadá e China. Tenho 45 livros escritos, criei a revista Ciência & Educação e participei de mais de 450 eventos relacionados ao ensino de Ciências e de Física.

JC - O que o levou a conquistar essa premiação?

Nardi - A minha luta é por criar formas de ensinar Física que sejam mais efetivas do que apenas decorar fórmulas. É preciso envolver a disciplina na resolução de problemas reais do dia a dia, porque ela é conceitual. Sobretudo, não basta conhecer para ensinar, os educadores devem considerar o contexto de vida dos alunos, a faixa etária e o conhecimento que já possuem, respeitando o que o aluno traz, contrapondo e, se necessário, desconstruindo para que o aprendizado ocorra. O Brasil é um dos países que mais se desenvolvem no ensino à Física e posso dizer que participei ativamente dessa evolução. Digo que nosso problema é publicar as pesquisas em português, que não é uma língua universal.

JC - Qual a importância dessa medalha?

Nardi - Essa é a maior honraria na área de ensino à Física no mundo. E deslocá-la da Europa, que é onde geralmente ela fica, para a América Latina é uma realização. Esse prêmio não é meu, mas de todos nós e da Unesp de Bauru. Digo que já posso até morrer tranquilo (risos).

JC - Quem é o Roberto Nardi fora da academia?

Nardi - Um solteirão que estuda muito e ama viajar. Já fui para mais de 60 países, mas nem 10% disso foi para lazer, a profissão é que me leva.

JC - Planos futuros?

Nardi - Já estou como professor associado na Unesp, que é o último cargo possível, e pretendo continuar como orientador voluntário do mestrado e doutorado. Quero continuar compartilhando conhecimento, se eu parar, acho que entro em colapso! (risos).

O QUE DIZ O PROFESSOR

'A minha luta é por criar formas de ensinar Física que sejam mais efetivas do que apenas decorar fórmulas'

'Já fui para mais de 60 países, mas nem 10% disso

foi para lazer, a profissão é que me leva'

Em família: Roberto Nardi com a irmã Neusa, a mãe Mafalda Froline (em memória) e o irmão Rubens (crédito: Arquivo Pessoal)
Em família: Roberto Nardi com a irmã Neusa, a mãe Mafalda Froline (em memória) e o irmão Rubens (crédito: Arquivo Pessoal)
Roberto Nardi ministrando aula de Física na E.E. Luiz Zuiani no início da carreira, na década de 70
Roberto Nardi ministrando aula de Física na E.E. Luiz Zuiani no início da carreira, na década de 70
Pesquisador altamente produtivo, Roberto Nardi participa de várias conferências internacionais de ensino à Física
Pesquisador altamente produtivo, Roberto Nardi participa de várias conferências internacionais de ensino à Física
Além de medalha internacional recebida em dezembro da Iupap, Roberto Nardi já recebeu diversas homenagens da Unesp por sua atuação como docente e pesquisador (crédito: Marcele Tonelli)
Além de medalha internacional recebida em dezembro da Iupap, Roberto Nardi já recebeu diversas homenagens da Unesp por sua atuação como docente e pesquisador (crédito: Marcele Tonelli)

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