Mergulhador profissional, James Cameron inundou as salas de cinema de gente ao pôr um navio para naufragar e, depois, uma expedição para resgatar seus tesouros em "Titanic", de 1997. Foi a maior bilheteria da história à época, até ser destronado por outro filme do cineasta, "Avatar", em 2009. Nele, Cameron voltou à superfície numa trama que tinha nos voos em criaturas aladas e nos saltos entre árvores gigantescas boa parte de seu senso de encantamento. Após jejum de 13 anos, ele decidiu retornar à cadeira de direção justamente com uma espécie de casamento dos 2 projetos, "Avatar: O Caminho da Água", que estreia nesta quinta (15) nos cinemas, inclusive em Bauru (leia na página 21)
Como o título sugere, ele retoma os personagens de "Avatar", mas submerge a câmera para que o espectador descubra o que guardam as profundezas dos mares de Pandora, lar das criaturas alienígenas azuis de três metros concebidas para a trama original. Com suas mais de três horas de duração, sobra tempo até para Cameron afundar um novo navio.
Principal estreia da semana - e, não é exagero dizer, do ano -, "O Caminho da Água" chega envolto em expectativa por vários motivos, que vão muito além da espera de mais de uma década por uma sequência.
Primeiro, o filme tem potencial enorme na temporada de premiações de Hollywood, como o Globo de Ouro confirmou. Segundo, Cameron investiu novamente em tecnologias inéditas para tirar suas ideias do papel. Terceiro, todos querem saber se os 13 anos de intervalo fizeram o interesse pelos personagens naufragar ou se "O Caminho da Água" tem chances de se aproximar dos US$ 2,7 bilhões, cerca de R$ 14,2 bilhões, que o original arrecadou.
"O grande incentivo para que eu retornasse a esse universo foi o quanto a equipe de 'Avatar' se divertiu enquanto o fazia. E, claro, é importante que uma sequência honre o que o público amou, mas ao mesmo tempo apresente elementos que sejam inesperados", afirmou Cameron em entrevista.
Além da água, estão entre esses elementos uma nova etnia do povo na'vi e dramas familiares que expandem os temas ecologistas herdados do primeiro "Avatar".
É um roteiro mais complexo, avalia o cineasta, que levou às telas suas questões enquanto pai. "Você aprende a ter medo quando tem filhos", afirma ao resumir quão diferentes estão os protagonistas Jake Sullivan e Neytiri.
"É claro que há uma conexão a ser feita com o nosso planeta. No Brasil, por exemplo, esse é um grande problema. Então seria incrível se 'O Caminho da Água' estimulasse não só conversas, mas ações para que nós preservemos o nosso lar", diz Stephen Lang, que repete o papel do vilão Miles Quaritch, que sai destruindo qualquer animal, planta ou na'vi pela frente.
Chega a ser irônico que um filme tão preocupado com o meio ambiente exija uma tecnologia tão avançada para sair do papel. "Avatar" revolucionou a experiência cinematográfica ao usar o 3D como nunca antes e ao popularizar a captura de movimentos, em que feições e gestos de atores são transmitidos para personagens criados em computação gráfica.
"O Caminho da Água", agora, tem a difícil tarefa de repetir o senso de novidade e imersão de 2009.
Nesse contexto, ambientar boa parte do filme debaixo da água parece uma sacada de gênio -mas não um caminho fácil. Cameron, então, desenvolveu aparelhos que poderiam realizar a captura de movimentos necessária para dar vida aos na'vis no fundo de tanques de mergulho.
Em tempos de incertezas pós-Covid para as salas de cinema, atingidas ainda pela ascensão do streaming, "Avatar: O Caminho da Água" parece ser o candidato ideal para provar que a televisão de casa nem sempre dá conta do recado.