Vida na imensidão do céu. Morte na exatidão da terra

Por Alexandre Benegas |
| Tempo de leitura: 3 min

Prazer. Eu o acompanho desde o momento da fecundação. Respeitei as fases embrionárias pelas quais você passou. Mórula, blástula, gástrula, nêurula. Acompanhei o líquido amniótico alimentá-lo pelo cordão umbilical. Quando criança, sua falta de ar misturava-se com o choro incontido da mãe de gravidez iniciante. Chamava minha atenção a banheira que, irrestrita a navios e embarcações infláveis, adesivava nuvens interligadas a um arco-íris e a um carro de corrida acelerado prestes a sorver o súbito vaivém das águas do banho. Os chocalhos, a palmilha que você esqueceu aonde poderia levá-lo. Ah, separei seus dinossauros e um e outro animalzinho selvagem. Poderia não eliminá-los, contudo juntos tornaríamos mais fortes e seguros para enfrentar o bicho do medo. Guardei-lhe da escuridão. Poderia não impedi-la, entretanto de mãos dadas tudo, é claro, ficaria esclarecedor. Apresentei-lhe a dúvida. Viver em ponto de interrogação - acredite! - responde muita coisa. Mostrei-lhe a manhã-menina bocejando do ventre do tempo. Você, com a concentração de um relojeiro, emudeceu-se e eu, por completo, atinei-me com a delicadeza do seu silêncio. Numa tarde de julho, fiz você ouvir os uivos do vento e os chios d'água negociarem quem cede e quem domina; vencido pelo sono, desconheceu o resultado.

Levei-lhe à casa dos seus avós por diversas vezes. É importante você aprender o amor em rugas na primeira pessoa do plural. Entender, definitivamente, que gastar tardes na casa dos avós é investimento afetivo seguro e confirmado. Orientei-lhe que comer na companhia de uma pessoa querida não era um ato corriqueiro, e sim uma celebração; que o dia pode existir na urgência de um encontro, sem pauta definida ou prévio agendamento; que tudo também pode desacontecer num instante fugidio, que a morte é a atrocidade do nunca mais.

Ensinei-lhe a começar a ser letra, desenvolver-se em palavra, transformar-se em verbo. Não lhe exigi a rima: você usou o texto como pretexto de um contexto.

Ao provar a adolescência, provei pra você que o amor poderia ser uma arte ou um a mera casualidade, que o silêncio da boca da noite amacia capim graúdo amanhecido, que o dia clareava a desgraça da rua revolta; que a lua iluminava a desigualdade hereditária da cidade ofendida; que a mentira se despetalava com um simples sopro da verdade, sim essa de comparecimento aguardado como a chegada iminente do sol. Aos poucos, você desmeninava-se espantado ante à explosão da vida.

Na vida adulta, fi-lo rever seus gestos. Você começou a colecionar jogos, não o espaço em que se ganha ou que se perde; pratos de porcelana, não o que se saboreou; passaportes de aviões, não as viagens; vinhos, mas não a memória da sede; livros, nunca o início, o meio e o fim; selfies, não o instante vivido; fotos de pássaro, não o seu voo; velas de aniversários, jamais o sopro da vida; CDs, não a rotação entre as músicas.

Hoje, suas mãos enrugadas mexem em objetos bengalados pelo uso, deixados no esquecimento do ontem. No chão da casa adormecida, você continua se entregando lento para a manhã igual às outras. Era um dia qualquer para os relógios. A mesa de centro, a água da torneira, a chave na porta, a luz apagada; menos pra você que, sentado no sofá segurando o porta-retratos da família, morria.

O autor é professor de Língua Portuguesa.

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