Falta estrutura para vencer águas pluviais
Falta estrutura para vencer as águas pluviais
Texto: Alessandra Morgado
Cidade não tem galerias pluviais, barragens ou mesmo atitude consciente para tentar evitar as inundações
A sina bauruense com as enchentes, erosões e buracos datam de muito longe- em 1919, a primeira usina elétrica da cidade foi destruída por uma enchente violenta do Rio Bauru- mas, até hoje continuam os problemas relativos às águas das chuvas. A cidade ameaça chegar ao século 21 sem uma infra-estrutura de captação das águas pluviais descente, que garanta sossego à população. A administração pública alega o de sempre: falta de recursos.
Quem nota apenas os buracos, erosões, estragos e perdas causadas pelas águas das chuvas, na forma de enxurradas, não vê o essencial, a falta de estrutura da cidade. Quando a água da chuva corre pela superfície do solo em quantidades e velocidades acima do aceitável o resultado não é animador, basta tentar passear por bairros como o Parque Santa Edwirges, Pousada da Esperança 1 e 2, entre outros que não foram poupados pelos estragos da chuva.
O presidente da Comissão Municipal de Defesa Civil, Álvaro de Brito, confessa que a situação geral da cidade
é crítica e, para alguns bairros, nunca foi pior. Porém, ele destaca que a base da problemática das
águas é a falta de infra-estrutura e planejamento de crescimento. Isso tudo resultou na situação de caos urbano vivida por algumas áreas. Basta se pensar que a avenida José da Silva Martha, antiga Avenida das Mangueiras, está em obras há mais de um ano.
"Bauru tem que ser repensada em termos de captação de águas pluviais. Em termos de sistemas de galerias, programas de dragagens e córregos. Imagine daqui a 10, 15, 20 ou 25 anos, como é que nós vamos estar?", salienta Brito.
Existem três caminhos naturais básicos para a água da chuva: parte dela evapora, outra infiltra-se no solo e a terceira corre sobre a superfície. O crescimento da cidade aliado ao processo de impermeabilização do solo, seja através do asfaltamento de vias ou da construção de residências faz com que o volume de água correndo sobre a superfície do solo, em épocas de chuva, aumente casa vez mais e coloque em risco os locais por onde passa. Vale lembrar que as áreas baixas próximas a fundos de vales costumam ser atingidas pelas enchentes, enquanto pelo caminho feito pela água sobram barro, sujeira e, muitas vezes, destruição.
O que acontece em Bauru é mais uma mostra da falta de preparo humano para intervir nos processos naturais. Ocupações irregulares em áreas de alagamento, loteamentos e núcleos habitacionais têm sido o estopim de problemas maiores que culminaram em danos para o patrimônio público e particular.
Os imóveis em locais sujeitos a inundações também acabam sofrendo uma desvalorização. Os bairros mais castigados pelas chuvas são o Parque Santa Edwirges, Parque Viaduto, Pousada da Esperança 1 e 2, Parque Roosewelt e Parque Jaraguá (parte baixa).
Rio Bauru
Uma das preocupações da Defesa Civil é com o futuro do Rio Bauru, único canal de escoamento das águas pluviais da cidade, que pode não ser suficiente para atender a demanda das enxurradas num futuro próximo.
"O que vai acontecer daqui a 10 ou 15 anos? Talvez a gente tenha que perder uma das laterais da av. Nuno de Assis para alargar o rio e a profundar mais. Se não for feito nada, vai ter que se fazer isso", afirma ele.
Brito destaca que "o rio não está suportando a urbanização desordenada e toda a captação de água". Para ele, a situação aponta para a necessidade de se repensar a cidade nesse aspecto.
Mais problemas
É alarmante pensar que os problemas gerados pelo crescimento desordenado ainda não chegaram a seu teto máximo. Brito destaca que existem núcleos habitacionais em formação ou recém-entregues que já nasceram comprometidos, como é o caso do núcleo localizado na Quinta da Belo Olinda. Outro residencial em construção está causando o assoreamento do Córrego Água do Sobrado, ou seja, mais problemas para a cidade.
A Defesa Civil orienta à população para que contrua novos imóveis acima do nível para rua, preservando a caída para a rua.
Geólogo propôs medidas para evitar estragos das chuvas
Fazer com que a água das chuvas não escoasse rápida e concentradamente é a principal medida a ser tomada para se evitar os alagamentos de partes baixas e a destruição causada pelo acúmulo de água da chuva. O geólogo, Nariaqui Cavaguti, especialista na área ambiental, afirma que não há apenas uma proposta única para atender toda a cidade, ao contrário, deve-se adotar um conjunto de medidas contra o problema, desde o redimencionamento das galerias de águas pluviais até um apoio educacional.
É sabido que a própria população joga lixo e entulho em locais não apropriados, o que acaba entupindo galerias e bocas-de-lobo e colaborando para a situação atual.
"É sempre um conjunto de causas. A causa principal delas é a expansão urbana, com a impermeabilização do solo e um sistema drenante que não está funcionando a contento. O sub-dimensionamento das galerias e o entupimento delas também colabora", destaca o geólogo.
Nariaqui explicou que na gestão passada existia um projeto que incluia a construção de barragens próximas
às montantes (nascentes dos rios), mas aparentemente isso ficou esquecido.
O geológo chegou a propor um conjunto de medidas estruturais
(obras), que são a construção de barragens junto às nascentes, mas também sugeriu a criação de uma lei que obrigasse as casas a ter uma área mínima de infiltração, uma proposta que foi colocada de lado. Além disso também foram sugeridas uma série de medidas preventivas, que auxiliariam na redução das enxurradas.
Obras tem projetos, mas falta verba
O engenheiro Eduardo Garcia Sanchez, diretor de obras públicas da Secretaria Municipal de Obras, explicou que existem projetos de obras de captação de águas pluviais para quase todos os bairros. Porém, falta ao poder público para realizar as obras ou finaliza-lás.
Ele destaca que o problema nasceu com a ocupação das áreas da cidade, principalmente nos loteamentos mais antigos entregues sem as obras de infra-estrutura, galeiras de obras pluviais entre elas.
"Teria que ser feito a rede de galerias para a captação de água e, posteriormente, estaria liberado para fazer a pavimentação em cima", explica Sanchez.
No caso do Parque Santa Edwirges, o engenheiro explicou que o maior problema do bairro é o entupimento das galerias e bocas-de-lobo que são facilitadas pela falta de pavimentação. Sanchez destaca que a situação é melhor se comparável a outras cidades, até menores, porque aqui os problemas são concentrados em pontos isolados.
(AM)