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Ensino e educação

Andréia Alevato
| Tempo de leitura: 6 min

Resgatandoa socialização na escola pública

Resgatando a socialização na escola pública

Texto: Andréia Alevato

Resgatar as relações sociais no interior da escola, viabilizando ações coletivas junto aos vários segmentos escolares (professores, funcionários, alunos, pais e familiares), como proposta de solução para as dificuldades relacionadas à violência, indisciplina, apatia, indolência e outras questões ligadas a participação alienada na escola. Este é o objetivo do projeto "Resgate das Relações Sociais Humanizadoras na Escola", coordenado por Irineu Tuim Viotto Filho.

O projeto foi implantado na Escola Estadual "João Maringoni", no período noturno, do segundo semestre do ano passado. Segundo a delegada de ensino, Ednéa Cucci, a escola apresentava maior número de reclamações sobre violência. Todo ensino médio (colegial) da escola participou do projeto. No total, foram 720 alunos, sendo 256 do 1º colegial, 299 do 2º colegial e 165 do 3º.

Viotto Filho observou que antes da implantação do projeto, eram registradas cerca de 35 advertências na direção da escola. Depois do projeto, esse número baixou para 17.

Devido a violência nas escolas, a Delegacia de Ensino de Bauru decidiu prestar um atendimento mais específicos para determinadas escolas. Partindo dessa idéia, segundo a delegada de ensino, Ednéa Cucci, é que foi implantado o projeto de resgate das relações sociais na escola pública. O projeto já estava sendo desenvolvido por Viotto Filho.

Segundo o coordenador do projeto, a idéia é resgatar as relações sociais dentro da escola pública, criando condições para o adequado desenvolvimento das potencialidades humanas.

"Nós percebemos que num ambiente onde as relações sociais são equilibradas e saudáveis, os indivíduos encontram melhores condições para o desenvolvimento das potencialidades humanas no interior da escola", disse Viotto Filho.

A delegada de ensino explicou que a primeira providência tomada, foi realizar uma reunião com diretores, coordenadores e professores da escola, para que eles se sensibilizassem e contribuíssem com a mudanças necessárias no sentido de melhoria das relações sociais dentro da escola. Em seguida, diversas atividades e dinâmicas foram realizadas com os alunos.

"A gente percebeu que nos cursos noturnos havia uma falta de relacionamento entre os alunos muito grande", afirmou Ednéa Cucci.

O projeto envolveu professores, alunos, coordenadores e pais, para que o objetivo fosse alcançado totalmente. Estudantes de psicologia da Unesp participaram do projeto e ajudaram na parte psicológica e na aplicação das dinâmicas.

"Queríamos acabar com essa impressão de que alunos de escola pública são violentos. E para acabar com a violência dentro da escola, precisávamos envolver toda a escola e a comunidade, porque se o aluno tem um problema de violência em casa, ele vai descontar tudo nos colegas da escola", comentou Viotto Filho.

A delegada de ensino disse ainda que o trabalho conseguiu fazer com que os alunos identificassem a escola como um ambiente deles e não do governo. Ela afirmou ainda que antes da implantação do projeto, haviam líderes de turmas na escola e que com as várias atividades desenvolvidas durante o projeto, os alunos se destacaram de outras maneiras.

"Eles precisavam se destacar de alguma forma. As diversas atividades desenvolvidas durante o projeto fizeram com que eles se destacassem de uma outra forma. Hoje, essas turmas praticamente não existem mais", completou Ednéa.

A Delegacia de Ensino pretende estender o projeto para outras escolas este ano. Na "João Maringoni", ele terá continuidade este ano.

"Os alunos estão formando grupos de teatros e desenvolvendo outras atividades. A intenção da Delegacia de Ensino

é estender o projeto para as outras escolas da cidade, dando preferência primeiro para as que apresentam maiores problemas, e em seguida para as outras, como um trabalho de prevenção", afirmou a delegada de ensino.

Depois da implantação do projeto, o número de advertências mensais caíram em 50%. A maioria delas era relacionada a agressões.

"É importante esse tratamento mais amistoso no ambiente escolar. Com a implantação do projeto, não resolvemos o fator da violência na escola totalmente, porque a violência envolve outros fatores, que vêm de outros lugares, mas, pelo menos no ambiente escolar, ela diminuiu", disse o coordenador do projeto.

Ednéa Cucci disse ainda que a escola não deve se preocupar só com a transmissão do conhecimento, mas se preocupar em unir a transmissão do conhecimento com a formação humana.

"Os professores devem conseguir unir, na sala de aula, a matéria do dia com a realidade do aluno, aliando conhecimento com formação humana, e aprender que o respeito do aluno deve ser conquistado com competência e diálogo e não com autoritarismo.

A delegada de ensino afirmou também que depois da implantação do projeto, os alunos da escola "João Maringoni" levam os problemas para a direção da escola, apresentam propostas e estudam soluções.

"Eles cumprem seus deveres, mas cobram seus direitos", completou.

Ednéa Cucci confirmou que o projeto será ampliado com parcerias de várias entidades da cidade. Uma delas

é a OAB, que dará o respaldo na parte jurídica, com o lançamento da cartilha "A OAB vai à escola", mostrando que todos tem direitos, mas também têm deveres.

"Temos também o projeto Comunidade Presente, que vai envolver comunidade e escola. Todos os projetos são para melhor desenvolver a criatividade dos alunos de escola pública. Eles são criativos, têm potencial. E nós temos que dar chances para que eles se destaquem", concluiu a delegada.

Marcela Leal Calais, estudante do 4º ano de psicologia na Unesp, e que participou do projeto afirmou que a experiência em ter o contato com o trabalho foi ótima, mas, melhor ainda, foi ver de perto que a a violência dos alunos era uma forma de libertar a dificuldade em se relacionar com outras pessoas.

"Eu estudei em escola pública até a 8ª série, então, já tive contato com ela. O que aconteceu é que foi falado que nós trabalharíamos na escola mais violenta de Bauru. Então, já fomos achando que os alunos eram violentos. Só que o que nós encontramos foram pessoas maravilhosas, que esperam um futuro melhor, mas que tinham dificuldades em se relacionar com os outros alunos", afirmou Marcela.

Ela disse também que ela tem contato com alguns alunos.

"Depois do projeto, eles mudaram sua visão de tudo, não só da escola, mas também do trabalho e da família", completou.

A estagiária Cláudia Guedes Araújo, também estudante do 4º ano de psicologia da Unesp, que participou do projeto não teve receio em trabalhar na escola pública, porque estudou em uma até o 3º colegial, no período noturno. "Algumas colegas tiveram receio, mas ele acabou depois do primeiro contato. A diferença deles é conjuntural", disse Cláudia.

Para ela, o mais interessante foi o resultado do projeto.

"Tinham classes em que os alunos nem se falavam e no final do ano, depois do projeto, eles fizeram uma festa de confraternização", completou.

Ela disse ainda que acha importante o trabalho da psicóloga na escola pública, mas não um trabalho assistencial e sim um trabalho que resgate a auto-estima do aluno e que estabeleça um grupo dentro da escola.

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