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Trident

Marcos Zibordi
| Tempo de leitura: 7 min

Era da informática obriga Trident a diversificar

Era da informática obriga Trident a diversificar

Texto: Marcos Zibordi

No ramo de indústria de precisão há 40 anos, empresa lança novos produtos e absorve mais mercado

Itapuí - A Trident, líder no hemisfério Sul na área de produtos de precisão para arquitetura, desenho, engenharia e topografia, está diversificando sua linha de produtos frente aos novos rumos que seu mercado está tomando.

Os novos produtos atendem ao mesmo nicho de mercado que a empresa atua, oferecendo novos artigos dentro da linha de atuação. Quem já fabricava as pranchetas para desenho arquitetônico também está colocando no mercado uma linha de móveis modulares para escritório, aumentando o "catálago" de opções. Ainda na área de arquitetura/engenharia, a Trident está lançando "softwares" para desenhos e projetos em português com custo mais baixo que o dos concorrentes internacionais. O TridentCAD, bidimensional, terá uma nova versão em 3D (tridimensional) com lançamento previsto para março.

A empresa ainda dispõe de outros produtos usados como "ferramentas" para os programas de AutoCAD, como normógrafo digital, mapoteca eletrônica, comandos especiais para desenhos de paredes e edição de linhas paralelas. Os programas de gabarito digital vão desde aplicativos para projetos de Banheira/Hidromassagem, Louças Sanitárias, Humanização/Paisagismo até Tubos e Coneções para projetos de esgoto sanitário.

Segundo o diretor-presidente da Trident, Paulo Negraes, nenhuma empresa se mantém no mercado se não diversifica sua linha de produtos. Segundo ele, réguas e esquadros de precisão sempre serão vendidos, mas a demanda requer mudanças, principalmente no seu ramo, onde as inovações tecnológicas estão ganhando cada vez mais preferência com os programas de edição eletrônica.

A nova linha de produtos é registrada sob a marca Trident Digital que, além dos "softwares" para arquitetura e engenharia, lança uma linha de móveis modulares para escritório.

As instalacões da indústria ganharam uma marcenaria de 15.000 metros quadrados para a fabricação dos móveis. De concepção simples e ergonômica, os módulos para escritório são fabricados com estrutura em mogno e podem ser montados conforme a necessidade do usuário. Ele também pode optar pela quantidade de módulos que deseja para montar o ambiente. A linha de módulos para armários se completa com racks e mesas, em mogno, cerejeira ou aço tubular. Um dos lançamentos

é o rack tubular estudante, uma mesa para computador para ser utilizada em escolas. A vantagem é que o monitor da máquina fica rebaixado na altura dos joelhos do usuário, possibilitando que o aluno tenha plena visão das outras pessoas que estejam na sala.

Novas idéias para artigos tradicionais

Entre as inovações que a empresa está colocando no mercado, destacam-se os novos modelos para produtos que estão no mercado há muito tempo.

As tradicionais pranchetas para desenho técnico passaram por mudanças na estrutura e no design e chegam ao mercado para facilitar a vida do usuário. Um dos lançamentos

é a Prancheta Portátil, ideal para uso em sala de aula. Ela é feita em madeira e dispõe de espaço interno para acondicionamento dos materiais. A parte externa do tampo, a prancheta propriamente dita, mede 52 x 42 centímetros permitindo a regulagem e a inclinação da mesma. Ela já vem equipada com régua paralela.

Os cavaletes para prancheta, tradicionalmente equipados com borboletas, presilhas e outros prendedores, foram redesenhados. A nova linha de cavaletes tubulares é mais prática, leve e funcional. Seu preço também é mais acessível que o das tradicionais. Para acompanhar as pranchetas, a Trident também lançou uma nova linha de cadeiras ergonômicas.

Os conhecidos e nem sempre acessíveis cavaletes para pintura, passaram por um redimensionamento. A Trident está lançando no mercado cavaletes de madeira clara, com acabamento simples e protegidos com óleo de linhaça.

A última novidade, que será lançada no fim do ano, é a linha de móveis de plástico. Uma máquina de "Rotomoldagem" já está instalada na empresa e terá capacidade de fabricar, numa

"fornada", uma mesa de até 2,5 metros de altura. Essa nova linha terá revestimento especial e acompanha os lançamentos da Trident na área de móveis modulares e equipamentos para escritório.

AL e EUA 'puxam' as exportações

A Trident conta com 4.600 papelarias que revendem seus produtos no Brasil, além de revendedores na América Latina e Estados Unidos. O mercado forte é a América Latina, crescendo principalmente na área de artes. Tintas, cavaletes e telas são vendidos cada vez mais. "A arte é uma área em crescimento", diz. O Mercosul é o principal mercado. Argentina, Uruguai e Chile são os maiores compradores.

A incerteza do mercado financeiro e os problemas da administração pública nacional fazem aflorar as opiniões de Negraes enquanto empresário sobre a economia e a administração brasileira. "É uma incapacidade total em gerir a coisa. Nós atravessamos crises periódicas sem que nunca o comércio ou a indústria sejam responsáveis. Nunca foi crise agrícola, crise da indústria, nunca foi crise do comércio. Foi sempre crise por excesso de gasto lá em cima", resume. E continua: "Todo o déficit externo do Brasil é resultante de empréstimos privados. Todo déficit interno desse governo é um descontrole público medonho, grande parte fruto dessa Constituição maldita de 88".

Como a Trident exporta mais do que importa, a empresa não sofreu com as flutuações recentes do mercado. Segundo Negraes, a Trident exporta cerca de U$$ 1 milhão por ano. No mercado interno, o valor mensal é de U$$ 1 milhão.

"Se o dólar ficar por volta de R$ 1,5 nossa exportação dobra".

Substituição de importação fez o nome Trident

Texto: Marcos Zibordi

Empresa começou com a fabricação de percevejos e hoje é a maior do hemisfério em materias de precisão

Itapuí - A Trident nasceu em 1957, em São Paulo, quando seu proprietário fechou uma empresa de Heliografia. Segundo Paulo Negraes, todos os produtos de precisão para papelaria com que ele trabalhava eram importados. "Tirando caderno, o Brasil praticamente não fabricava nada".

O empresário, decidido em investir nessa área, pensou em fabricar produtos simples para engenharia e que, na opinião dele, era um absurdo que fossem importados. O primeiro artigo lançado pela então Tridente foi um percevejo de três pontas para fixar o papel na prancheta. Eles eram importados e, por isso, o produto nacional da Tridente não foi aceito no mercado. Negraes decidiu então por uma saída

"não muito ética" que era a mudança da origem do produto. Ele mandou fazer uma outra embalagem, com dizeres em Alemão e lançou o produto no mercado com um nome mais internacional, Trident, sem a letra "e".

"Em pouco tempo foi um sucesso, o Brasil deixou de importar aquele produto da Inglaterra, e fiquei dono desse mercado". A empresa chegou a vender 100 mil caixas de percevejo por mês e tirou totalmente o produto inglês do mercado.

A Trident mudou sua fábrica para Itapuí em 1964. A empresa tinha desenvolvido uma grande linha de produtos e, segundo Negraes, ele já havia comprado pequenas empresas do setor. A filosofia empresarial sempre foi a de substituir os produtos importados no mercado nacional, redefiní-los e ganhar o mercado. "Eu nunca me preocupei em inventar nada. Eu nacionalizei os produtos que o Brasil adquiria hábitos de mercado, sempre mais ou menos na minha área de atuação".

Dentro dessa filosofia de substituição de importação, em 1987 a Trident recebeu uma proposta de compra da empresa mais tradicional do ramo de equipamentos de precisão no mundo, a Kern Suíça. "Na opinião deles, a Trident era a única empresa abaixo da linha do equador em condição de fabricar com a qualidade deles". Após todos os entendimentos, com estudo de custos e com a proposta da Kern de comprar durante dez anos tudo que a Trident fabricava, garantindo uma lucratividade mínima de 10% ao ano, a Kern teria condições de ganhar novamente o mercado mundial na área de equipamentos de precisão. O negócio não foi fechado porque a Constituição de 1988 ("esse lixo que fizeram") poderia aprovar a lei de estabilidade para os funcionários privados e o acordo entre a Kern e a Trident teria que ser fechado em 1987. Para não correr o risco de contratar cerca de 300 funcionários que poderiam adquirir estabilidade no próximo ano, o negócio não ocorreu. "Nós condicionamos a compra dessa fábrica Suíça

à não aprovação dessa lei no Senado, mas eles teriam que terminar o entendimento até novembro de 87". A Kern foi vendida para uma empresa Italiana.

Recentemente, a empresa está investindo em "softwares" para fazer frente ao crescimento, nesse mercado, dos produtos internacionais. Segundo Negraes, a Trident Não cresce nada há três anos. O diretor se mostra desestimulado com a administração pública e diz que não pensa em contratar mais funcionários. "O que eu vou ter é máquina moderna". Perguntado sobre as perspectivas da empresa no mercado, Negraes finaliza dizendo:

"a única esperança é que um dia esse país tenha um governo decente, que pense seriamente".

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