Jovens da Era Hippie agora são trintões e quarentões
Jovens da Era Hippie agora são trintões e quarentões
Texto: Adriana Rota
* Introdução
Os "malucos" dos velhos tempos envelheceram. Aqueles jovens contestadores e irreverentes, que utilizavam o próprio corpo como bandeira de protesto e deixavam os mais conservadores malucos (literalmente), na mesma proporção, hoje são pais de família, advogados, comerciantes...
Alguns deles toparam responder ao JC, com a condição de não serem identificados. Preferem permanecer no anonimato, não por arrependimento das coisas que fizeram (até porque não devem satisfações a ninguém), mas pelo preconceito que ainda ferve na cabeça de muitas pessoas.
O ponto máximo da chamada "Era Hippie", no Brasil, foi o divulgado Festival de Águas Claras, que agitou a pequena cidade de Iacanga, localizada a cerca de 40 km de Bauru. O "Woodstock Brasileiro", como ficou conhecido na imprensa do País todo e também do Exterior, contou com um público de 80 mil pessoas em uma de suas quatro edições
(1981).
O festival chegou a reunir grandes nomes da música popular brasileira da época, muitos deles lembrados e cultuados ainda hoje, como Gilberto Gil, Luiz Gonzaga, Raul Seixas, Hermeto Paschoal, Belchior, Jorge Mautner, e os grupos Os Mutantes e Língua de Trapo.
O primeiro foi organizado durante o auge da ditadura militar no Brasil, em 1975. Os seguintes, de 1981, 1983 e 1984, também pegaram esse período. "Naquela época você sabia exatamente quem era o inimigo, e podia optar por viver sua vidinha ou contestar de alguma maneira. Hoje, tudo é muito velado, as pessoas são hipócritas", disse a dentista Carla Sanches (nome fictício), que saiu de São Caetano do Sul, no ABC paulista, em um dos cinco ônibus que participaram do último festival.
A fazenda onde aconteceram os eventos pertencia ao "idealista" Antônio Checchim Junior, o Leivinha, hoje advogado no Estado do Mato Grosso. Segundo o contabilista Luís Grigolin, 49 anos, amigo de infância, os últimos festivais não deram muito certo, e a família acabou "quebrando". O destaque do JC, no dia 4 de junho 83, retrata bem a situação:
"Águas Claras: metade do público anunciado".
Mudança de comportamento
O aposentado Deógenes Cajucy Ticianelli, 60 anos, trabalhava como diretor de escola na época dos festivais. "Houve um avanço muito grande na época. As 'crianças' mudaram muito. Mas meus filhos chegaram a participar, sem problemas", disse.
Nem todos os pais foram tão compreensivos. O comerciante paulista Celso Gabriel, 48 anos, estabelecido há dez em Bauru e pai de um filho de 5 anos, teve de fugir de casa para participar do primeiro festival. "Mas tinha uma moçada que também não enxergava as coisas com bons olhos. Na época, ou você era Beatles, ou Rolling Stones. Bossa Nova ou Jovem Guarda. Era quase uma guerra", avaliou.
O auxiliar de contabilidade Nicolau Abdala Neto, 46 anos, contou que a primeira reação do povo iacanguense foi de espanto. "Hoje, a cidade tem entre 8 e 9 mil habitantes. Imagina naquela época! Aquele monte de gente chegando, o estoque de alimento da cidade no fim... Mas todo mundo acostumou. Um rapaz que não conseguiu ir embora chegou até a morar por um tempo na igreja".
Pais e filhos
O velho ditado popular "mãe é tudo igual, só muda o endereço" (pai também!) se confirma entre os entrevistados. "Ele pega muito no meu pé", protestou Carla de Andrade, 21 anos, filha de um dos participantes dos festivais.
A declaração do panificador Mário Keppe, 36 anos, resume essa relação. "Acho que existem duas fases na vida do ser humano: uma antes dos filhos, outra depois. Quando eles nascem, tudo o que você achava errado nos seus pais acaba aparecendo. Essa é a grande sacada da vida da gente".
Keppe saiu com mais quatro amigos da cidade de São Carlos para participar do 2º festival com um Aero Willis (aquele carrão, tipo banheira), e jurou de pé junto que, definitivamente, não se aventuraria novamente, pelo menos naquelas condições. "Para acampar na lama e tomar banho em cano, nem pensar. Só se tiver um hotel em que eu possa me hospedar", finalizou.