Presos foram queimados ainda vivos
Presos foram queimados vivos
Grupo de presos que fazia ameaças aos demais foi queimado vivo, em ação promovida por mais de 200 detentos
Em razão dos incidentes ocorridos na tarde de domingo no presídio Luiz Gonzaga Vieira, em Pirajuí - quando 13 presos morreram -, o coordenador da Coordenadoria dos Estabelecimentos Penitenciários do Estado de São Paulo (Coespe), Lourival Gomes, esteve visitando o presídio, ontem.
Ele confirmou a versão já divulgada, ontem, pelo Jornal da Cidade, de que os 13 presos foram mortos por outros, que se revoltaram diante do mau comportamento apresentado por aqueles e das ameaças que faziam contra os demais.
Segundo Gomes, no domingo, durante o horário em que os presos recebem visitas, os 13 detentos responsáveis pela alimentação e faxina do raio 3 do presídio
(que comportava 228 presos) iniciaram uma pressão sobre os demais detentos, ameaçando-os de morte, tentando extorquí-los e até assediando sexualmente familiares que visitavam os presos.
Segundo Gomes, dois fatos foram os principais responsáveis por desencadear a briga generalizada que tomou conta daquele raio do presídio. Um deles foi a invasão do banheiro feminino, enquanto era ocupado por visitas, por um preso que queria retirar armas supostamente guardadas lá. E, em seguida, os treze presos, segundo Gomes, passaram a mostrar os estiletes de que dispunham para os demais, reiterando as ameaças. Conforme Gomes, cada preso tinha dois estiletes. Revoltados, os presos ameaçados, que compunham a maioria esmagadora (mais de 200), reagiram e, armados com pedaços de móveis que eles próprios quebraram, dominaram o grupo de 13, obrigando-os a entrar em um banheiro, situado na entrada do raio. No banheiro, foram colocados laminados de espuma (os colchões existentes na prisão), usados para enrolar os presos e, em seguida, incendiados. Os 13 presos, então, foram queimados vivos, conforme Gomes admitiu (embora ele não tenha afirmado que todos tenham morrido assim) e também demonstram exames periciais preliminares.
A reação dos presos ameaçados começou por volta das 15h30 e demorou cerca de 30 minutos, conforme o diretor da penitenciária, José Carlos Pedroso. Além dos mortos, alguns presos ficaram feridos, ainda que sem gravidade.
Não houve tempo para que a direção do presídio intervisse, e nem mesmo para que os visitantes fossem retirados. Mas não foram registradas agressões a qualquer visitante. A Polícia Militar não interveio e a situação foi regularizada com a ação dos próprios agentes penitenciários.
Embora Gomes negue que o episódio revele uma tentativa de rebelião dos detentos - que, segundo ele, não apresentaram qualquer reivindicação -, circularam informações, ontem, de que ao menos uma pessoa (provavelmente um agente penitenciário) foi feita refém e permaneceu durante uma hora e meia presa em uma cela, sob domínio dos presos. Após a tranquilização do ambiente, ela teria sido libertada.
Ação premeditada
Segundo uma versão extra-oficial, o local onde os presos foram queimados já teria sido previamente preparado, com a colocação de colchões embebidos em álcool, pelos responsáveis pelo incêndio, o que indicaria uma ação premeditada. Mas Gomes negou veementemente essa informação.
Outro indício de que talvez houvesse uma ação premeditada no presídio foi a insistência de um dos presos mortos, para que sua irmã viesse visitá-lo neste final de semana.
Providências
Durante todo o dia de ontem, foi realizada uma revista no raio onde houve a briga. Segundo Gomes, o objetivo era recolher qualquer material que eventualmente tenha restado do incidente. Até as 17 horas, porém, não havia dados sobre o material recolhido.
Ainda ontem, segundo o diretor do presídio, a Secretaria da Administração Penitenciária instaurou inquérito administrativo para apurar as circunstâncias em que houve a briga de domingo.
Coordenador vê peculiaridades
Gomes afirmou estar surpreso diante dos fatos, porque houve duas peculiaridades no incidente de domingo. Um deles é o fato das vítimas serem "boieiros" (responsáveis pela comida). Segundo ele, habitualmente, esses presos gozam de prestígio diante dos demais (leia mais no boxe). Outro fato incomum, segundo ele, é que presos causem confusão durante o horário de visitas na penitenciária. A manutenção da tranquilidade, nessas horas, comporia uma norma imposta pelo código de honra que vigora entre os presos e que foi quebrada, ontem, em Pirajuí. O coordenador da Coespe afirmou que, ao infringir essa norma, os presos admitiram sua morte, pois certamente conheciam as regras da prisão.
Diante dos fatos, Gomes receava que o caso tivesse desdobramentos ontem, voltando a ocorrer brigas entre os detentos, mesmo depois de mortos aqueles acusados de criar a confusão. Por isso, Gomes disse ter conversado com os presos, ontem, e eles lhe teriam garantido que o episódio de domingo constituiu um fato isolado e não terá desdobramentos. O clima no presídio, segundo o diretor da instituição, era tranquilo, ontem.
Boieiros são respeitados na prisão
Segundo Lourival Gomes, os boieiros (presos responsáveis pela comida) não são escolhidos porque sejam menos perigosos, mas sim em função do respeito de que desfrutam perante a diretoria do presídio e os demais presos. Isso porque a quantia de comida oferecida a cada detento deve ser idêntica e, se o responsável por essa distribuição for subjugado por qualquer deles, passará a lhe oferecer quantia maior de comida, o que acarretará falta dela, ainda antes que todos se sirvam.
Por isso, para realizar a função de "boieiros", são escolhidos líderes entre os detentos - mas aqueles que exerçam influência "positiva", segundo Gomes, para evitar que eles insuflem movimentos de rebelião.
Esses boieiros mortos na briga de domingo, porém, haviam usado sua liderança para obter vantagens dos demais presos, mediante ameaças. Por isso, segundo Gomes, foram vitimados.
Presídio funciona há seis meses
O presídio Luiz Gonzaga Vieira, de Pirajuí, foi inaugurado em agosto do ano passado (portanto, há aproximadamente seis meses) e tem capacidade para abrigar 852 detentos. No domingo, era ocupado por aproximadamente 840 - portanto, a revolta não aconteceu em razão de superlotação.
Apenas 2 corpos foram identificados
Texto: Marcos Zibordi
Bauru - Apenas dois dos 13 corpos de detentos envolvidos na rebelião de anteontem na Penitenciária II de Pirajuí foram reconhecidos e retirados do Instituo Médico Legal (IML) ontem. O dia foi muito tumultuado pelo movimento de curiosos, telefonemas e pessoas querendo obter informações sobre os cadáveres.
Apesar da grande quantidade de pessoas, apenas os corpos de Júlio César Cortezini, 23 anos e Marcos Antonio Molina, 33 anos, foram reconhecidos pelas respectivas irmãs e levados para sepultamento.
Júlio César Cortezini foi reconhecido pela irmã através dos dentes e de uma tatuagem que tinha na mão. Segundo a irmã Juliana Cortezini, 19 anos, seu irmão estava com o corpo muito queimado e as marcas que ela viu no seu corpo foram as únicas que possibilitaram seu reconhecimento. A irmã do outro preso reconhecido não quis dar declarações.
Júlio César Cortezini foi levado para Presidente Alves, cidade onde reside sua família, e seria enterrado ainda ontem. O caixão seria lacrado dado o estado do cadáver.
Segundo Jair Romeu, auxiliar de autópsia do IML, os presos morreram por causa de queimaduras de segundo e terceiro grau. Os ferimentos de estilete e faca verificados nos presos não seriam suficientes para matá-los, segundo Romeu. Ele informou que, dos 13 cadáveres, sete apresentavam pequenos ferimentos
"pontáceos" na testa e rosto. Para o legista
"eles morreram por ação da combustão dos colchões que solta uma fumaça tóxica. Eles inalaram e depois morreram com a queimadura".
A lista com o nome dos mortos foi divulgada pela Penitenciária II para o IML por volta de 14 horas. Segundo Romeu, os corpos que não forem identificados até amanhã serão enterrados em Pirajuí num sistema de "meia-cova". Desse modo, o cadáver fica enterrado numa profundidade de 40 centímetros que facilita a futura remoção, no caso de autópsia para reconhecimento.
Os caixões foram cedidos pela Penitenciária II de Pirajuí. As despesas de funeral correrão por conta das famílias.
Celular na PII
Segundo Juliana Cortezini, seu irmão Júlio César Cortezini teria telefonado para ela duas vezes na semana passada de um celular, dentro da Penitenciária, pedindo para que ela não faltasse à visita do fim de semana. Segundo ela, o aparelho seria de outro detento. Seu irmão teria avisado ainda que ela receberia uma carta durante a semana, mas Juliana não a recebeu. Ela disse que não teve como comparecer à visita no fim de semana, quando seu irmão foi uma das vítimas da rebelião.
Durante a revolta, no domingo, circularam informações do lado de fora do presídio, de que alguns bilhetes estavam sendo passados pelos detentos de dentro da penitenciária. Os bilhetes tranquilizavam os familiares e amigos dos detentos dizendo que o preso que tivesse parente visitando não sofreria nada.
Maioria jovem
Entre os presos mortos na rebelião, a maioria (8) era de jovens com idade entre 19 e 22 anos. As penas que os detentos cumpriam eram, também na maioria, por roubo (artigo 157). Muitos deles foram presos recentemente, em 97 e 98, em São Paulo. Leia a relação de nomes dos detentos, naturalidade, idade a crime, segundo lista divulgada pela Penitenciária II de Pirajuí.
Marcos Antonio Molina identificado e levado pela família
Widman Paulo Moreira Sampaio
34 anos - Jacobina
Art. 121 - homicídio
Alex Sandro da Silva
20 anos - Mauá
Art. 157 - roubo
Reinaldo Dias Adão
22 anos - São Paulo
Art. 155 - furto
Júlio César Cortezini
Identificado e levado pela família
Ricardo Bonfim Albuquerque
26 anos - Santos
Art. 12 - tráfico
Adriano Moreira Carvalho
20 anos
Art. 157 - roubo
Leandro da Silva Pereira
20 anos - São Paulo
Art. 157 - roubo
Marcelo Machado
Não divulgado
Cícero Donizete Barbosa
19 anos - São Paulo
Art. 157 - roubo
Joelson dos Santos
19 anos - São Paulo
Art. 157 - roubo
Luciano Santana de Massenna
19 anos - Sorocaba
Art. 157 - roubo
Marcelo Alves Veiga
21 anos - São Paulo
Art. 157 - roubo