Quasar vai além da dança
Quasar vai além da dança
Texto: Fabiano Alcantara
Os conflitos violentos do homem contemporâneo, a racionalidade versus o instinto e a rapidez da imagem televisiva/cinematográfica. Estes são alguns dos elementos de "Versus", o espetáculo da Quasar Cia de Dança, uma das melhores do País, que será apresentado hoje, às 21 horas, no Sesc-Bauru (grátis).
De Goiânia, a Cia conquistou o Brasil e o mundo, mostrando uma dança em que os bailarinos parecem pessoas comuns.
"Como em não venho de uma escola acadêmica, minha proposta é levar um lado mais natural da dança, de elementos físicos", afirma o coreógrafo e diretor da companhia, Henrique Rodovalho.
Reunindo experiências nas áreas de vídeo, fotografia e teatro, o coreógrafo mais badalado do momento procura introduzir em seus espetáculos o ritmo acelerado do mundo pós-globalizado.
"O espetáculo tem o andamento do vídeo da televisão.
É como se a platéia estivesse com um controle remoto", afirma.
Unindo a sutileza da mímica e o risco da acrobacia, o cerebralismo de Arnaldo Antunes, com o primitivismo dos tambores do Burundi,
"Versus" ganhou prêmios importantes no Brasil, como o Estímulo e o Mambembe e outros na Alemanha, Suíça e Israel.
"O Versus tem uma característica que é a fácil comunicação, de uma certa forma ele contagia a platéia. Nós trabalhamos com uma certa simplicidade", diz Rodovalho.
De acordo com ele, o fato de a companhia ser de fora do eixo Rio-SP pode ter resultado em um fator positivo.
"Temos características mais próprias, nos grandes centros acabam acontecendo interferências entre os trabalhos", afirma.
Rodovalho aponta, no entanto, que mesmo longe dos grandes centros, hoje em dia, as informações circulam mais rapidamente, o que contribuiu para a inserção do Brasil entre os países que produzem dança de vanguarda.
Dança tipo exportação
Formada por bailarinos e atores de Goiânia há 10 anos, em forma de cooperativa, a companhia continua ensaiando até hoje na cidade, apesar de ter bailarinos de Porto Alegre, São Paulo e do Rio em sua formação atual.
Depois de "exportar" uma série de bailarinos que fundaram a companhia para o exterior, a Quasar se mantém com a receita das apresentações.
"Não temos um patrocinador de manutenção e, com a crise, tivemos alguns espetáculos cancelados, o que é preocupante para nós", afirma Rodovalho.
Em maio, o grupo parte para os Estados Unidos, onde fazem uma turnê. Antes disso, o grupo se apresenta em São Paulo, na Capital e no interior.
Serviço
Versus, com Ana Carolina Bueno, Edson Beserra, Gleidson Vigne, João Bragança, Karina Mendes e Luciana Caetano; Cenografia e direção: Henrique Rodovalho; Direção geral: Vera Bicalho; Produção Executiva: Carlos Soares. Hoje, às 21 horas. Grátis (ingresso devem ser retirados antes no Sesc-Bauru). Avenida Aureliano Cardia, 6-71. Informações: (014) 235-1750. Patrocinadores: Unimed-Goiânia, Governo da cidade de Goiânia, Proec-Universidade Federal de Goiânia, Contraponto; Apoio: Pró-corpo, Verbo Comunicações, Don Sebastian-Restaurante e Choperia e Arte Suprema.
Espetáculo é um mosaico
Dividido em 21 cenas curtas, "Versus" é um mosaico em que a dança se funde com expressões de teatro, mímica, circo e vídeo.
"A peça começa com a platéia sendo assistida, depois vão surgindo as cenas. Algumas duram segundos", afirma Henrique Rodovalho.
De acordo com o coreógrafo, "Versus" é o "cartão de visitas" da companhia. Como a Quasar nunca havia sido apresentado em Bauru, o espetáculo foi escolhido.
Inspirado no álbum "Nome", de Arnaldo Antunes, o mais poético trabalho do ex-Titã, e confrontado com as percussões do Burundi, a obra estreou em 95.
Físico-acrobático, veloz, fragmentado, curioso e trazendo do humor negro até o mais ingênuo, "Versus" remete à ambiguidade do fazer artístico. Mostra a violência como impulso do desejo de existir. (FA)