Apae corta 50% de seu atendimento
Apae corta 50% em seu atendimento
Texto: Andréia Alevato
Hoje, a Apae atende a 387 portadores de deficiência mental, e aproximadamente 90 pessoas esperam por uma vaga na entidade
A Associação de Pais e Amigos de Excepcionais (Apae) reduziu 50% do atendimento este mês, devido ao corte de verba do Governo Estadual. A presidente da entidade, Olga Bicudo Tognozzi, explicou que o governo havia anunciado um corte no orçamento de 30% em todas as entidades, mas que a Apae sofreu um corte de 20% a mais e que afeta no número de vagas.
"Estes 20% seriam usados na manutenção de 120 vagas de alunos de período integral. Com esse corte, nós deixamos de atender 60 crianças", explicou a presidente da Apae.
Olga disse que hoje, a Apae tem mais de R$ 89 mil em déficit, sendo que R$ 59 mil são as despesas com folha de pagamento e encargos sociais e R$ 30 mil é gasto na manutenção da escola (gasolina, pedreiro, oficina, alimentação, material escolar, etc). O que mantém a entidade são os convênios, e o SUS (Sistema Único de Saúde)
é um deles. Este mês, a Apae vai receber do convênio R$ 32.800,00.
"O SUS é convênio que me deixa mais tranqüila, porque com ele dá para manter a folha de pagamento. Recebemos a verba mediante faturamento, porque nós fazemos atendimento terapêutico. Só que no mês de janeiro, as crianças se ausentam muito da escola, então esse faturamento agora cai muito. Este mês, nós vamos receber R$ 32.800,00", completou.
A Apae recebe ainda, R$ 31 mil em participação da comunidade, através de campanhas via telefone ("adote um excepcional"), donativos e promoções). No total, a Apae vai receber este mês pouco mais de R$ 69 mil, tem uma dívida mensal de R$ 89 mil, portanto, ficará com um déficit de R$ 20 mil.
Para suprir este déficit, a presidente da entidade afirmou que campanhas serão realizadas. Diversas promoções já estão sendo programadas. No dia 11 de abril, a entidade vai realizar um almoço italiano na Hípica. Uma pastelada, vendas de marmitex, a Feira da Bondade e uma rifa, em nível municipal, também já estão sendo agendadas. Além disso, a entidade continua realizando suas campanhas, como a via telefone "Adote um Excepcional" e receber os donativos e sócios da Apae.
"Nós vamos fazer campanhas para que possamos reverter esse quadro. A primeira promoção será um almoço italiano, no dia 11 de abril, na Hípica. No almoço será servido beringela com pãozinho, salada mista, fusille ao molho com braccola, frango crocante, de sobremesa, caçarola italiana e torta de ricota. Acompanha uma jarra de vinho. A animação será de Luiz Correa. As mesas custam R$ 50,00 e podem ser reservadas pelos telefones 223 2834 e 234 3064. Além disso, nós continuamos com nossas campanhas, como a "Adote um excepcional", recebendo os donativos e nossos sócios. Com todo esse trabalho e essa participação da comunidade, nós esperamos que esse quadro se reverta. E a Apae só está se mantendo hoje, graças a colaboração da comunidade", completou.
Tentando depender cada vez menos do governo, a Apae está buscando a sua auto-suficiência. E a instalação de uma padaria na escola é uma das alternativas. A idéia de montar uma padaria nasceu a partir da cozinha experimental da escola, onde os alunos, depois de passar por um curso no Senai, fazem doces (bolachas, bolos, tortas) e salgados (pãezinhos, salgadinhos). O objetivo da padaria, segundo Olga, é aumentar a captação de recursos, buscando a auto-suficiência da entidade, e habilitar e educar os jovens e adultos portadores de deficiência mental para o mercado de trabalho.
"Além da manutenção da escola, a padaria vai proporcionar também, a valorização profissional para o jovem e adulto portador de deficiência mental. Será uma padaria-escola. E essa padaria atenderá a comunidade. O que está faltando para que essa padaria comece a funcionar
é edificar o prédio, por isso, vamos começar uma campanha, já nas próximas semanas, para construirmos o prédio da padaria", explicou.
Hoje, a Apae atende 387 portadores de deficiência mental, e cerca de 90 pessoas esperam por uma vaga na entidade. Este ano, a Apae não abriu matrículas, porque, segundo Olga, em 98, já havia um número excessivo de alunos.
Além de Bauru, a Apae atende as cidades de Piratininga e Avaí. Segundo a assistente social da entidade, Elizete Aparecida Nascimento, 1% da população é portadora de deficiência mental. A criança atendida na Apae, geralmente, é a classe baixa superior, e qualquer criança recebe atendimento, desde que seja encaminhada por um médico, que detecta a deficiência mental na criança, e haja vaga na área que ela precisa.
"A gente percebe que a procura pelo atendimento por pessoas de nível sócio-econômico melhor vem aumentando, porque antigamente essas pessoas buscavam os atendimentos em casa. Mas, todas recebem atendimento, desde que haja vaga na entidade", disse a assistente social.
Os alunos da Apae também freqüentam a escola normal. Alguns freqüentam Emei e são atendidos na Apae todas as segundas-feiras. Outros ficam um período na Apae e o outro na escola. Os adolescentes freqüentam o Centro de Treinamento Profissional, que prepara o aluno para o mercado de trabalho. A terapeuta ocupacional e coordenadora do programa profissionalizante, Maria Luiza Cestari, afirmou que a aceitação no mercado de trabalho é muito baixa, mas que as pessoas que contrataram os portadores de deficiência mental não se arrependeram.
"Eu acredito que a aceitação no mercado de trabalho é muito baixa. As empresas poderiam dar mais espaço para o deficiente mental. Mas, quem nos procurou e abriu esse espaço, não se arrependeu", disse Maria Luiza.
O Centro de Treinamento Profissionalizante é dividido em duas partes: oficinas pedagógica e a profissionalizante. Para chegar nas oficinas profissionalizantes, os adolescentes, chamados de aprendiz, passam pela oficina pedagógica, que
é a pré-profissionalizante, onde são trabalhados a coordenação, hábitos de trabalho, entre outras exigências do mercado de trabalho. São quatro oficinas profissionalizantes. A de molduraria e restauração de móveis, que faz molduras de quadros, porta-retratos, e restaura móveis antigos (os alunos lixam e pintam o móvel em pátina ou decapê). A segunda oficina é a de embalagens e personalização, onde são feitas caixas de presentes, camisetas com missangas, chinelos decorados, e a personalização em guardanapos, entre outros. A outra oficina é a de serigrafia (estampa com a cor - silk- creen ou estamparia) e stamp cor (máquina com transfer). A última oficina é o sub-contrato, que é a terceirização de serviços, como montar caixas de sapatos, pacotes de sacos de lixo, entre outros. Outra atividade do Centro de Treinamento Profissional
é a Cozinha Experimental, que deu origem ao projeto da Padaria da Apae. Junto com as oficinas, uma pessoa é responsável pelas atividades de vida prática, que ensina o deficiente mental a andar de ônibus, lidar com dinheiro (conhecer o dinheiro, conferir troco, etc), fazer compras, e a lidar com a parte prática da vida. E a Horta Terapêutica e o Viveiro, onde são ensinados aos alunos o plantio e manuseio com a terra, fazer jardins e montar vasos.
Além disso, a Apae tem programas de Educação infantil, Pré-escolaridade, Escolaridade, as oficinas pedagógicas e profissionalizantes, a Hidroterapia (trabalho terapêutico na água), a Equoterapia (que utiliza o cavalo dentro de uma abordagem multidisciplinar nas áreas de saúde e educação, que produz resultados rápidos e positivos), aulas de informática, além do atendimento psicológico à família.
"É por isso que nós temos todos esses gastos. Quando o portador de deficiência mental vem para cá, nós não o deixamos limpinho somente, nós cuidamos dele e tentamos fazer com que ele se intere com a sociedade", finalizou Olga Tognozzi.