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Blecaute

Paulo Toledo
| Tempo de leitura: 7 min

Blecaute foi inevitável, diz secretário

Blecaute foi inevitável, diz secretário

Texto: Paulo Toledo

Nas condições em que ocorreu, o blecaute, que atingiu sete Estados, na última quinta-feira, era inevitável. A análise é do secretário estadual de Energia, Mauro Arce, 57 anos, que, em entrevista ao Jornal da Cidade, afirmou que o esquema Regional de Alívio de Carga (Erac), que protegeria o sistema, não teve tempo para funcionar, em razão da forma rápida que ocorreu o incidente com a queda do raio na subestação de Bauru e o desligamento do sistema.

O secretário disse que o ocorrido em Bauru foi atípico, pois houve uma descarga não nas linhas, mas na subestação. Então, segundo ele, como a descarga é um arco elétrico que se forma, não existe outra meio de combatê-lo a não ser desligando. A subestação de Bauru, que tem 30 anos, possui duas seções de cinco linhas cada uma e há uma interligação entre as duas. Quando houve o raio, perdeu-se parte da geração, que provocou um abaixamento repentino da voltagem (tensão), que em Bauru estava em torno de 450 MW, e fez com que a fase em que caiu o raio fosse a zero, pois o arco teria ligado a rede

à terra, provocando o desligamento. "Quando aconteceu isso, você teve um outro fenômeno típico de sistema interligado, que é a perda de estabilidade das outras máquinas, que devem operar na mesma freqüência.

É como, se num batalhão, tivesse metade da turma perdendo o passo em relação à outra. Na hora do blecaute as lâmpadas oscilaram de forma violenta. Aquilo foi a oscilação do sistema de Itaipu. As proteções viram aquilo como um defeito e, para proteger a usina, desligaram todo o sistema, perdendo mais 10 mil megawatts (MW). Então, 10 mil de Itaipu, mais 5 mil que já tinha saído do sistema da Cesp, ou seja, 15 mil, era 50% da carga naquele instante. o resto foi por conseqüência, sem tempo do Erac funcionar", afirmou.

Desde o incidente, especialistas da área questionavam o por que dos dispositivos de proteção não terem atuado para evitar o desligamento das usinas e o conseqüente blecaute.

Arce, afirmou que o Erac está espalhado em 500 subestações de todo o sistema e funciona de acordo com a freqüência de transmissão, que é de 60 hertz, quando a geração

é igual ao consumo, que compensa o desequilíbrio.

De acordo com ele, no momento de consumo igual à geração, a cada parcela de consumidores que começa a utilizar o sistema há uma variação de frequência e há uma compensação com o aumento da geração, quando sai uma parcela, a frequência sobe e é reduzida a produção. Segundo ele, em condições normais, isso é feito automaticamente, funcionando sincronamente quando há o equilíbrio entre geração e carga.

Arce disse que quando perde o equilíbrio, com variação pequena, o próprio gerador faz a compensação com a reserva girante, que é de, no mínimo, 5%, os outros geradores aumentam e não é preciso utilizar Erac, pois o relê que corta carga não só verifica a freqüência, mas a variação de freqüência num determinado intervalo de tempo. "Então, preciso ter uma freqüência caindo numa velocidade rápida que me indique que estou tendo um distúrbio. Se perder 5% no horário de ponta, não ocorre nada. Fora do horário de ponta, essa tolerância é maior", afirmou.

"Ses"

Arce disse que existem uma série de variáveis que, teoricamente, poderiam ter amenizado o problema, como a terceira linha de Itaipu, que está em construção, se o sistema tivesse uma folga maior. Ele diz que o início do blecaute ocorreu em Bauru e todos os outros detalhes, de tudo o que se passou, só puderam ser apurados no dia seguinte. Arce destaca que a demora inicial para que a causa do blecaute fosse anunciada se deve ao tamanho do sistema. Para ele, as 20 horas entre o incidente e o anúncio da causa não

é um tempo exagerado, principalmente se for levado em consideração

"que é preciso ter cuidado para não se precipitar, pois são milhares de informações de empresas diferentes, que precisavam ser confrontadas". "Pelo registro da subestação de Bauru, não visualmente, na manhã seguinte, por volta das 10 horas, percebeu-se que tinha havido um curto-circuito. Até então não sabia se era causa ou efeito. Para isso, tinha que confrontar com os dados de todas as outras empresas. Isso está tudo registrado. Quem saiu primeiro, Bauru ou Itaipu. Só dava para fazer sentando todos e confrontando os dados", afirmou.

Arce disse que nenhum pára-raios dá proteção 100%. Segundo ele, pode ter condições de que o raio não atinja as instalações, mas caia nas proximidades e, por um efeito chamado indução pode gerar uma descarga, como ocorre em campos de futebol, quando nenhum jogador

é atingido diretamente, mas por indução vários desmaiam.

Ele disse que existem algumas subestações totalmente isoladas, como a de Porto Primavera, mas nenhuma delas, nem no Brasil, nem qualquer outro lugar do mundo foi feita por problema de raio. São blindadas para poderem ser compactas", afirmou.

As descargas atmosféricas ocorrem em algumas épocas do ano. Com a chegada do outono até o verão não deve ocorrer esse tipo de fenômeno. Segundo o secretário, nos 18 mil quilômetros de linha, há, em geral, 200 ocorrências por ano, de desligamentos causados por descarga atmosférica na linha. "Em 18 mil quilômetros de rede, tem muito mais chance de cair na linha do que na subestação. Por isso, o sistema desliga aquela linha e a vida continua. São situações que não são evitáveis, mas têm remédio. No caso específico de Bauru, o fato de ter caído no barramento, implicou no desligamento de cinco das 10 linhas", afirmou.

Investimentos

Arce admite que existe a necessidade de se realizar mais investimentos no setor de transmissão de energia elétrica. Porém, disse que os anos de 1997 e 1998 houve grande apreensão em relação a geração de energia, principalmente nos horários chamados de pico. Ele disse que o sistema atende 40 mil MW, mas quando caiu estava com 30 mil MW.

Para ele, o terceiro circuito de transmissão de Itaipu

é fundamental, já que 30% do suprimento da região sul, sudeste e centro-oeste dependem de Itaipu.

Arce afirma que não diria que o sistema é frágil, mas admite que seria importante que o circuito tivesse mais folga, como a entrada em funcionamento da terceira linha de Itaipu.

O secretário disse que o incidente é uma "fonte fantástica" de informação para que a as empresas energéticas possam evoluir. Para ele, seguramente, um ponto a ser estudado é a questão do restabelecimento do sistema que, em alguns casos, admite, ocorreram demoras. Arce disse que a Cesp faz treinamentos, duas vezes por ano, com o desligamento de um corredor, desde a usina até chegar em São Paulo. Nesse teste-treinamento há cronometragem para ver o tempo de restabelecimento. Porém, disse, quando a situação

é para valer, com a pressão do secretário ligando para o centro de operação, além de outras autoridades, as coisas acabam não saindo exatamente como no treinamento.

O secretário disse que é necessário evoluir. Ele disse que o estado está consciente dos prejuízos que blecautes levam. Mas, pior do que aqueles que se sabe quanto

é o prejuízo, afirmou, é difícil calcular quanto custa para uma pessoa que ficou preso num elevador ou para alguém que teve dificuldades em um hospital. "Isso

é muito mais grave do que, às vezes, perder uma produção ou alguma coisa desse tipo", afirmou.

Especialista diz que sistema é frágil

Um especialista, no setor elétrico disse, ontem, que o sistema de transmissão de energia elétrica brasileiro

é frágil, "há muito tempo". Para ele, a sorte é que o País parou de crescer, caso contrário os blecautes ocorreriam seguidamente. Ele destaca que poderia haver, até, o racionamento de energia.

O especialista disse que dentro do contexto de pouco investimento ocorrido no setor energético, a área que mais sofreu foi a de transmissão, "que sempre fica em segundo plano, em relação à geração.

O especialista, que atua no setor há mais de três décadas, e já dirigiu importantes empresas, disse que o País está sujeito a blecautes. Para ele, o sistema é razoavelmente bem protegido contra falhas, caso contrário os blecautes estariam ocorrendo com mais freqüência. Como levou 14 anos desde o último grave, o próximo pode demorar meses ou dias", alarma.

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