Considerações sobre o 'apagón' de Bauru
Considerações sobre o 'apagón' de Bauru
(*) B. Requena é editor de Internacional do Jornal da Cidade
Blecaute foi um sucesso. Não o cantor, é claro, que todos sabem encantou os brasileiros com a sua voz, nas décadas de 50 e 60. O blecaute a que me refiro foi aquele que paralisou o Brasil por longos minutos e até mesmo hora na noite de quinta-feira.
Nas décadas de 50 e 60, tínhamos freqüentes paralisações dos serviços de energia elétrica. O fato era tão comum, mas tão comum que sequer alguém tocava no assunto, no dia seguinte, numa esquina ou salão de barbeiro. No interior do País, nos Estados do Mato Grosso, Acre, Rondônia, Roraima, Amazonas ainda é comum o blecaute diário. O fato não é estranho e já está incorporado ao dia-a-dia das pessoas. Por uma explicação muito simples: algumas cidades têm energia elétrica graças a um gerador movido a óleo diesel. Para economizar o combustível e poupar o equipamento, todo dia, a partir das 22 horas, tudo é desativado. E as famílias já se habituaram, ao longo dos anos, ao modo de vida seguindo este esquema. Até 22 horas, tudo deve ser feito. Após este horário, alguns recorrem
às lamparinas, aos gasômetros, lampiões de gás etc. A maioria vai dormir, sonhar ou aumentar a população do vilarejo. E a iluminação das ruas do lugar fica por conta dos pirilampos. Sem crise, sem entrevistas de ministros na TV, muito menos mentirinhas para justificar o acontecimento.
Se há baile de Carnaval, se é aniversário do município, véspera de Natal, Ano Novo, o prefeito determina: luz para todo mundo, a noite inteira. Um morador de um desses locais jamais poderia imaginar que do lado de cá, no nosso mundo, no outro Brasil, os Estados e municípios estivessem tão interligados. Aliás, se considerarmos Itaipu e o Paraguai, são países interligados pela energia elétrica.
O acontecimento de quinta-feira à noite foi um salto no tempo, das décadas de 50, 60, para os anos 90 e serviu para mostrar que tudo está muito diferente. Confesso que, não sei se por conta de minha teimosia ibérica ou por intuição, não acreditei naquela versão nacional que culpa Bauru pelo escurecimento do País. Nem mesmo depois que a TV mostrou marcas de um suposto raio nos equipamentos da Cesp eu modifiquei minha opinião. Aliás, no dia seguinte, um diretor da Companhia Energética eximiu a empresa dessa culpa. Tudo já parecia muito estranho porque, um mês antes, dois "raiozinhos" provocaram dois blecautes numa só noite, numa madrugada seca e sem chuva. Culpar raio - mesmo quando eles não estão acontecendo - parece que ficou sendo o melhor negócio. Eles não têm condição de se defender, desmentir... Não tenho a menor dúvida de que vem aí algum plano envolvendo altas somas. E quem irá pagar a conta?
O que aprendemos do acontecimento de quinta-feira? Que se trata de algo muito mais importante do que imaginávamos. Quem abriu os grandes jornais de sábado viu anúncio colorido de meia página da Valisère ("Para algumas pessoas, a noite de quinta-feira foi bem mais agradável"); outra meia página da Super Bonder ("Se você esbarrou em alguma coisa durante o blecaute, cole com Super Bonder."),
("Quinta-feira, você teve uma prévia do que pode ser o Bug do milênio." Microsoft); ("O blecaute deixou tudo preto? Lembre-se: Clorox deixa tudo mais branco.");
("Na sua festa pode até faltar luz, mas não pode faltar Antarctica"), da Rádio Bandeirantes e outras. Outro aspecto é a globalização. Abandonamos o termo "black-out", do inglês, para adotar o
"apagón", do espanhol (e do Mercosul) sem passar pelo "português" "blecaute", que, afinal e a rigor, não deveria existir. E se prevalecer essa interligação, com a globalização vamos ter fatos inéditos. Por exemplo, boi foi se coçar num poste em Andradina e parou o metrô de Tóquio. Queda de teco-teco em Birigüi escureceu o prédio e paralisou computadores e toda operação da Bolsa de Nova York. Gambá desnorteado em Jupiá fecha o Aeroporto de Buenos Aires. Sem contar o que essa vulnerabilidade significa em caso de guerra...