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Desemprego

Márcia Buzalaf
| Tempo de leitura: 7 min

Desemprego é a preocupação nacional

Desemprego ganha espaço da inflação na preocupação nacional

Texto: Márcia Buzalaf

O desemprego e o emprego serão abordados pelo Jornal da Cidade em uma série de três reportagens semanais que contam com a análise do professor belga de economia do campus da Unesp de Bauru e da Instituição Toledo de Ensino (ITE), Jacques Vervier. Nesta primeira reportagem, um olhar crítico em relação às estatísticas de desemprego que ganham as manchetes dos jornais mensalmente de todo Brasil. De acordo com Vervier, a medição

é feita com diferentes convenções, aqui detalhadas, e que explicam o porquê da taxa de desemprego do Departamento Intersindical de Estudos e Estatísticas Socio-Econômicas

(Dieese), por exemplo, ser o dobro da taxa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE). Nas próximas duas reportagens, análises e informações sobre o tema está para o Real assim como a inflação esteve para o país durante os anos 80 e início de 90.O princípio básico para entender o desemprego

é entender que, para ser desempregado, primeiro precisa ser adulto e estar em idade de trabalhar.

O primeiro questionamento em torno to tema surge quando se questiona qual a idade de trabalhar. Para o Dieese, é o cidadão que tem dez anos ou mais. "É importante saber disso: em 1,6 milhão de brasileiros desempregados, 20 mil deles tem menos de 14 anos", detalha o professor.

Para ser classificado como desempregado, a pessoa também deve querer de fato trabalhar. Outro questionamento. Para o Dieese, quem quer trabalhar é aquela pessoa que fez algo para procurar emprego nos últimos 30 dias. Já o IBGE considera o período de uma semana em suas pesquisas de índice de desemprego. "E os dois têm razão. Como vai se fixar um período?", questiona Vervier.

Os que se enquadram na classificação de adultos que querem trabalhar são chamados de população economicamente ativa. Parte deles é chamada de população ocupada e a outra fatia demográfica é chamada de desempregados.

Na último categoria, dos desempregados, o professor Vervier compara dois exemplos: o de uma pessoa que está em casa assistindo televisão e aquele que está em casa consertando o telhado dele. Ambos são desempregados, mas não são desempregados no mesmo sentido. "Um não ganha nada e não produz também. O outro produz e ganha de alguma forma", ele analisa.

Por esta diferença de análise - não apenas de estatística - a taxa de desemprego divulgada pelos órgãos oficiais diz respeito ao trabalho via mercado - não o trabalho em sua globalidade.

Trabalho

O professor diz que a concepção macro de trabalho apresenta um quadro dividido entre trabalho produtivo e não produtivo, remunerado e não remunerado. Ele explica que o emprego é o trabalho produtivo e remunerado, enquanto que o trabalho remunerado não produtivo é o "cabide". Já o não remunerado e não produtivo é o hobby.

A combinação mais interessante para análise e consideração, segundo Vervier, é a do trabalho produtivo não remunerado. É a produção para consumo próprio: aquele que faz horta, que conserta seu próprio telhado. A dona de casa não tem emprego no sentido remunerado - mas não fica sem trabalho.

Para se calcular a propensão a trabalhar de uma população, divide-se a população ativa - que inclui os desempregados

- pela população adulta. De acordo com pesquisa realizada pelo Dieese em julho do ano passado, 61% dos brasileiros estão propensos a trabalhar. Isso significa que, de cada 100 pessoas adultas, ou seja, com dez anos ou mais, 61 querem trabalhar, 39 não querem trabalhar - são inativos. Antes da 2ª Guerra Mundial, a porcentagem era de 50%.

O que aconteceu, segundo o professor, foi uma mudança demográfica, não econômica. A entrada das mulheres nos "empregos" e o envelhecimento da população fizeram com que o número de candidatos se tornou muito maior do que antes.

"A economia não perdeu sua capacidade de gerar emprego. Atualmente, existem muito mais ativos", explica Vervier.

A taxa de desemprego é medida pela divisão entre os desempregados e os ativos. "Quando se diz que a taxa de desemprego é de 18%, quer dizer que de cada 100 adultos desejosos de trabalhar, 18 não têm um emprego - não que não trabalhem", afirma.

No mês de fevereiro, segundo o IBGE divulgou na última sexta-feira, o desemprego ficou em 7,51% da PEA, contra 7,73% do mês de janeiro. Segundo o Dieese, o segundo mês do ano fechou com um desemprego de 18,7% da PEA contra 17,8% do mês de janeiro.

Tipologia

O desemprego no ponto de vista micro, ou seja, do desempregado,

é visto como uma frustração. Do ponto de vista macro, do olhar da sociedade, é um desperdício, ou seja, um recurso não utilizado. Estas duas condições

- desperdício e frustração - dificilmente

é zero ou 100%.

Por este motivo, o professor classifica o grau de desemprego entre cinco categorias. A primeira é o caso do emprego - frustração e desperdício zero. O cidadão quer trabalhar e encontra o trabalho que quer. "É o jornalista que trabalha com jornalismo", exemplifica.

O segundo é o subemprego - frustração e desperdício parciais. São as pessoas que não são desempregadas, mas que são mal empregadas. "O jornalista que é caixa de banco", completa. Além dos desempregados

- maior grau de frustração e desperdício

- existem também os ativos condicionais, que procuram emprego dependendo de condições. Jornalista que deixa de trabalhar em uma crise econômica pode ser um exemplo.

O Dieese soma estas três categorias - desemprego, subemprego e ativos condicionais, classificadas pelo departamento de aberto, precário e desalentado - enquanto que o IBGE só considera o desemprego aberto. "Isso explica porque a taxa do Dieese é duas vezes maior do que a taxa do IBGE", explica.

Vervier diz que as convenções usadas pelas duas pesquisas são diferentes. Para ele, o conceito de desemprego

é usado como se fosse uma evidência. "O desemprego

é ambíguo na teoria, na prática e, consequentemente, na estatística", completa.Na verificação do desemprego aberto, o Dieese considera tanto o setor formal quanto informal.

O Desemprego segundo o Dieese

(de janeiro/85 a maio/98):

No gráfico de desemprego do Dieese, que exemplifica a evolução dos índices de janeiro de 85 a maio do ano passado, percebe-se que o desemprego não cresceu. O que aumentou significativamente foi o subemprego - precário - e o ativo condicional - desalento.

Vervier diz que o desemprego aberto, no sentido tradicional do conceito, aumentou mas não tanto quanto indicam pesquisas.

"Mudou a definição de emprego e do trabalho", explica.Os mecanismos que levam ao desemprego, segundo Vervier, podem ser friccional, quando a vaga existe, o candidato existe, só que eles não se conhecem.

O desemprego estrutural é qualitativo: quando existem vagas e candidatos que não preenchem as exigências. "É um descompasso entre o leque de qualificações exigidas e as disponíveis", diz Vervier.

Para ele, este tipo de desemprego não é reduzido com a retomada do crescimento econômico.Já o desemprego conjuntural sim, é condicionado à conjuntura econômica, como o próprio nome diz. É o desemprego quantitativo:

"Quando tem 100 vagas e 150 candidatos".

Nas últimas duas décadas:

* No início dos anos 90, o emprego apresentou um nível de ocupação inferior ao observado na década de 70.

* O salário real - avaliado pelo custo da mão de obra - reduziu drasticamente desde meados da década de 70. Em 1991, valia a metade do que em 1975.

* Entre 75 e 91, enquanto o produto industrial cresceu 39,5%, o emprego retrocedeu 2,7%.

Fonte: Manual de Economia - Equipe de Professores da Universidade de São Paulo (USP), Editora Saraiva, 1992.

Bauru - cidade sem números

Bauru é uma cidade carente de estatísticas sobre o desemprego, sendo praticamente impossível dimensioná-lo em números. No Data-ITE, banco de dados da instituição com informações sobre o emprego e o desemprego da cidade, foi publicado que o Centro de Orientação para o Trabalho (COT) registrou o ano de 95 como o de maior desemprego em Bauru desde a década de 80, com exceção da época do plano cruzado (1986) e plano Bresser (1987). Entre 94 e 95, os números do atendimento do COT passaram de 892 para 2.296.

Já as formas de sobrevivência do trabalhador em Bauru estabelecidas pelo Centro de Pesquisa e Encaminhamento para o Trabalho (Cepet) em março de 97, mostra que a família continua sendo a fonte de amparo para o trabalhador desempregado na cidade (45%). Em segundo lugar, vem os trabalhos eventuais

(36%), seguro desemprego (10%) e outros meios (9%).

Fonte: Data-ITE

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