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Adriana Rota
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Sem-terras são recebidos no Fórum, mas juiz mantém desocupação

Sem-terras são recebidos no Forum, mas juiz mantém ordem de desocupação

Texto: Adriana Rota

Após uma marcha iniciada por volta das 11h30 de ontem no Horto Florestal de Aimorés, que teve como destino o Forum de Bauru, o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) conseguiu sentar à mesa com o juiz da 5.ª Vara Cível de Bauru, Horácio Furquim Guanaes. O pedido de obtenção de prazo para a retirada das famílias foi negado pelo juiz, que sugeriu uma negociação direta com o advogado da empresa que detém a posse da área.

Ontem à noite, o advogado do Sindicato dos Bancários que representou os sem-terras durante a reunião, Sandro Luiz Fernandes, manteve contato com o advogado da empresa arrendatária para discutir a possibilidade de um prazo de sete dias para a remoção das famílias. Segundo o advogado da empresa, a decisão só poderia ser tomada por um dos diretores. Como já era começo da noite, a resposta deve vir, apenas, na segunda-feira. A informação foi transmitida por Fernandes ao oficial de Justiça, que deveria encaminhá-la a Guanaes.

O advogado não acredita que a ordem de desocupação seja cumprida ainda hoje, como ficou determinado num ultimato enviado à Polícia Militar na última quinta-feira, embora o juiz tenha afirmado à imprensa que ela seria levada a cabo caso a empresa detentora da posse da área não concedesse o prazo solicitado pelo MST. "A situação está nebulosa", classificou Fernandes. "Mas o bom-senso deve prevalecer durante final de semana, porque ainda existe a possibilidade de a empresa aceitar o pedido".

O juiz encarregado do caso acredita que os sem-terras já tiveram tempo suficiente e que já deveriam ter recorrido ao Tribunal, coisa que não fizeram. "Eles não trouxeram qualquer fundamento que pudesse revogar a liminar", considerou. De qualquer maneira, Guanaes mostrou-se confiante quanto à garantia dada pelo representante dos sem-terras, Adailton Manoel da Silva, de realmente deixar o local passados os sete dias.

Durante a reunião, cerca de 100 pessoas do acampamento

(cálculos da PM) ficaram em frente ao Forum, pacificamente. Era grande o número de mulheres e crianças. A maior parte dos homens permaneceram no Horto, na opinião do capitão da PM, Benedito Roberto Meira, por temor de serem desalojados durante a ausência.

No término do encontro, representantes do MST, do Sindicato dos Bancários e dos Ferroviários (que cederam o carro de som) expuseram a situação aos presentes por alguns minutos. A multidão dispersou em seguida.

A marcha

De acordo com o capitão, a caminhada do MST do Horto em direção ao Forum transcorreu na mais perfeita tranqüilidade, inclusive sem necessidade de interdições ou desvios no trânsito. Eles foram acompanhados por duas viaturas da Polícia Rodoviária até o trevo da avenida Rodrigues Alves, na altura do Jardim Redentor, e por duas motos e duas viaturas até chegarem a seu destino. Na frente do Forum, um reforço com mais 10 policiais foi providenciado para prevenir eventuais conflitos, que não ocorreram.

Quanto ao trabalho de organização da PM para a desocupação do Horto, o administrador da empresa arrendatária informou que todos os meios estão viabilizados, bastando informar dia, horário e local. Os advogados dos sem-terras, por sua vez, fizeram um levantamento do número de mulheres, homens, crianças e idosos acampados. Com base nisso, foi entregue um novo ofício ao juiz solicitando um comissário de menores, um assistente social e a definição do destino que será dado aos acampados, que ainda não têm idéia de para onde serão removidos. Embora a data-limite para cumprimento da intimação seja hoje, a PM também acredita numa solução pacífica para o caso. "A operação será desenvolvida de acordo com a disponibilidade dos meios", disse o capitão. Em linhas gerais, a atuação da polícia já está definida.

Cerca de 100 das 300 famílias foram "recrutadas" em Bauru

Nem todas as famílias acampadas no Horto Florestal de Aimorés são originárias de outras cidades. De acordo com um dos militantes do MST (que preferiu não se identificar), ao saber da idéia da ocupação em Bauru, foram organizadas reuniões em diversos bairros da cidade, durante as quais as pessoas eram convidadas a integrar o acampamento.

Essas famílias, segundo ele, viviam em favelas, como a Ferradura Mirim, ou dependiam do aluguel, como os provenientes do núcleo Fortunato Rocha Lima.

Um casal (que também não quis ser identificado) disse ter vindo da Vila Zilo. Mostraram-se dispostos a ir para outra cidade, caso tenham de deixar o horto, para "arriscar". Desempregados, dirigiram-se ao acampamento com um filho e disseram não temer por ele e nem pelo segundo, que está por vir. "A gente crê em Deus", disse a moça.

"Eles fizeram a reunião, falaram 'desse' Movimento Sem Terra e chamaram a gente para participar dele".

A reportagem do JC ouviu vários outros sem-terras que demonstraram entusiasmo pelo trabalho, mas pouca informação, embora, segundo eles, reuniões freqüentes sejam realizadas entre líderes e os demais. Essa realidade demonstra uma certa disparidade no nível de politização dos participantes do movimento. As partes envolvidas foram freqüentemente rotuladas como boas (sem-terras) ou más ("os ricos"). A polícia, segundo os entrevistados, fica nesse meio, como uma defensora do estado de coisas vigente.

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