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Adriana Rota
| Tempo de leitura: 5 min

Sem Terra desocupam horto e vão para beira da estrada

Sem Terra desocupam Horto e vão para a beira da estrada

Texto: Adriana Rota

Os trabalhadores sem terra que estavam acampados no Horto Florestal de Aimorés desde o dia 20 de março desocuparam o local, ontem, por volta das 15h30 de ontem, pacificamente. Com um efetivo de 358 pessoas, a Polícia Militar ofereceu o apoio necessário ao oficial de Justiça encarregado de efetivar a reintegração de posse da área

à empresa Votorantim Celulose e Papel (VCP). Cerca de 300 pessoas do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) saíram em comboio e instalaram-se numa parte do antigo trevo de entroncamento do acesso de Bauru à rodovia João Ribeiro de Barros, próximo à antiga fábrica da Coca-Cola.

Os componentes do Sindicato dos Bancários, da Igreja, da PM e o oficial de Justiça encarregado de cumprir a ordem de desocupação chegaram no Horto por volta das 6 horas. Segundo o coronel Cid Monteiro de Barros, os sem-terra estavam munidos de ferramentas de trabalho como foices, símbolo da luta pela Reforma Agrária. Mas rapidamente teve início uma negociação, seguida de uma assembléia interna dos membros do acampamento, que acabaram aceitando a saída. A imprensa (que permaneceu alguns metros distante durante a negociação) só pôde aproximar-se do acampamento por volta das 8h30.

As barracas começaram a ser desmontadas pelos próprios acampados, que só aceitaram o apoio do pessoal encarregado de mão de obra no final do desmonte. Eles temiam que as lonas e seus poucos pertences, encharcados pela chuva, fossem danificados de alguma maneira. Ao som de músicas sobre Reforma Agrária e discursos gravados vindos do caminhão de som do Sindicato dos Bancários, trabalharam calmamente. Palavras de ordem eram ditas e repetidas algumas vezes, inclusive pelas crianças, o que parecia dar força para continuarem o serviço, enfrentando o frio e a chuva que não deram trégua. A fala emocionada de um dos componentes resume o sentimento dos acampados: "Eu sou sem terra, sem teto, sem dinheiro, eu sou sem casa. Posso dizer que sou sem moral aqui dentro, porque o Governo não dá o respeito que a gente merece, não dá o direito que nós temos, então, hoje, eu sou sem tudo isso".

Os primeiros a serem abrigados nos ônibus foram as crianças, por cinco membros do Conselho Tutelar presentes no Horto. Apesar disso, muitas delas permaneceram na chuva, o que gerou descontentamento.

"O Conselho Tutelar só veio aqui porque, se a gente colocasse as crianças na frente, ia ter de responder processo. Por que não vieram enquanto estávamos acampados?", questionou o "porta-voz", Adailton Manoel da Silva.

Até o momento da saída só era possível saber que eles iriam para a beira da rodovia Bauru-Jaú

(João Ribeiro de Barros). Mesmo os acampados não tinham certeza de seu destino. Organizada a desocupação, já por volta das 15h30, as famílias desembarcaram numa parte do antigo trevo de entroncamento do acesso de Bauru a essa mesma rodovia, reiniciando a montagem das barracas sem saber ao certo até quando permanecerão na estrada.

PM compartilha lanche com as crianças

Por volta das 10 horas, um lanche composto por uma maçã, uma tangerina, uma lata de refrigerante e um lanche com presunto e queijo foi servido para, aproximadamente, 100 crianças, filhos dos acampados. Esse lanche foi cedido para a PM pela empresa arrendatária, como um dos meios para desocupação exigidos durante a negociação. "Nós fizemos previsão de um determinado número de lanches para atender aos policiais no caso de complicação, o que não ocorreu. Como tudo foi correndo bem e não teríamos de passar tanto tempo no Horto, está sendo possível alimentar tanto os policiais quanto as crianças", disse o tenente Daniel Corrêa de Godoy. O bom relacionamento com a PM, que procurou uma negociação pacífica para a saída dos acampados desde o início do impasse, foi reconhecido por vários dos entrevistados. "Tem um capitão aí, o Meira, que foi uma pessoa excelente para a gente. Nós tivemos muito freio para não fazer coisa errada devido ao trabalho dele. Ele chegou aqui, aliviou tudo, lembrou que todos somos seres humanos. Ele queria manter a paz", afirmou Pedro Alevino, 43 anos. Ao final da última reunião entre MST e PM, realizada antes da desocupação

(na tarde de quinta-feira), esse mesmo capitão recebeu das mãos de algumas crianças um pequeno maço de flores colhidas no próprio Horto.

Operação da PM teve início durante a madrugada

A operação da PM teve início durante a madrugada,

às 3h45, ainda nos quartéis, onde foram transmitidas as orientações gerais do comando para o procedimento durante a desocupação. O esquema policial envolveu a equipe do Trânsito, do Canil, da Cavalaria, da Florestal, do Pelotão de Choque, do Corpo de Bombeiros e de policiais encarregados da área de logística, provimento de alimentos e meios de transporte. A equipe mais próxima ao acampamento era do pessoal encarregado da negociação. Em seguida, a Tropa de Choque, o Canil e, atrás, os demais membros do efetivo que cuidavam da retaguarda.

Grande parte do contingente presente para a desocupação foi formado pelo pessoal que trabalhou na quinta-feira por 12 horas e deveriam ter tirado folga ontem. Além disso, ainda foi necessário um reforço policial de cidades da região, como Jaú, Pirajuí e Lins. "Todo grande evento precisa desse tipo de remanejamento porque o policiamento normal não pode ser prejudicado", explicou o tenente Flávio Jun Kitazuno, da 1.ª Cia.

O uso de munição química (bombas de gás lacrimogêneo e efeito moral), cacetete, balas de borracha e revólveres não foram necessários em nenhum momento.

Doações

A Comissão Pastoral da Terra, ligada ao Bispado de Bauru, continua pedindo a colaboração da comunidade no sentido de contribuir com comida, medicamentos, roupas, lonas, material escolar e o que mais puder para a manutenção das famílias acampadas à beira da estrada.

As doações podem ser encaminhadas para o Centro de Orientação para o Trabalhador (COT), que fica na Azarias Leite, 9-80, telefone 223-7766, ou levadas à paróquia mais próxima.

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