Ai que ciúme!
Ai que ciúme!
Texto: Gustavo Cândido
Deste sentimento não há como fugir. Todo mundo, sem exceção, sente em algum ponto da vida, ciúme de alguém ou de alguma coisa. É normal. Isto só se torna um problema quando o ciúme vira uma obsessão e serve de desculpa para as pessoas agirem loucamente, o que também não é muito raro. A pessoa ciumenta, no fundo é extremamente preguiçosa e ao invés de mudar e se tornar mais atraente para brilhar com sua própria luz, normalmente prefere proibir, criticar e atacar pessoas ou coisas que a ameacem.
O ciúme acompanha o ser humano desde o nascimento, é um sentimento que como muitos outros já está embutido no ser humano quando vem ao mundo. Ele começa a se manifestar mais claramente quando a criança percebe que os pais, além de se relacionarem com ela, também se relacionam entre si. Deste modo não é estranho uma criança mostrar ciúme da mãe, quando esta está dando atenção ao pai. O sentimento fica mais explÃcito e é mais comum, quando nasce um novo irmãozinho ou irmãzinha, a criança chega a ter comportamentos de regressão e começa a agir como se também fosse um bebê, para conseguir a mesma atenção dos pais. O ciúme prossegue também mais tarde, quando a criança passa por uma fase de achar que o mundo gira somente em torno dela e as palavras "meu" e "minha" são as mais usadas.
O que está por trás desse ciúme natural que todas as pessoas sentem? Segundo a psicóloga Luciana M. Biem Neuber, no fundo, a origem do ciúme é a insegurança de não saber se é interessante o suficiente para chamar ou atrair e conservar a atenção de alguém e também a insegurança que a pessoa tem do seu próprio sentimento. Ou seja, ela não está sabendo expressar ou trabalhar o que sente e por isso sente ciúme por ter medo de não saber o que o outro sente por ela. Mais simplificadamente ainda seria como tratar alguém mal e temer ser tratado da mesma maneira. O ciúme é uma máscara para esse medo, intimamente ligada à insegurança.
"A baixa auto-estima é uma caracterÃstica marcante do ciúme", diz a psicóloga Daniela Rogério Pires. De acordo com ela, pessoas que têm uma baixa auto-estima, não se valorizam e se acham feias costumam ser muito ciumentas porque acham que tudo que existe em outras pessoas é mais importante, mais bonito, do que existe nela, o que gera o medo da perda.
"Algumas pessoas também são muito egocêntricas a acreditam que tudo é voltado para elas - coisas e pessoas", afirma Luciana Biem Neuber. "Esse tipo de pessoa tem ciúme de coisas materiais, está sempre dizendo: 'é o meu carro, minha casa, meus CDs', quer sempre ser o centro das atenções e não consegue dividir nada com ninguém, sendo muito ciumenta", explica a psicóloga. Nesse perfil também se encaixam as pessoas que são muito "estrela", que começam a ficar muito em evidência e por isso passam a achar que valem mais do que os outros e temem que alguém vá roubar o seu espaço.
Em todos os lugares
Como é derivado da insegurança, o ciúme não escolhe lugar para aparecer, está presente em todos os lugares. A escola e o trabalho são os exemplos mais claros, até mesmo por serem ambientes de uma certa competição natural. "O medo de não ser tão bom e com isso perder uma vaga ou não ser elogiado pelo professor é que gera o ciúme", diz Luciana Biem Neuber. Como nos outros comportamentos do ciumento, que acredita que não
é capaz de conseguir o que as outras pessoas conseguem, ao invés de criticar, brigar, ser desleal ou ficar irritado por ciúme, ele deveria se preocupar em melhorar o seu desempenho e desenvolver o seu potencial. É ai que se mostra a preguiça do ciumento que ao invés de melhorar para ter tudo o que quer, prefere ficar parado criticando quem consegue.
Doença
Existem casos patológicos de ciúme, onde a coisa atinge o nÃvel da doença. São os casos de pais e mães superprotetoras que não querem que os filhos namorem nunca, por exemplo. Isso muitas vezes acontece por que além da insegurança e do não saber lidar com o amor de mãe (ou de pai), a pessoa está com algum problema na sua relação pessoal homem-mulher e quer descontar no filho (a) suas necessidades de afeição e carinho.
Nos casais também não são raros os casos de ciúme doentio, alguns até como o mostrado no filme "Atração Fatal", onde a personagem de Glenn Close quase mata a famÃlia toda do homem com quem teve um caso passageiro. Casos onde a mulher cortou o pênis do marido (ou namorado), como os que aconteceram no Estados Unidos e no EspÃrito Santo, são o mais claro exemplo de ciúme que vira doença.
"Outra caracterÃstica patológica é a pessoa começar a fantasiar uma realidade por causa do seu ciúme", diz Luciana Biem Neuber. Se o telefone toca, você atende e do outro lado da linha desligam, o que você pensa? Que foi engano, na certa, ainda mais hoje quando o serviço das companhias telefÃnica não andam à s mil maravilhas, o ciumento (a) doentio (a) não. "Ele (ou ela) começa a achar que tudo significa traição, que existe sempre alguém por trás de cada atitude do parceiro e com isso o sufoca, muitas vezes acabando com o relacionamento" explica a psicóloga.
Auto-conhecimento
Se não for trabalhado desde a infância, quando a criança acha que tudo é dela por direito o ciúme tende a se tornar uma coisa comum e cada vez mais forte. "Ele começa a se estender dos pais, para os irmãos, amigos de escola, primos, todo mundo, quando vê a criança tem ciúme de tudo e e leva isso para os seus relacionamentos no futuro", diz Luciana Biem Neuber. Geralmente quando a pessoa é mais velha há um momento em que ela não suporta mais sofrer com o ciúme, até porque ela descobre que o mundo não gira em torno dela e que ela não
é a coisa mais linda e maravilhosa que Deus pÃs na Terra. Como tratar de uma pessoas destas?
"Primeiro ela precisa estar se percebendo e saber o que ela deseja na sua vida, para o seu relacionamento e suas relações com o mundo", afirma Daniela Pires. "A pessoa precisa se voltar mais para ela mesma e se descobrir, se conhecer e atingir um ponto de equilÃbrio". Num relacionamento a dois
é preciso que as duas pessoas queiram mudar para que a situação mude e o ciúme deixe de ser um impecilho, diz a psicóloga, "mas antes as pessoas precisam conhecerem a si mesmas".
O processo de auto-conhecimento não é simples, é preciso que a pessoa primeiro admita que está insegura porque se sente inferior a alguém ou, no final das contas, admita que se está precisando prender alguém com o seu ciúme, é porque não está sabendo
"tê-la", corretamente. Ninguém gosta de se sentir inferior ou sentir que está fazendo algo de errado. O problema sempre começa com quem está sendo ciumento e é ali que tem de ser resolvido.
Ciúme
Eu quero levar uma vida moderninha, deixar minha menininha sair sozinha.
Não ser machista e não bancar o possessivo, ser mais seguro e não ser tão impulsivo.
Mas eu me mordo de ciúme.
Meu bem me deixa sempre muito à vontade, ela me diz que
é muito bom ter liberdade.
Que não há mal nenhum em ter outra amizade e que brigar por isso é muita crueldade
Mas eu me mordo de ciúme.
Roger Rocha Moreira - do Ultrage a Rigor
O ciúme
Dorme o sol à flor do Chico meio-dia, tudo esbarra embriagado de seu lume.
Dorme ponte, Pernambuco, o rio, Bahia, só vigia um ponto negro: o meu ciúme.
O ciúme lançou sua flecha preta, e se viu ferido justo na garganta.
Quem nem alegre, nem triste nem poeta, entre Petrolina e Juazeiro canta.
Velho Chico vens de Minas, de onde o oculto do mistério se escondeu.
Sei que o levas todo em ti. Não me ensinas. E eu sou só eu só eu.
Juazeiro, nem te lembras dessa tarde, Petrolina, nem te chegaste a perceber, mas, na voz que canta tudo ainda arde.
Tu é perda, tudo quer buscar, cadê?
Tanta gente canta, tanta gente cala, tantas almas esticadas no curtume.
Sobre toda estrada, sobre toda sala, paira, monstruosa, a sombra do ciúme.
Caetano Veloso