Você vale um videocassete ?
Você vale um videocassete?
De Nova York às Micronésias, de La Paz a Manila, o mundo inteiro acompanha a história do dr. Jack Kervokian, o veterano médico norte-americano cujo maior trabalho, nos últimos anos, tem sido fazer mergulhar no sono mais delicioso e profundo, mais suave e sem retorno as pessoas que, mesmo no silêncio e quietude de seu leito de enfermidade estão quase a explodir de dor e desespero com as doenças
- à s vezes raras - que as acometem. As pessoas que defendem esse médico, que são capazes de erigir para ele uma estátua, viram há poucos dias inócuas todas as suas argumentações. Kervokian foi condenado por uma juÃza a vários anos de prisão por ter ajudado algumas pessoas a antecipar sua partida na viagem silenciosa ao mundo desconhecido. Onde se supõe não haja males que travem os movimentos dos músculos, nem dores lancinantes que nem a morfina atenua.
O Dr. Morte, como foi apelidado pela mÃdia dos EUA, curiosamente perpetrava um crime pelo qual tanto as vÃtimas como seus parentes imploravam para que ele o cometesse. Com suas cãs branquinhas, lembrando mais um vovà bondoso do que o médico terrÃvel, como querem fazer crer seus adversários, Kervokian equilibra-se entre o conceito de demÃnio da morte e o de anjo dos sofredores.
Décadas passadas, havia em Bauru um temor entre aposentados e pensionistas que evitavam submeter-se a tratamentos ou cirurgias e permanecer internados. Os boatos (acredita-se hoje sem o menor fundamento) diziam que certo médico mal-encarado recebia um "pró-labore"do Governo Federal por aposentado ou pensionista que o INPS se livrasse "para sempre". E a foice da megera nos nossos leitos hospitalares tinha até um nome: o "chá da meia-noite".
E não é que o famigerado "chá", que não passava de uma lenda, saltou, nos últimos dias, da imaginação psicótica dos nossos doentes para a pura realidade! Um sujeito que se dizia enfermeiro
(pelo menos trabalhava há tempo como tal), mancomunado com funerárias, transformou o hospital em que trabalhava numa verdadeira fábrica de defuntos, já que ele recebia por produção! Isto ocorreu no Rio de Janeiro, mas como no Terceiro Mundo tudo de mau é possÃvel, quantos casos iguais ainda não descobertos podem haver por aÃ?
É deprimente saber que isto aconteça. Imagine-se, leitor, nesta situação. Você contribui com o INSS durante toda sua vida profissional, paga a CPMF religiosamente e mesmo sem querer em cada cheque que emite para ajudar o governo a cuidar da saúde. Lá um dia, você, por um pequeno problema de saúde, se interna num hospital. Por coincidência, em casa, o filho do auxiliar de enfermagem que ganha mal chega para o pai e diz: "nosso videocassete quebrou e não tem mais conserto..." (B. Requena)