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Antibióticos

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

Interrupção do tratamento dá força ao germe

Interrupção do tratamento dá força ao germe

Texto: Sabrina Magalhães

Muitas vezes, os médicos prescrevem os antibióticos sem saber exatamente qual é o germe responsável pela infecção

Outro importante fator no aumento da resistência bacteriana, segundo os especialistas, é a interrupção dos tratamentos: o médico prescreve o antibiótico adequado, determina as doses certas para aquele paciente e ele não segue essas orientações. O profissional determina que ele tome os comprimidos, por exemplo, por sete dias, ele toma nos primeiros três dias, melhora, os sintomas desaparecem, ele desiste dos remédios.

De acordo com a infectologista Denise Arakaki, todo remédio tem um tempo certo para ser tomado. Alguns são de oito em oito horas, outros de 12 em 12. Esse intervalo vai depender do tempo de ação da droga na corrente sangÃínea.

Então, o médico prescreve um remédio para ser ingerido a cada oito horas, durante sete dias. No terceiro dia, os sintomas desaparecem, porque algumas bactérias já morreram e outras foram inibidas, estão "escondidas". No quarto dia, o paciente deixa de tomar, por exemplo, a dose da noite, para ir a uma festa. Neste intervalo, aquelas bactérias que estavam "escondidas" voltam a atacar o organismo.

No dia seguinte, o paciente retoma o tratamento, só que as bactérias já recuperaram sua força e, durante o intervalo em que não havia a droga na corrente sangÃínea, elas se reproduzem, dando origem a germes já resistentes à substância. Se outra pessoa for infectada por esta bactéria recém-reproduzida, ela terá que usar um medicamento mais potente para se tratar.

Tuberculose

A tuberculose, uma doença que já estava praticamente erradicada, é hoje uma grande preocupação entre os médicos por causa da resistência oriunda da interrupção do tratamento. Segundo Arakaki, é uma doença que exige um tratamento longo, com seis a nove meses de duração.

"Mas atinge, em maioria, as pessoas que têm más condições de higiene e, portanto, más condições sociais, ou seja, é um paciente que tem um nível de compreensão ruim. Por volta do terceiro mês, sentindo-se bem já, ele abandona os remédios. Só que a bactéria da tuberculose ainda está lá, ele não está curado, restaram as bactérias mais fortes. E elas estão sendo passadas para outras pessoas."

Outro agravante, no caso da tuberculose, é que um dos principais medicamentos usados no seu controle é também usado para impedir a contaminação por meningite menigocócica, nos casos de bloqueio - quando alguém tem o diagnóstico de meningite, todas as pessoas que tiveram contato com ela recebem tal remédio, para inibir a manifestação da bactéria, supondo-se o contágio. Como conseqÃência, tanto a bactéria da meningite meningocócica, quanto o bacilo da tuberculose, estão ficando resistentes a essa droga.

Reinfecção

"Quando interrompe o tratamento (em definitivo), você tem uma infecção mal tratada e pode apresentar uma superinfecção", comenta a infectologista Cibele Ghedine AntÃnio. O agente, agora, já é insensível

àquele antibiótico, que foi mal tomado. Este paciente vai estar sempre sujeito a uma reinfecção, ou seja, a contrair aquela doença novamente. Para ser curado, deverá tomar drogas mais potentes, sendo vítima de efeitos colaterais mais importantes e, ainda, correndo o risco de novas infecções

- lembrando que uma mesma bactéria pode causar diferentes infecções, conforme o órgão atingido.

Prescrição antecipada

O infectologista Marcelo Pesce da Costa salientou que, freqÃentemente, o profissional inicia um tratamento sem saber exatamente qual germe está tratando. Isso acontece, principalmente, quando os sintomas do pacientes são graves e exigem cuidados imediatos. Sem os resultados dos exames laboratoriais, não há como saber de que tipo é aquele agente.

"Isso faz com que a gente tenha que pensar, ter uma idéia do que está ocorrendo com aquele organismo, quais são as chances de resistência a determinados antibióticos, a gravidade do caso, e força os profissionais a utilizar drogas com potência maior (que poderiam eliminar um número maior de germes)."

Ao afetar mais germes, a substância cria mais resistência bacteriana. As infecções vão ficando cada vez mais sérias, exigindo drogas mais e mais potentes, num crescimento incessante.

É o presidente regional da Associação Paulista de Medicina (APM), Carlos Alberto Gobbo, quem dá um exemplo:

"Imagine como deve ser aflitiva a situação do pediatra da rede pública que vê a criança agora e seu retorno é agendado para duas semanas depois. Ele não tem condição de acompanhar adequadamente a evolução daquela criança e fica na dúvida, por exemplo, se são sintomas de gripe, um vírus que vai embora espontaneamente, ou se á uma infecção bacteriana, que se não for tratada precocemente com antibiótico pode apresentar uma evolução mais grave. Muitas vezes, os antibióticos são prescritos sem uma indicação mais precisa sim, até por causa das restrições que o médico tem de obter o resultado de um exame na hora, ou de acompanhar seu paciente com mais freqÃência. Você acaba dando um remédio com poder de cobertura maior do que o necessário."

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