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Concordata

Fábio Grellet
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Demitidos da Caio discutem rescisão

Demitidos da Caio discutem rescisão

Texto: Fábio Grellet

Empresa quer parcelar verbas devidas. Os 930 funcionários que continuam empregados vão discutir, na segunda-feira, sobre redução de jornada e salários

Botucatu - Os 320 funcionários demitidos ontem da Companhia Americana Industrial de Ônibus (Caio), de Botucatu, devem se reunir hoje, em assembléia a ser realizada na sede do Sindicato dos Metalúrgicos de Botucatu, a partir das 9 horas, para discutir a proposta da empresa de parcelar as verbas rescisórias (valores a que os funcionários têm direito, em razão da demissão). Segundo o tesoureiro do Sindicato, Moisés Soares, a empresa se propôs a pagar as quantias devidas em 12 parcelas mensais.

Essa proposta vai ser discutida amanhã, e Soares afirmou que o Sindicato vai apoiar as decisões individuais de cada filiado. Assim, mesmo se a maioria aceitar a proposta de parcelamento, aqueles que a considerarem inadequada e quiserem discutir judicialmente o acerto de contas vão receber do Sindicato todo o apoio jurídico necessário.

Antônio Alves Cota, advogado da Caio, disse que a quantia de parcelas a serem pagas aos ex-funcionários pode ser negociada, mas descartou a alternativa do pagamento ser realizado através de uma parcela única (à vista).

Foram demitidos funcionários das áreas administrativa e de produção de fibra de vidro, poltronas e janelas. O Sindicato havia sugerido à direção da Caio que, inicialmente, propusesse um programa de demissões voluntárias. Se não se inscrevesse nele a quantia de trabalhadores que a empresa pretendia demitir, a sugestão era para que fossem escolhidos funcionários que, embora já tenham se aposentado, continuam desempenhando funções na indústria (porque, mesmo demitidos, eles teriam o rendimento mensal garantido, através da aposentadoria) e, ainda, funcionários solteiros, que têm melhores condições de se deslocar entre regiões, em busca de emprego.

Mas os critérios para a escolha daqueles que seriam demitidos foram outros: segundo o tesoureiro do sindicato, como aderiram ao programa de demissões voluntárias apenas cerca de 40 funcionários, a escolha selecionou os mais faltosos e aqueles que "não acompanhavam o ritmo de produção da empresa, quando ela era mais ativa", para atingir o número de 320.

Segundo o advogado da Caio, 40% dos funcionários devem ser reaproveitados em empresas fornecedoras dela. A expectativa do sindicalista é que a recontratação atinja uma quantia muito menor dos funcionários demitidos.

Após a assembléia que acontece amanhã, os demitidos devem se deslocar até a frente da Prefeitura, onde uma comissão vai discutir com prefeito de Botucatu, Pedro Losi Neto (PSDB), formas de amenizar o impacto do desemprego para os funcionários demitidos ontem.

Redução de jornada

A situação da Caio não é estável, mesmo após ter obtido a concordata preventiva que lhe foi concedida pelo Poder Judiciário, há algumas semanas. Segundo Soares, há três semanas, as linhas de produção estão paralisadas, por falta de pedidos. O advogado da Caio confirmou parcialmente a informação. Ele disse que a empresa esteve paralisada, mas já existem novos pedidos e está sendo aguardada a entrega de chassis, para que a produção seja retomada integralmente. A expectativa

é de que, a cada dia, sejam montados, em média, 15 veículos - quantia 40% menor que a produzida durante o ano passado, quando esse número era de 25 veículos ao dia.

A demissão dos funcionários, porém, parece não ter sido suficiente para equilibrar as contas da empresa. Na próxima segunda-feira, uma assembléia já está sendo convocada para discutir, entre a direção da empresa e os 930 funcionários restantes, a redução da jornada de trabalho em 25%, mesma quantia em que seriam reduzidos também os salários dos trabalhadores, ambos no prazo de 90 dias. O advogado da Caio afirmou que, embora não exista a expectativa de novas demissões, essa proposta, ainda que aceita pelos empregados, não deve ter como contrapartida da Caio a garantia de que ninguém será demitido, no prazo em que estiver em vigor.

Conforme o tesoureiro do Sindicato, embora a direção da Caio também tenha culpa pela situação em que a empresa se encontra, três aspectos foram fundamentais para agravá-la. A mais importante delas foi a redução da quantia financiada pelo Finame, na compra de ônibus. O governo federal determina qual a parcela do preço final poderá ser financiada, e até setembro do ano passado era permitido o financiamento do valor total do veículo; naquele mês o valor foi reduzido para 60% e, há duas semanas, alterado novamente para 80%. Esse aumento pode significar o crescimento das encomendas à Caio.

Outro aspecto, para o tesoureiro, é a dívida das Prefeituras com as empresas de ônibus. Como o órgão público é responsável pelo recolhimento dos valores pagos pelo usuário, cabe a ele repassar às empresas, mas esse pagamento sofre constantes atrasos. Com isso, as empresas também não investem na aquisição de novos veículos.

O terceiro problema que acaba por refletir sobre as indústrias que montam carrocerias de ônibus, como a Caio, é a concorrência desses veículos com as lotações

(perueiros). A redução do número de passageiros

(já que muitos optam por usar as peruas) causa a redução do lucro das empresas de ônibus, que também por isso deixam de investir em novos veículos.

O sindicalista criticou também a passividade do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a quem a Caio recorreu, sem sucesso, para solicitar um empréstimo

(cujo valor, conforme informações extra-oficiais, seria de R$ 30 milhões). O advogado da Caio confirmou a tentativa, e disse considerar improvável que o empréstimo seja firmado.

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