Fim do milênio só depois do ano 2000
Fim do milênio só depois do ano 2000
Texto: Ana Maria Ferreira
A contagem do tempo, dias meses e anos
é feita de formas diferentes e o calendário ocidental ou gregoriano tem pouco mais de 400 anos. Alguns países adotaram essa padronização até mesmo nesse século, como é o caso da Rússia.
Você sabe como são calculados os feriados móveis no nosso calendário?
Historicamente o cálculo tem por base as fases da lua o que faz com que haja a mobilidade nas datas. Os feriados religiosos cristãos, respeitados mundialmente, são a Páscoa, Carnaval e Corpus Christi. O prof. Gleiser escreve que "o calendário Juliano criava um excesso de três anos bissextos a cada 385 anos, provocando uma discrepância na datação dos equinócios e solstícios. Como o equinócio de outono (primavera no Hemisfério Norte) marca o início da Páscoa, a igreja resolveu interferir. Ao lado do astrônomo Clavius, o Papa Gregório XIII, inaugurou um novo calendário, o "Gregoriano", decretando que quinta-feira, 4 de outubro de 1582, no calendário Juliano, seria seguida por sexta-feira, 15 de outubro. Onze dias desapareceram da história por decreto papal!"
A Páscoa - divisora das águas no que se refere a feriados móveis - ocorre no primeiro domingo, após a primeira lua cheia que aparecer, a partir de 21 de março, o que é chamado de equinócio de outono. Entretanto, a data da Lua Cheia não é a real, mas a definida nas Tabelas Eclesiásticas A quarta-feira de Cinzas ocorre 46 dias antes da Páscoa e o Corpus Christi 60 dias depois da Páscoa. O equinócio é quando dia e noite tem a mesma duração, o que sucede nos dias 21 de março e 23 de setembro - outono e primavera respectivamente. É o instante em que o sol, no seu movimento anual aparente, corta o equador celeste.
O calendário Judaíco tem como início o ano de 3761 AC, a data de criação do mundo de acordo como Velho Testamento. O calendário Mulçumano é contado a partir de 622AC, no dia em que Maomé saiu de Meca. Tem doze meses lunares.
O astrônomo Júlio César Klafke, pesquisador do Instituto Astronômico e Astrofísico da USP, ressalta que "o calendário é uma questão cultural e a humanidade não entra em consenso quanto a proposta de um calendário universal. No início da história da humanidade o calendário seguia a ordem natural. Júlio César foi quem estabeleceu um ordem civil, tanto que o mês de julho foi criado em homenagem a ele e agosto em homenagem a César Augusto. Os dois meses tem o mesmo número de dias."
Este cálculo acabou se distanciando da Astronomia, hoje em dia, com relação as fases da lua. Em 1967, por exemplo, a lua cheia - prenúncio da Páscoa - ocorreu em 26 de março e a igreja definiu este dia como o feriado da Páscoa quando deveria fazê-lo em 2 de abril. De 1900 para cá aconteceram mais dez situações semelhantes: 1900, 1903, 1923, 1924, 1927, 1943, 1954, 1962, 1974 e 1981. Até o fim do século XXI acontecerão mais sete vezes: 2038, 2049, 2069 2076, 2089, 2095 e 2096.
A história dos calendários se confunde com a própria história da evolução do homem e procura se compatibilizar com as comemorações religiosas contidas na bíblia. O homem foi percebendo a importância de contar o tempo como forma de garantir as colheitas, de festejá-las, de marcar a próxima colheita, assim como, determinar o período mais adequado para o plantio. As festividades estiveram, quase sempre, relacionadas a colheita dos alimentos, a garantia da sobrevivência da comunidade. Tudo girava em torno deste tema. Enquanto isso a Terra sempre girou em torno do Sol, e a Lua, solitariamente, dá suas voltas em torno da Terra.
E são essas "voltas que a vida dá" que representam a medida do tempo do homem moderno.
Tempo real
O cálculo do tempo é feito através da observação do ciclo solar e do movimento dos astros, entre eles a lua. Existe o ano solar ou tropical que representa o período o tempo que a Terra leva para dar uma volta completa em torno do sol com relação ao equinócio vernal (início das estações), no qual o calendário gregoriano se baseia - 365,2422 dias solares médios - e o ano sideral. Os muçulmanos, por exemplo, ainda utilizam o calendário lunar, com 354 dias, ou seja, onze dias mais curto que o ano solar completando um ciclo a cada 32 anos e meio.
O que tem atraído a atenção de cientistas é a necessidade do cálculo mais exato do tempo. Atualmente, as pesquisas baseiam-se em relógios atômicos, capazes de medir ínfimos bilionésimos de segundos com precisão, além de serem mais precisos que o próprio movimento de rotação do planeta. Esse ajuste garante o funcionamento correto de satélites de posicionamentos terrestres usados por aviões, navios e em trabalhos para demarcações de fronteiras.
Um exemplo disso foi o ano de 1998, que teve o acréscimo de um segundo. Este foi o 22º ajuste decretado pelo Bureau de Pesos e Medidas, na França. Esse mecanismo
é o mesmo que o ano bissexto, o que acaba por equalizar o calendário gregoriano com o movimento da Terra em torno do Sol. A Terra move-se a 14 quilômetros por segundo em torno do Sol, o que explica a importância dos segundos.
As viagens espaciais e as estações orbitais encontram dificuldades de articulação com o calendário terrestre. Daí, que apenas um segundo
é o bastante para que Observatórios acertem as coordenadas envolvendo Tempo Universal ou GMT ( horário do meridiano de Greenwich), que desde 1884 ficou convencionado que o observatório astronômico de Greenwich, na Inglaterra, seria o meridiano zero para definição de latitudes e hora.
A.C. e D.C.
O calendário que usamos foi definido com base no nascimento de Cristo, e ele não nasceu no ano zero, com toda certeza. Alguns astrônomos investigam a possibilidade de a Estrela de Belém ter sido a conjunção dos planetas Júpiter e Saturno ou ainda um cometa, o que causou um imenso brilho no céu. Se essa teoria se comprovar, muito provavelmente Cristo tenha nascido sete anos antes do ano atribuído e o dia exato de seu nascimento fica ainda mais duvidoso. Para o astrônomo Klafke a estrela de Belém ainda é um mistério.
A verdade é que com o passar do tempo os calendários vão servindo as necessidades do homem, que hoje olha muito mais para a possibilidade de vida fora da Terra do que para as estações do ano propícias ao plantio. Essa tarefa está a cargo dos satélites que podem prever mudanças meteorológicas bruscas com antecedência, garantindo, desse modo, a subsistência humana.
A precisão do tempo é também a precisão de novas descobertas.
Num artigo sobre o assunto o prof. Marcelo Gleiser questiona a simplicidade dos calendários.
"O problema ao criar um calendário simples é que o céu não se presta a nossa contagem em números inteiros. Por exemplo, o intervalo entre dois ciclos lunares é de 29,53 dias, o que faz com que um mês lunar tenha 29 (ou 30 dias), e um ano lunar (12 meses lunares), um total de 354,36 dias, menos do que um ano solar, de 365,2422 dias."
Propostas
Como há muitos séculos atrás, hoje também se pensa em adequar o calendário, modificando-se o número de dias dos meses e até o tempo de duração de um dia, que já se discute ser de 20 horas. No final do século passado Auguste Comte lançou sua proposta: 13 meses de 28 dias, com exceção de dezembro, que teria 29 dias. Outra proposta é a de que o ano deveria ser dividido em quatro trimestres iniciados por um mês de 31 seguido de dois de 30 dias. Nas duas propostas os dias da semana não se desencontrariam dos meses durante o ano, como acontece hoje.
Desde século, após a Primeira Guerra Mundial, foram solicitadas propostas para a mudança do calendário, pela Liga das Nações - hoje a ONU - e apareceram mais de 200 idéias que por enquanto não foram colocadas em prática. Hoje existem pelo menos 5 calendários: gregoriano católico, ortodoxo; mulçumano com duas correntes distintas e o judáico ou hebráico.