Informais: mais excluídos depois do Real
Informais: mais excluídos depois do Real
Texto: Luciano Augusto
Os trabalhadores informais concordam: com o Plano Real, a informalidade ficou ainda mais excluída. Os preços não podem se alterar, a concorrência aumenta, a recessão econômica afasta os clientes e o projeto de regulamentação não sai.
"O Plano Real, no começo, foi bom, mas agora está ruim". Com esta frase Leonice Maria Rodrigues Góes, 49 anos, proprietária há 11 anos de um carrinho de hot-dog na Praça Rui Barbosa, definiu os cinco anos de existência do Plano Real. Ela explica que no início da implantação do Plano Real, com R$ 1,00 no bolso
"era possível fazer alguma coisa e hoje em dia não se consegue fazer mais nada". Durante todo este tempo trabalhando com a venda de cachorro quente, Góes diz que esta é a pior fase que está enfrentando.
O principal problema, revela, "é o preço das coisas".
E está assim porque os preços dos produtos que usa na fabricação dos lanches subiram demasiadamente, aumentando o custo do lanche. Em seu carrinho, o preço do cachorro quente, que segundo ela, não aumenta desde o início do Plano Real, é de dois lanches por R$ 1,50. Nestes cinco anos, entretanto, o preço dos produtos utilizados aumentou substancialmente, diminuindo sua margem de lucro e refletindo na qualidade de vida. Como diz a ambulante,
"tudo subiu e a gente não pode subir o preço do lanche".
O desemprego crescente fez com que uma leva considerável de trabalhadores que perderam seus empregos rumassem para a economia informal, aumentando a concorrência no setor. "Se subir não vende, porque no Calçadão o lanche está este preço (dois por R$ 1,50), e fica ruim para todos, porque fica muita competição". De acordo com ela, quando instalou seu carrinho na praça, ela era uma das únicas. Hoje, o número de lancheiros no local já passam de doze, abertos diariamente.
Para ela, a solução seria a troca de presidente. Porque? "Porque este presidente que está aí, com o aumento de R$ 6,00 no salário (último aumento salarial), não adianta nada... poderia ficar para ele".
A ex-costureira, dona-de-casa e atual proprietária de um carrinho de hot-dog na Praça Rui Barbosa, Maria Leonor da Silva, 52 anos, afirma que resolveu comprar e montar o carrinho de lanches na Praça Rui Barbosa, há dois meses, pensando em ganhar um pouco mais além do que já conseguia costurando para terceiros. Já desanimada, Silva diz que as vendas estão muito fracas e que está conseguindo rendimentos similares aos que conseguia como costureira.
"Estou vendo que é o mesmo que ficar em casa", completa.
Para ela, a recessão econômica é o que mais atinge no final do mês. "O povo não tem dinheiro". Ela diz ainda que tem aumentado bastante o número de pedintes, com fome mais sem dinheiro. "A gente libera, porque o meu coração é mole".
Mais otimista é Simone Lopes, 17 anos, proprietária de uma barraca de produtos importados no centro da cidade. A banca, aberta há três meses, segundo ela, garante uma certa receita no final do mês. "O movimento varia muito, mais quando é época de pagamento (início do mês), dá para ganhar mais ou menos".
Simone Lopes, que ainda cursa o primeiro grau, adianta que "não tem nada contra o plano" mas confessa que gostaria de ganhar um pouco melhor.
Sindicato
Na opinião do presidente do Sindicato dos Trabalhadores Informais de Bauru (Sinteib), Mário Augusto dos Santos, 51 anos, o Plano Real emplacou somente no início do ano, quando estourou o consumismo e as classes com menor poder aquisitivo puderam ter à mesa alguns produtos até então inacessíveis, como o iogurte por exemplo. "O povo começou a consumir mais, sem pensar adiante, comprometendo todo o seu orçamento mensal e sem sonhar com o fantasma do desemprego, que hoje é o que mais assusta o brasileiro", analisa o presidente do Sinteib.
Nestes cinco anos de Plano Real, "comemorados" em 1.º de julho, Santos esclarece que o número de trabalhadores registrados diminuiu sensivelmente e "carteira assinada, hoje, é um luxo". Com isso, completa o representante dos informais, muitos trabalhadores, inclusive com formação superior, não conseguem colocação no mercado legal e entram na informalidade, engrossando as fileiras de barraquinhas nas ruas, oferecendo os mais variados tipos de produtos.
Santos diz que o governo pensou em conter a inflação mas não pensou numa maneira de adequar a inflação contra o desemprego.
"Nossa categoria, está no grupo dos excluídos", alega o sindicalista, porque os direitos de cidadão do informal não existem. De acordo com ele, com o trabalho na rua, sem um regulamento que ampara a categoria, o trabalhador informal está sempre sujeito as penalidades previstas na lei, às apreensões da Polícia Civil e da Polícia Federal. "Como é que eu sou cidadão? Cidadania, ou democracia, é você poder ir, vir ou ficar, livremente".