Pesquisas tentam descobrir porque algumas pessoas são imunes ao vírus
Pesquisas tentam descobrir porque algumas pessoas são imunes ao vírus
Texto: Sabrina Magalhães
A evolução dos estudos tende a diminuir cada vez mais a quantidade de remédios do coquetel ou até eliminá-lo a médio prazo
Um dos grandes desafios para os pesquisadores, na opinião do infectologista Marcelo Pesce Gomes da Costa, é descobrir porque algumas pessoas são mais resistentes ao vírus da aids que outras. "Por que dois indivíduos, nas mesmas condições, expostos aos mesmos riscos, um adquire aids e em um ano morre, e o outro continua exposto, mas só vai se infectar depois de dez anos?", observa. Para ele, a chave para a cura da aids está na resposta deste enigma.
A dificuldade, porém, é identificar essas pessoas, já que a doença é "nova" na humanidade e nem todos estiveram expostos ao HIV. Conforme os organismos resistentes forem aparecendo, a Medicina deve estudá-los, em busca de um remédio que dê a todos a condição de resistir ao vírus. "Já existem algumas especulações, como os nórdicos que sobreviveram à peste negra e apresentam uma certa resistência à aids, ou organismos que produzem certa substância e estão mais aptas a resistir. Eles (pesquisadores) já começam a procurar as populações mais imunes. É um ciclo que começa a se fechar.
Coquetel
Desde que o famoso coquetel começou a ser administrado aos portadores de HIV, o tempo de sobrevida dos pacientes tem aumentado a cada dia. Para Pesce, há perspectivas ainda mais animadoras com relação à evolução do tratamento da doença para os próximos anos. Ele ressalta que os grandes laboratórios farmacêuticos estão investindo bilhões de dólares por ano em pesquisas de novas drogas e que a tendência é diminuir a quantidade de comprimidos diários que o paciente precisa tomar (hoje são em média 15).
"E a longo prazo, ele pode até ficar sem medicamentos", preconiza. Ele explica que os remédios do coquetel são muito fortes e têm vários efeitos colaterais. Mas quando o paciente suporta a medicação e toma os comprimidos com disciplina, ele pode levar uma vida normal, trabalhando, estudando, convivendo socialmente, sem apresentar qualquer sintoma.
Pesce lembra que muitos pacientes, depois de algum tempo tomando o coquetel, apresentam carga viral negativa, ou seja, o vírus HIV não é mais detectado nos exames de sangue. "Vislumbra-se a possibilidade até de erradicação do vírus, quer dizer, ele fica uns cinco anos sem apresentar o vírus, então o médico diminui as drogas do coquetel ou até elimina os medicamentos. Quer dizer, ao ingerir o coquetel e impedir que o vírus se reproduza, podemos estar dando condições ao organismo de eliminar o vírus definitivamente. Claro que esse vírus pode não aparecer no sangue, mas estar escondido em outro lugar. Ao parar com a medicação, ele voltaria a se reproduzir. É para responder a tudo isso que as pesquisas continuam."
Contagem regressiva
O infectologista acredita que em mais quatro ou cinco anos a Medicina já tenha dado um grande salto na corrida pela cura da aids. Ele observa que toda pesquisa começa de forma lenta, mas em determinado ponto, as peças passam a se encaixar, os resultados de um cientista esclarece dúvidas de outro, as perguntas de um terceiro dão início a uma quarta pesquisa, até que se chega a um acúmulo tal de conhecimentos, que todos os pesquisadores evoluem rapidamente num curto espaço de tempo.
"É o que está começando a acontecer hoje. A velocidade é imensa. Nos congressos, os estudiosos anunciam um trabalho e já prometem ter uma resposta para os 15 a 20 dias seguintes. Quer dizer, se você participar de três congressos por ano, você continua desatualizado.
É claro que na prática, essas mudanças não aparecem tão depressa. Mas, por exemplo, dois anos atrás, se um paciente tivesse rejeição a um medicamento, não tínhamos outro para trocar. Hoje podemos fazer diversas combinações.
Novas gerações
Conforme o tratamento para a aids vai melhorando e as condições de vida dos pacientes também, surge outra dúvida entre os profissionais: as crianças que nasceram com o vírus estão crescendo, vão chegar à adolescência. Como prepará-las para a sexualidade? A resposta é unânime - eles devem crescer inseridos na sociedade como qualquer outra criança. A diferença
é que, como os diabéticos, os portadores de aids precisam adotar certos hábitos em função de um problema de saúde.
"Eu creio que o despertar da sexualidade talvez seja uma das coisas mais bonitas que aconteçam na vida da gente. Então, a criança descobre que tem um corpo, que esse corpo tem desejos, mas o despertar dele tem limitações. Não existe uma regra para se trabalhar isso. A educação sexual é feita pelo bom senso. Agora, de qualquer forma a intenção é instituir o uso do preservativo. Nunca a idéia de privar o indivíduo de sua vida comum. Ao contrário. Ele precisa se sentir um cidadão, saber que pode trabalhar, sair, freqüentar lugares públicos, que ele tem direito a todas essas coisas básicas, inclusive ao amor"
Questionada a respeito da situação do parceiro deste adolescente, ela explicou que não há qualquer lei obrigando o portador a dizer que tem a doença. "Existe uma lei clara de que se você tentar passar o vírus deliberadamente para alguém, isso terá uma conseqüência legal. Mas é muito bom destacar que o portador pode até querer passar a doença, mas ele só consegue se do outro lado estiver alguém que quer receber. Porque quem não quer, usa preservativo, adota os métodos de prevenção."
Curiosidade
A grande dificuldade encontrada pelos pesquisadores quando buscam a cura da aids é que o vírus sofre mutações rapidíssimas em seu código genético. Cientistas da Califórnia encontraram diferentes tipos de vírus no sangue de um portador. Isso evidencia o comportamento genético original desses vírus que produzem novos parentes graças
à incrível rapidez com que modificam a estrutura do seu DNA. Segundo o virologista norte-americano Jou Levy, a cura da aids estaria centrada no controle dessa capacidade de mutação (Internet).
Mas o infectologista Marcelo Pesce afirma que, mesmo com todas da mutações, os subtipos do HIV apresentam alguns aspectos fundamentais que não mudam. Eles seriam a chave para um remédio contra a aids.