Pesquisa mostra perfil do desempregado da crise
Pesquisa mostra perfil do desempregado da crise
Texto: Márcia Buzalaf
A pesquisa realizada em outubro do ano passado demorou para ser concluída, mas traça o perfil do desempregado em Bauru em uma das mais difíceis fases da economia no ano passado, logo depois da crise em setembro. O trabalhador que se mostra é predominantemente de Bauru, católico, vindo do setor de serviços. Além disso, quase metade não tem 1.º grau completo.
Fica difícil acreditar que, respondendo a 15 perguntas, possa se traçar o perfil do desempregado em Bauru, no início de uma das mais graves fases da economia brasileira. Mas os dados foram coletados de forma espontânea, ou seja, cada trabalhador deveria procurar uma das 21 Escolas Municipais de Educação Infantil.
Ao todo, foram cadastrados 1.847 pessoas, em um projeto que envolveu três universidades da cidade (Unesp, ITE e USC), o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e a Comissão Municipal de empregos.
Os dados deveriam ser tabulados pela Unesp, mas acabaram passando para o Sindicato dos Trabalhadores em Processamento de Dados (Sindpd), que é presidida pelo também presidente da Comissão Municipal de Empregos, Wagner Grassi Gomide. A tabulação ficou pronta nesta última semana e fornece informações sobre o lado social do desempregado.
A idéia principal da pesquisa era montar um banco de dados sobre o desemprego em Bauru, levantando o perfil do desempregado e mantendo o número de rescisões contratuais feitas nos sindicatos atualizadas, para se saber o número de desempregados na cidade.
O objetivo era que os sindicatos da cidade pedissem para cada trabalhador que ficasse desempregado que preenchesse um formulário, com os dados que constavam na pesquisa. Segundo Gomide, isso daria continuidade a esta pesquisa e, assim, a cidade teria informações sobre os desempregados.
O projeto não prosperou. A Comissão Municipal de Empregos enviou 48 ofícios, e recebeu a resposta de apenas seis: o dos ferroviários, dos servidores públicos, dos engenheiros, dos trabalhadores em processamento de dados e dos comerciários. "Nem o Cepet, nem a Sert, nem o Ministério do Trabalho ajudaram", garante Gomide. Segundo ele, cada órgão em Bauru está querendo centralizar um cadastro de desempregados. O resultado é exatamente o contrário: a descentralização total dos dados.
Quem é?
Os itens abaixo - resultado do cadastramento dos sem-emprego - fornecem subsídio para se traçar o perfil do desempregado na cidade:
Tempo de residência: 37% sempre morou em Bauru; 25% tem mais de 15 anos na cidade; 11% está entre 5 e 10 anos; 10% entre 10 a 15 anos; 6% está em Bauru há menos de um ano; 6% entre 1 e 3 anos; e 5% entre 3 e 5 anos.
Religião: 59% é católico e 25% evangélico. Dos entrevistados, 7% não tem religião e 9% tem outras religiões.
Setor de atividade: 57% dos desempregados que participaram da pesquisa vieram do setor de serviços e 28% do comércio. Da indústria, foram 14% dos entrevistados e apenas 1% estava no setor agropecuário.
O último local de trabalho: para 98% dos entrevistados foi na zona urbana. Apenas 2% trabalharam na área rural no emprego anterior. Deste total, 91% trabalhou em Bauru e 9% em outras cidades.
Escolaridade: A grande maioria dos desempregados que responderam a pesquisa têm primeiro grau incompleto (48% dos homens e 38% das mulheres). Apenas 3% dos homens e das mulheres têm 3.º grau completo e 1% dos desempregados de ambos os sexos são analfabetos.
Filhos: 52% dos entrevistados têm filhos e 48%, não. Deste 52%, 34% têm dois filhos, 30% têm um filho, 23% têm três filhos, 7% têm quatro filhos e 6% tem mais de quatro filhos.
A grande maioria dos filhos estão matriculados em escolas públicas (97% dos que têm até sete anos, 86% dos que têm entre oito e treze anos, e 96% dos que têm mais de 14 anos).
A faixa etária que mais está matriculada em escolas
é entre oito e 13 anos (95% do total). 36% estão sem creche e 42% dos filhos dos desempregados estão não estão matriculados em nenhuma escola.
Banco do povo não precisa de R$ 50 mil inicial
O projeto do Banco do Povo, instituição financeira que faz empréstimos à pessoa física e cooperativas em até 5 mil, pode ser de mais fácil instalação do que muitos pensam. De acordo com o presidente da Comissão Municipal de Empregos - que detém o projeto do banco - e do Sindicato dos Trabalhadores em Processamento de Dados (Sindpd), Wagner Grassi Gomide, o investimento inicial não é de R$ 50 mil, como todos pensavam. "O problema da Prefeitura
é dinheiro, mas o gerente falou que podemos conversar, para que, quando for começar a pagar, já esteja retornando o dinheiro dos empréstimos", explica.
Em conversa com o gerente de implantação do Banco do Povo da Nossa Caixa Nosso Banco, Gomide soube que esta quantia pode ser parcelada. "A gente se encontrou na inauguração do Banco do Povo de Lins e ele falou que é perfeitamente negociável", afirma.
O projeto do Banco do Povo, segundo Gomide, está pronto, precisando apenas da atenção da Prefeitura Municipal. Segundo ele, a comissão vem tentando marcar uma reunião com a Secretaria do Desenvolvimento Econômico para discutir o assunto desde o dia 21.
Para Gomide, o poder público deveria dar andamento ao projeto com mais rapidez, já que costuma demorar uma média de cinco meses para ser instalado. "Tem que solicitar o Banco do Povo para Bauru logo, tem muito projeto já na frente. Porque se for esperar o ano que vem para pedir, vai vir só em 2001", conta.
Onze cidades do Estado, até o dia 31 de maio, já têm o Banco do Povo. Ao todo, são 438 contratos de financiamentos de R$ 200 a R$ 5 mil, que somam uma quantia total de empréstimos de R$ 808.735,19, desde o ano passado.
Comissões Municipais da região não atuam
Das Comissões Municipais de Emprego que fazem parte da 7.ª região - Agudos, Balbinos, Bariri, Barra Bonita, Bauru, Bocaina, Dois Córregos, Duartina, Guarantã, Iacanga, Igaraçú do Tietê, Itapuí, Jaú, Lençóis Paulista, Lins, Lucianópolis, Macatuba, Pederneiras, Pirajuí, Presidente Alves, Promissão, Reginópolis e Ubirajara - apenas uma retornou ao ofício da comissão de Bauru, que queria marcar uma reunião para discutir a autonomia da região.
O presidente da Comissão Municipal de Empregos e do Sindicato dos Trabalhadores em Processamento de Dados (Sindpd), Wagner Grassi Gomide, afirma que as comissão precisam debater, principalmente, o poder na liberação de recursos.
A Secretaria Estadual das Relações de Trabalho (Sert) de São Paulo e o Centro Regional de Relações do Trabalho (CRRT) enviou uma lista com o contato de todas as comissões municipais. "Só o endereço da comissão de Bauru e de Macatuba coincidiram. O resto, não bateu", conta Gomide. Ele afirma que os ofícios foram finalmente enviados no endereço certo, conseguido através de pesquisa da própria comissão de Bauru, mas que apenas a unidade de Macatuba respondeu ao ofício.
Atualmente, os sindicatos estaduais enviam os projetos e repassam parte das verbas para os municípios. O ideal, segundo Gomide,
é que cada sindicato possa enviar seus próprios projetos.