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Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 7 min

Destruição marca a saída dos sem-terra de Val de Palmas

Destruição marca a saída dos sem-terras de Val de Palmas

Texto: Rita de Cássia Cornélio

A reintegração de posse da fazenda Val de Palmas, ontem, foi marcada por destruição e vandalismo. Mais de quatro rodadas de negociações foram realizadas até a saída, pacífica, dos integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) da fazenda. A desocupação durou mais de 12 horas, tempo suficiente para que grande parte do patrimônio histórico (a casa grande da fazenda) fosse destruído por um incêndio provocado pelos sem-terra. Os danos serão avaliados hoje pela Polícia Técnica e Florestal. A Polícia Militar não chegou a invadir a fazenda.

Desocupar a Val de Palmas exigiu 396 policiais militares, divididos em vários pelotões: Feminino, Canil, Cavalaria, Tropa de Choque, Gepom e Policiamento Urbano. Antes do dia amanhecer, a PM chegou ao local e se dividiu em dois grandes pelotões. Um deles ficou na entrada principal, pelotão formado pelo Choque, Canil e Cavalaria. O outro entrou pelos fundos da fazenda, através de uma propriedade vizinha.

A estrada vicinal foi bloqueada a uns 700 metros da sede da fazenda. Bambus, valetas, fogueiras, queima de pneus, toras e até um trator da propriedade foram usados para interromper o tráfego. A primeira negociação começou por volta das 7 horas, entre o capitão Benedito Roberto Meira e um dos líderes do movimento, Adaílton Manoel da Silva. O clima era de revolta e de resistência por parte dos sem-terra.

O integrantes do movimento prometiam resistir e alegavam que tinham sido enganados nos últimos acordos. Queriam lonas e cobravam

àquela prometida na saída de Brasília Paulista. A polícia explicava que uma entidade havia mandado e que a lona havia voltado. "Nós não recebemos porque a encomenda não veio nominal. Vocês iam alegar que furtamos", dizia o líder.

Sem acordo, os sem-terra exigiam a presença do tenente-coronel Antônio Sérgio Marsola, o negociador oficial. O diálogo entre o coronel e líder foi marcado por intransigências do parte dos sem-terra. A PM explicava que ia cumprir o mandado de reintegração de posse. Os integrantes do movimento garantiam que não iam sair, estavam cansados de serem jogados de um lado para outro. Exigiam a presença do Incra e do Itesp. O negociador deu duas horas para que eles se reunissem e resolvessem o que fazer.

O prazo se esgotou e nenhuma resposta foi dada à polícia pelos sem-terra. Ao mesmo tempo em que se reuniam para discutir qual posição tomar, alguns integrantes do MST ateavam fogo na mata, no bambuzal e em outros inúmeros focos.

A situação ficou tensa e nenhuma decisão era tomada em nome da saída pacífica. Mulheres e crianças se posicionam em frente dos policiais, formando uma barreira. Cantando e movimentando os braços, elas davam o grito de guerra.

As reuniões se sucederam e todos se retiraram da estrada. Retornaram em seguida, novamente com as crianças na frente. Duas delas carregavam bandeiras. A Nacional ao lado da bandeira do MST. Na segunda fila, crianças com flores vermelhas. Ao se aproximarem dos PMs, as bandeiras foram estiradas no chão e as crianças entregaram flores aos policiais do Pelotão de Choque, criando um clima de emoção e harmonia.

Nova negociação e, desta vez, os integrantes do movimento garantiam que uma pessoa do Itesp estava a caminho, assim como um pessoal do Incra. A chefe da Divisão de Recursos Latifundiários do Incra, Rose Beltrão, só chegou por volta das 12 horas. Foi quando, então, a Polícia Militar, Incra, o representante da OAB, José Jorge Costa Jacintho, e os integrantes do movimento entraram e se reuniram em uma das salas do velho casarão.

Pressionados pela queima de pneus provocada em frente à sede, os representantes das várias entidades entram em acordo. A reunião não pôde ser acompanhada pela Imprensa, que até então teve acesso livre ao acampamento.

Decisão tomada. Os acampados, cerca de 200 pessoas pelos cálculos da PM e 300 pelo cálculo do MST, decidiram deixar a fazenda pacificamente. O Incra se comprometeu a fazer o levantamento e a vistoriar a fazenda Santo Antônio, em Brasília Paulista, e a Val de Palmas. "Já estávamos na região e pretendíamos vistoriar a Santo Antônio. Acrescentamos também a vistoria na Val de Palmas", explicou a representante do Incra, Rose Brandão. De acordo com ela, a vistoria e o levantamento podem definir se as áreas são ou não improdutivas e se poderão ser destinadas ao assentamento.

Sem-terras voltam para o Horto de Aimorés

A desocupação efetiva da fazenda Val de Palmas só começou a ser colocada em prática por volta das 16 horas. Os policiais, que estavam desde às 4 horas da madrugada em serviço, já não escondiam o cansaço de passar tanto tempo em pé sob forte sol.

A nova área escolhida pelos líderes do movimento foi o Horto de Aimorés, próximo ao local onde um grupo dos sem-terra já estava acampado. Dez caminhões e nove ônibus transportaram os cerca de 300 acampados. Há suspeitas de que eles não permaneçam nessa área por muito tempo. Sabe-se que outras fazendas da região estão sendo sondadas pelos integrantes do movimento.

Na avaliação do comandante da operação, coronel Antônio Sérgio Marsola, na retirada dos sem-terra do acampamento havia duas opções: "Negociar a saída pacífica, ou invadir a área para controlar os danos. Optamos pela saída pacífica. Mesmo porque, nossa entrada para coibir o incêndio, fatalmente geraria um confronto", disse.

Ele lembrou que todos os danos ocorridos na fazenda foram registrados.

"Mesmo depois de fechado o acordo foi notado vários focos de incêndio. Vamos registrar e responsabilizá-los pelos danos. Eles correm o risco de responder por danos e formação de quadrilha. Além de crime contra o meio ambiente, que será avaliado pela Polícia Florestal."

O incêndio de grandes proporções provocados na fazenda Val de Palmas pelos sem-terra poderia ter provocado um apagão de proporções desconhecidas, segunda a Defesa Civil. A preocupação de que o fogo atingisse os linhões de alta tensão que passam pelo local fez com que a Defesa Civil sobrevoasse a fazenda em um helicóptero da Cesp.

Segundo o coordenador da Defesa Civil Álvaro de Brito ,"o risco de um apagão somou-se à gravidade da devastação provocada pelo fogo no resquício de vegetação nativa existente na fazenda e toda a região de brejo." O perigo de alastramento foi afastado graças a intervenção das equipes de solo, integradas pelo Corpo de Bombeiros, voluntários, Defesa Civil e Secretaria das Administrações Regionais.

Burguesia & patrimônio histórico

A sede da fazenda Val de Palmas, que para os integrantes do MST

é símbolo da burguesia e da luta dos escravos, também

é um patrimônio histórico do município de Bauru. O velho casarão, que um dia hospedou Getúlio Vargas, ficou tomado por pneus, madeira, combustível e bombas molotov.

Os sem-terra usaram a sede como trunfo. "Se vocês invadirem, nós explodimos a sede", ameaçaram várias vezes. Longe de representar a burguesia atual, o casarão estava em péssimas condições de conservação, porém ainda conservava sua imponência de um prédio construído no século de XIX, quando a fazenda ocupava o segundo lugar no ranking de maior produtora de café do mundo. Por sorte ou sabedoria, os integrantes do movimento deixaram a fazenda sem explodir o velho casarão.

Galpão é incendiado

Em menos de meia hora, um galpão de mais de 400 metros quadrados foi ao chão e virou cinzas. Só as máquinas da antiga serraria persistiram em ficar. O incêndio, provocado por quatro cavaleiros vestidos e encapuzados como guerrilheiros de Chiapas, foi uma forma de resistir, confidenciou um dos incendiários. Também foram queimados o antigo armazém, a farmácia e mais seis casas de colonos não resistiram ao fogo.

De acordo com ele, atear fogo no galpão era uma forma de resistir ao governo federal e também de mostrar que os sem-terra não tinham medo da polícia. "Há dois anos nós estamos aguardando que o Incra designe terras para nós. Queremos produzir, nossos filhos estão passando fome", disse.

Os integrantes do MT estão adotando esquema de guerrilha. O esquema, que inclui soluções ditadas pelo celular aos líderes acampados, exclui também todos aqueles que não concordam ou que assumem posições não tão reacionárias como a deles. Uma crítica feita através de uma rádio da cidade provocou uma revolta nos acampados, que prometeram vingança.

A emissora de TV que transmitiu imagens e informações mostrando todo o estrago e a destruição provocadas por eles foi punida com a proibição de entrada no acampamento. Para os integrantes do MT acampados na fazenda Val de Palmas, falta estratégia, comentavam alguns observadores.

De acordo com eles, a destruição do patrimônio histórico pode significar a antipatia da comunidade, que até então via com bons olhos a luta travada entre o movimento e o governo federal. O argumento de que a fazenda era o símbolo da burguesia, segundo observadores, é um discurso ultrapassado e sem sentido. Destruir o patrimônio histórico simplesmente para mostrar resistência, teria sido o erro maior.

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