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Redação
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Sem-terra recusam área e acampam na cidade de Anhembi

Sem-terra recusam área e acampam na cidade de Anhembi

Anhembi - As 1,2 mil famílias de sem-terra despejadas da Fazenda Boa Esperança quinta-feira recusaram a área oferecida para assentamento provisório e decidiram acampar ontem na área urbana de Anhembi, na região de Botucatu. As primeiras barracas de lona foram erguidas de manhã, ao lado do estádio de futebol, próximo da margem do rio Tietê. À tarde, centenas já tinham sido levantadas e continuavam chegando caminhões com mudanças. O coordenador estadual do Movimento dos Sem-Terra (MST), João Paulo Rodrigues, previa a instalação de todas as famílias até a noite. A cidade, de 3,5 mil habitantes, recebeu os sem-terra com curiosidade e medo. Parte do comércio fechou as portas com receio de saques.

O grupo tinha deixado a Fazenda Boa Esperança, a dez quilômetros da cidade, na manhã de quinta-feira, após acordo com a Polícia Militar. A PM levara 286 soldados para o despejo, cumprindo ordem judicial, mas não chegou a entrar em ação. Liderados por Rodrigues, os sem-terra saíram em marcha e, 300 metros adiante, invadiram a Fazenda Ribeirão dos Pires, derrubando a cerca e ateando fogo no pasto. O proprietário, Alfredo David, conseguiu uma liminar na Justiça de Piracicaba. Diante da possibilidade de novo despejo, as lideranças aceitaram transferir as famílias para uma área de 300 hectares, penhorada pelo Banco do Brasil.

O transporte foi providenciado pelo dono da Boa Esperança, Osvaldo Calcidoni. Segundo Rodrigues, ao chegar no local, os líderes verificaram que a fazenda estava dividida em lotes e tinha casas.

"Não havia condição de ficar por lá", disse. O Incra, que indicou a área, vai apurar as informações do líder.

À noite, quando o aparato policial já se desfizera, as famílias foram levadas de volta à Fazenda Boa Esperança. Temendo nova invasão, o proprietário retirou sua família da propriedade e pediu ajuda à PM, mas Rodrigues informou que usaria o local apenas para passar a noite.

A chegada dos sem-terra agitou Anhembi. Enquanto curiosos acompanhavam a montagem dos barracos, o prefeito Geraldo Conceição Cunha (PSDB) tentava uma audiência com o governador Mário Covas. "A cidade não tem como atender a tanta gente." Ele vai pedir ao governador que seja destinada uma área para assentamento das famílias "o mais rápido possível". Rodrigues admitiu que os sem-terra podem representar um transtorno. "Muita gente aqui saiu da rua e de favelas, mas faremos o possível para evitar o alcoolismo e a mendicância." Ele disse que espera ficar pouco tempo na cidade. "Teremos uma reunião quarta-feira com a presidente do Itesp, Tânia Andrade, para ela nos indicar as áreas devolutas da região".

Ontem chegaram cinco toneladas de alimentos arrecadadas na região do ABC e os acampados receberam a visita de estudantes da Itália que estão em Diadema. O comandante do Policiamento de Área do Interior, coronel Josué Álvares Pintor, que acompanhou a ação da PM na Fazenda Boa Esperança disse que os policiais cumpriram a lei. "Não pudemos impedir a entrada na outra fazenda porque os sem-terra seguiram pelo lado oposto." Embora os invasores praticassem um ato ilegal, não havia como dar voz de prisão a centenas de militantes.

"Mas fizemos o que foi determinado pela Justiça sem derramar sangue."

Para o líder, ações de impacto resultam de nova militância. O grupo de sem-terra que acampou em Anhembi, depois de invadir duas fazendas na região vem desafiando as autoridades desde o dia 7 de fevereiro, quando invadiu a Fazenda Engenho D'Água, em Porto Feliz, considerada produtiva. Para montar o acampamento eles destruíram plantações de cana de açúcar. O despejo foi decretado no dia seguinte, mas só saíram dia 17 de março para acampar no quilômetro 100 da Rodovia Castelo Branco. Dali, protagonizaram ações violentas, como dois bloqueios

à rodovia e o saque a três caminhões de alimentos. Em protesto contra a prisão de militantes envolvidos no roubo das cargas, bloquearam a entrada do Fórum de Porto Feliz, ofendendo uma juíza. Participaram de marcha a São Paulo e da invasão da agência do Banco do Brasil em Sorocaba.

O líder João Paulo Rodrigues não considera o grupo radical ou violento. "A maioria veio das favelas e muitos já apanharam da polícia, por isso a reação

é diferente da de grupos formados só por agricultores." Segundo ele, os cinco meses foram um aprendizado. "Formamos esse pessoal do ponto de vista político e de luta para serem os novos militantes do MST." Ele definiu essa nova militância, na qual se inclui, como a de pessoas preparadas e corajosas, mas não violentas. "Sempre trabalhamos para que não haja confronto com a polícia ou com os fazendeiros." Rodrigues acha que a PM também está mais preparada para lidar com os sem-terra. "Hoje há mais diálogo, pois os policiais sabem que a sociedade não aceita a truculência." O coordenador estadual do MST, Gilmar Mauro, disse que o grupo do acampamento de Anhembi, um dos maiores do Estado, tem todo respaldo do movimento.

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