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Apelido

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 5 min

Apelido: o 2º nome

Apelido: o 2º nome

Texto: Gustavo Cândido

Ele muitas vezes acaba tomando o espaço e fazendo às vezes do nome da pessoa, como no caso de Pelé, Xuxa, Ratinho ou Lula. O apelido não é uma invenção moderna, Caio Júlio César Germânico, imperador romano de 37 a 41, entrou para a história com o seu, Calígula, que se originou quando ele, ainda criança, usava pequenas botinas do exército (caligae), na época, comandado por seu pai. O apelido pode ser uma forma carinhosa de se referir a uma pessoa e com isso gerar aproximação, mas também pode ser um fardo, quando se transforma em uma referência pejorativa, preconceituosa contra a pessoa.

O diagramador Alexandre Martins do Carmo teve uma surpresa quando foi descontar um cheque recebido por um trabalho extra que havia feito. O caixa do banco não pode pagá-lo porque no cheque o nome de quem deveria recebê-lo era um certo Alexandre Frei. Frei é o apelido do diagramador na editora onde trabalha. Segundo ele a origem do nome está a ligada a uma suposta semelhança física com um religioso

(um frei de verdade) que morou em Bauru, apontada por um colega.

"Primeiro o apelido 'pegou' na editora e depois foi espalhando. Hoje pessoas que me conhecem fora do ambiente de trabalho me chamam pelo apelido", conta Alexandre, que sempre foi vítima do costume. "Quando trabalhava no jornal, me chamavam de

'Lampadinha', por causa do personagem amigo do Professor Pardal. Num banco onde trabalhei incorporei o apelido de um ex-gerente, que todos chamavam de 'Labib'".

O músico Edevard Viotto resolveu o problema com os cheques com o seu apelido de uma maneira simples: foi ao banco e registrou o apelido como se fosse um nome. Edevard é mais conhecido na cidade pelo nome de Badê.

O apelido vem desde a infância e chegou a confundi-lo quando menino. "Só fui saber que me chamava Edevard quando fui matriculado no grupo escolar, Quando meu pai disse para a professora que o meu nome era aquele, perguntei para ele: 'mas não é Badê?'", relembra.

O caso de Badê se assemelha ao de algumas celebridades nacionais como Ratinho ou Xuxa, cujos apelidos são muito mais populares do que os verdadeiros nomes, mas é mais parecido com o caso de Pelé, cujo verdadeiro nome, a grande maioria das pessoas que o conhecem pelo mundo, não sabem qual é

(no Brasil todos sabem, é claro).

O apelido é tão forte na vida de Badê que o seu filho, Edevard Viotto Jr., o herdando e é chamado de Badezinho. Quando teve seu filho, Edevard Jr. garantiu a continuidade do apelido na família e o incluiu no nome do garoto, hoje com 8 anos, que se chama Vitor Badê Oliveira Viotto.

Nomes que ficam

O saxofonista Manito, companheiro de shows de Badê ganhou o apelido ainda cedo, porque tocava em circos, junto com as irmãs, num grupo chamado Los Manitos. Quando as irmãs pararam o nome do grupo sobrou para ele, que ficou sendo conhecido como Manito. Seu verdadeiro nome é Antonio Rosas Sanches.

"Quando a coisa acaba e o nome fica não tem jeito, tem que aceitar e pronto", diz Manuela Garcia, a Eduarda, nome da personagem de Gabriela Duarte na novela "Por Amor", que Manuela "ganhou", dos amigos por se parecer fisicamente com a atriz. "Ainda bem que foi por parecer com a Gabriela e não com a personagem, que era uma chata", brinca.

"No começo não gostava de apelidos mas depois acostumei. Ainda bem que ninguém me chamou de Chiquinha Gonzaga quando a série passou, teria sido pior", comemora Manuela.

Nomes de sucesso

Embora tenha um apelido que lembra poder e fama. Geraldo Camargo, o Bill Clinton, odeia ser chamado dessa forma. Ele conseguiu este

"segundo nome" com os amigos de trabalho para quem Geraldo

é tão conquistador quanto o presidente americano.

"Não gostei da brincadeira e não gosto de ser chamado assim, mesmo que não haja como evitar", conta Camargo meio contrariado, "aliás isso até me atrapalha com as mulheres, que já ficam com o pé atrás comigo".

Ao contrário de Camargo, que odeia o apelido, João Carlos de Almeida gosta e não pode reclamar do seu. Foi com o apelido, JOÃOBIDU, que possui desde 1973, que ele cresceu nos negócios e se tornou conhecido em todo país como astrólogo. O apelido, que vem de uma gíria,

"já antiga em 73", como ele conta, que significa

"adivinhão", foi dado pelo dono na rádio onde ele trabalhava. Conforme foi crescendo nos meios editoriais e de comunicação, seu verdadeiro nome foi sendo esquecido para dar lugar ao apelido. "Só o pessoal com quem eu fazia as transmissões esportivas na década de 70 se lembram do meu nome", diz Bidu, "hoje, algumas leitoras chegam a pensar que Bidu é o meu sobrenome mesmo". O que pouca gente sabe é que antes de ficar conhecido em todo Brasil com o atual apelido, João, que sempre foi um admirador do futebol, teve um outro apelido quando era jovem: Ciasca, nome de um ex-goleiro da Ponte Preta de Campinas.

Os dois lados da moeda

Segundo a psicóloga Gisele Oliveira Murakami, existem dois lados na questão dos apelidos: "é positivo quando é uma coisa carinhosa, como acontece entre os casais, porque aproxima e é negativo quando é depreciativo, porque prejudica a autoimagem da pessoa, que sofre por ser ridicularizada".

É claro que ninguém pode reclamar de ser chamado de "tchutchuco" pela namorada, embora isso seja meio constrangedor em público, mas com certeza ninguém gosta de ser ponto de referência como o "gordo", ou o "orelhudo". A psicóloga diz que muitas vezes os jovens fazem cirurgias plásticas muito cedo, o que não

é muito bom, para se livrarem de apelidos.

Gisele Murakami explica que apelidos são costumes antigos, que servem como uma forma de troca de carinho. "Mas algumas pessoas não gostam de intimidade com ninguém, então para elas isso é uma barreira e por isso odeiam apelidos", diz.

Uma coisa é certa quando se fala em apelido, quando uma pessoa não gosta de ser chamada de um nome que não seja o seu, e briga por isso, o apelido "pega", como se costuma dizer. Quando a pessoa ignora e brinca com a situação

é mais provável que o nome seja esquecido mais facilmente. Por isso os que não gostam de ser chamados por outros nomes devem procurar relaxar e não ficar nervoso. "É melhor assim", ensina Eric Vieira de Souza, que, segundo ele, ganha um apelido novo a cada mês dos colegas de escola. O atual é Rosquinha. Eric não explica porque.

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