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Vida de modelo

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 15 min

Rumo ao topo

Rumo ao topo

Texto: Gustavo Cândido

Com apenas 17 anos Paula Barros acaba de dar o primeiro grande passo na tão concorrida carreira de modelo. Depois de 5 meses desfilando para importantes estilistas no México, ela está de volta para começar sua escalada até um lugar onde poucas chegam: o topo. Requisitos ela tem de sobra.

Jornal da Cidade - Como você começou a desfilar?

Paula Barros - Sou de Garça, comecei com 13 anos, há quatro anos atrás. Procurei uma agência mas ainda era muito novinha e precisava me preparar. Fiz fisioterapia porque cresci muito rápido e fiquei um tempo aqui no interior me preparando, não só fisicamente. Depois procurei uma agência de novo em 97 e comecei a fazer alguns castings. Eu queria acabar o colegial primeiro, para não deixar a escola nunca. No começo deste ano eu estava começando o terceiro colegial quando surgiu a proposta de ir para São Paulo, como ainda não estava decidida sobre que faculdade cursar, deixei o colegial e decidi me dedicar à carreira. Se der certo deu, senão volto a estudar porque não dá para conciliar uma coisa com a outra.

JC - A dedicação tem que ser muito grande?

Paula - Não basta apenas falar "eu sou modelo", você tem que fazer aulas de passarela, estar em dia com o seu corpo e sua pele, não pode ficar até tarde na noite porque não pode ter olheiras. Ou você se dedica a isso ou se dedica ao estudo. Porque você não pode estudar também sem ter um objetivo. Este ano eu investi na minha carreira.

JC - E depois em São Paulo?

Paula - Estava lá há um mês quando recebi a proposta para fazer um desfile no México para o Giorgio Armani. Pensei: "começo a partir de agora". Fui para o México, peguei a alta temporada lá, desfilei para ele a para o Mondi, Escada, Bustani e Terrone (estilistas mexicanos) e Ossuna (francês). Meu contrato era de três meses mas foi prorrogado por mais dois. Ao todo fiquei 5 meses desfilando no México.

JC - Foi sozinha?

Paula - Fui com uma brasileira. Morei na Cidade do México.

JC - Como você conheceu o Miguel Daré?

Paula - Eu já desfilava aqui no interior, desde de pequena sempre brinquei em desfilar. O Miguel foi uma indicação de uma tia minha, ela disse que ele era superprofissional. Conheci ele, ele gostou de mim e comecei a desfilar com ele. Depois que conheci ele é que me interessei de verdade pela profissão.

JC - Que agência foi essa?

Paula - Foi a Taxi, a primeira agência que eu procurei quando tinha 13 anos. Agora estou sem agência porque fechei o meu contrato com eles quando viajei. Agora vou começar de novo, procurar outras agências e ir em frente.

JC - A carreira de modelo não é muito longa, você não pensa nisso?

Paula - É por isso que tenho que aproveitar agora.

JC - Não vai chegar um momento em que o seu colegial vai fazer falta?

Paula - Acho que se você tem um objetivo tem que ir até o fim, até as últimas conseqüências. Eu penso que posso fazer o colegial no próximo ano ou no próximo, já fazia três anos que eu estava entre ir não ir, precisava tomar uma decisão. As meninas começam muito cedo, existem cada vez mais modelos e a concorrência é grande. Tinha que ser agora, posso estudar depois.

JC - É difícil "fazer o seu nome" nesse mundo, não é?

Paula - É um processo demorado, você tem que começar de baixo, conhecer os clientes e ser conhecida no mercado. Depois de estabilizada você pode pensar em fazer cursos. Para terminar o terceiro colegial eu tenho mais tempo do que para modelar. Até porque ninguém consegue manter o corpo dentro do padrão exigido até os 30 anos, por exemplo. É um padrão muito rigoroso, eu tive a sorte de não ter tendência a engordar. Eles te exploram até quando podem, quando você fica muito conhecida eles não te querem mais e te trocam por uma menina mais nova.

JC - Quanto é ser "velha"?

Paula - Por exemplo, no Morumbi Fashion eles não querem meninas velhas. Garotas com 20 ou 21 anos são raras, eles preferem caras novinhas, com corpinhos...

JC - Por que a concorrência é grande? A profissão virou moda, sonho das meninas, como ser miss há trinta anos atrás?

Paula - É também como ser atriz ou bailarina no passado, mas hoje a profissão é muito mais respeitada. Os avanços da medicina também tornaram possível ter um corpo ideal mais facilmente. Quem se dedica seriamente pode chegar ao padrão exigido, isso aumenta muito a concorrência, principalmente nos grandes centros.

JC - Mas o que as meninas querem, aparecer?

Paula - Eu acho que sim. Tem muitas meninas que chegam sem ter idéia do que é o meio, chegam achando que logo vão estar na capa da revista, fazer os melhores desfiles. São poucas as meninas que conseguem isso e até um pouco de sorte é necessária, muitas vezes o cliente olha pra você, te escolhe e pronto. As meninas ficam iludidas mas as que conseguem algo bom são poucas.

JC - Existe uma "seleção natural"?

Paula - Sim, muitas pensam que por serem altas, terem o peso ideal e a idade já estão prontas e não

é assim. Quando eu tinha 13 anos não sabia nada, já tinha todas as medidas mas não sabia porque nunca era escolhida nos castings. Perguntava: "eu tenho tudo, por que não eu?" Até que você começa a conviver com as meninas mais experientes e percebe que elas se preparam de verdade, é uma dedicação de 100% do tempo. Não existe aquela coisa de hobby, "eu venho aqui, faço umas fotos, e vou embora".

JC - As pessoas só pensam no glamour e esquecem do profissionalismo?

Paula - Exatamente.

JC - Muita gente ainda tem preconceito desse meio, por causa das histórias sobre drogas, sobre o famoso "teste do sofá", o que é verdade sobre o meio, existe muita exploração, muitas drogas?

Paula - O meio tem de tudo, como em todas as outras profissões e como em todos os outros lugares. É claro que tem gente envolvida com droga mas entra nisso quem quer. Se você tem uma boa criação e sabe que não vale a pena se envolver com drogas, não tem problema. A mesma cabeça que você tem aqui deve ter lá.

JC - É essa experiência que você diz que as meninas com 13 anos não têm?

Paula - É, com essa idade ainda se é muito ingênua. Você mal fala um inglês, imagina outra língua. Tem também uma coisa que você com 13 anos não tem que é a noção de como passar uma idéia com caras e bocas, por mais que tenha desenvoltura. Como uma menina com essa idade vai fazer uma pose sensual? Ela nem sabe direito o que é isso. Com 13 anos o que você tem que fazer é observar muito como a coisa funciona mas não entrar de cabeça, sair do país...

JC - A viagem ao México foi uma grande experiência para você então?

Paula - Esse tempo que eu permaneci no México eu aprendi muito. Foi a minha primeira viagem para fora, sem a minha família, ainda não falava o espanhol fluente e para fazer um casting precisava saber o mínimo. Quando vim já podia falar bem, fazer comerciais com texto...

JC - Você foi bem tratada, eles gostam de brasileiras?

Paula - Sim, existem poucas brasileiras por lá e eles nos adoram. Mas lá a maneira de desfilar também

é diferente, você não fica como um cabide igual aqui, tem que ter expressão e isso é a primeira coisa que eles te ensinam. Como ter expressão. Você precisa sentir a roupa que está usando. As meninas que desfilam lá são sempre as mesmas, desfilam há 5, 6 anos, para conseguir entrar naquele meio é muito difícil. A gente tem que se preparar muito.

JC - Você não acha que todas as modelos são mais ou menos iguais, todas magérimas, altas...

Paula - Cada uma tem a sua marca, o seu toque pessoal. Os padrões são mais ou menos os mesmos mas isso não vai mudar. Por mais que você tenha meninas com as mesmas medidas, cada uma é de um jeito e faz a sua marca.

JC - Você sempre teve apoio da família?

Paula - Tive, até porque no começo se gasta muito para poder ficar dentro do padrão certo. Gasta com pele, com book, com cabelo, tem que investir muito. Para começar ganhar o que já gastou e ter lucro vai tempo, mas vale a pena.

JC - O que você diria para uma menina que ser modelo?

Paula - Eu diria para ela pensar muito se é isso mesmo o que ela quer. A partir da hora que você entra nesse meio, tem que se dedicar de corpo e alma. O médico que eu procurei quando era mais nova, para melhorar minha postura me disse que se eu quisesse me dedicar a uma profissão, deveria tentar ser a melhor, todo mundo tem que buscar ser "o melhor", "a melhor", não adianta nada dizer

"eu sou modelo" mas não trabalhar, como muitas meninas fazem. Isso até é ruim para a profissão porque você diz "eu sou modelo", mas dai dizem mas ela também é...

Os números certos

Altura: 1,81m

Busto: 84cm

Cintura: 61cm

Quadril: 90cm

O sonho de ser modelo

Desejo de nove entre dez garotas que entram na adolescência, ser modelo hoje em dia significa mais ou menos o que ser miss era há trinta anos atrás. Por muito tempo considerada uma profissão menor, ser modelo atualmente não é garantia apenas de ter um corpo bonito e uma vida de glamour, mas também de sucesso financeiro se a modelo se dedicar bastante. O caminho até o topo, onde estão apenas algumas estrelas é árduo. Segundo a agência Mega, de São Paulo, de cada 15 mil candidatas que participam de concursos de beleza pelo país, apenas uma se torna uma top model. Bauru, como não poderia deixar de ser, também as suas candidatas. Elas são sempre muito altas, magras e muito jovens mas quase sempre aparentam mais idade do que realmente têm. Quando são perguntadas sobre porque escolheram a carreira, geralmente respondem: "sempre quis, desde de pequena". Assim são a maioria das meninas que são ou pretendem ser modelos, como Driély Verinaud, de 14 anos, que está começando agora na carreira. Segundo ela todos a sua volta sempre diziam que ela "levava jeito" para modelo desde pequena. A idéia se tornou tão clara para ela que chegava a brincar que estava desfilando, "narrava meus próprios desfiles dizendo assim: 'lá vai Driély na passarela'", conta. Quando cresceu mais tomou a decisão, tirou o aparelho dos dentes e foi à procura de uma agência, sempre contando com o apoio da família. Foi por uma certa dose de influência familiar que Amanda Kauffmann, também de 14 anos, decidiu se tornar modelo, "sempre quis desfilar mas a influência da minha mãe nisso foi importante", diz.

Amanda e Driély são duas entre tantas modelos bauruenses que vão tentar o sucesso nas passarelas do país. Um pouco mais experiente, Andrea Claus, de 18 anos, já está no mercado há alguns anos, "fui encontrada no shopping, quando tinha 12 ou 13 anos e comecei a desfilar. Já fiz trabalhos em São Paulo e também já fiz figuração em novelas como 'Zazá', 'O Amor está no Ar' e 'Anjo Mau'", afirma.

Ainda em idade escolar, nenhuma delas abandonou a escola para se dedicar somente aos desfiles. "Só vou pensar em largar os estudos se surgir uma oportunidade muito boa de trabalho, senão vou estudar medicina", diz Amanda Kauffmann,

"quero ainda me tornar uma estilista", diz Andrea Claus. A explicação para o não abandono da escola

é simples: a carreira de modelo é muito curta e precisa ser aproveitada o mais rápido possível.

"Ser modelo é uma coisa que eu só posso ser enquanto for jovem, mas os estudos podem garantir o meu futuro", diz Nataly de Oliveira Ciaramícolo, de 15 anos, que desfila desde criança quando a mãe a colocou em um curso. O mesmo diz Gleice Machado da Silva, de 17 anos: "só vou me dedicar por inteiro mesmo depois que terminar a escola", garante.

A opção pela segurança dos estudos não quer dizer que todas essas meninas não levem a carreira de modelo à sério. Todas se mantém esbeltas e nas medidas corretas para a hora que forem requisitadas.

Namoros

Numa profissão onde se troca de roupa com uma velocidade incrível e, quase sempre, na frente de todo mundo, não

é novidade que os namorados não vejam com muito bons olhos a opção das modelos. "Nunca tive problemas com o meu namorado mas não deixaria que ele interferisse na minha carreira", afirma Amanda Kauffmann. Gleice da Silva também não tem problema com seu par de um ano e nove meses, "a gente conversa muito e além disso eu já era modelo quando ele me conheceu.", diz.

As modelos sabem que quando começarem a trabalhar duro na profissão não vão ter muito tempo para namorar também, "não estou preocupada com isso agora", diz Driély Verinaud.

Perigos Embora sempre tenham contado com o apoio da família, as modelos não ficaram livres de comentários e recomendações sobre como o meio da moda é cheio de perigos, como drogas e agentes aproveitadores. "Minha avó sempre vive me falando sobre isso mas só entram em frias as meninas muito ingênuas, que acham que vão subir logo de cara", explica Andrea Claus, "não só nessa área que existem pessoas desonestas e drogas". "Vai de cada pessoa saber como lidar com estes obstáculos", diz Amanda Kauffmann.

Para todos os gostos

Segundo Cristiano Garrido, diretor da Polo Models, o mercado está cada vez mais saturado de modelos femininos mas isso não quer dizer que as meninas devem abandonar o sonho: "o fato de não ter as medidas, principalmente a altura, não quer dizer que a pessoa não possa ser modelo", diz,

"existem modelos de passarela, de fotografia, de eventos, ou que são requisitadas especialmente por partes específicas do seu corpo como as mãos ou os pés".

Garrido recomenda que as garotas que queiram se tornar modelos procurem várias agências e não fiquem presas somente a uma, "cada agência tem um método de trabalho e existe muita desonestidade nesse negócio, como agências que cobram absolutamente tudo das modelos inexperientes, para fazer teste, para dar informações, tiram dinheiro mesmo".

Segundo ele, é importante que a menina faça um bom book e se possível, quando for assinar contratos, levem os pais junto, para evitar fazer alguma coisa da qual vai se arrepender depois.

O que é proibido para uma modelo

De acordo com o estilista Carlos Miele, que lançou Shirley Mallmann e Gisele Bündchen, lista quais os cinco "não" para as modelos. Elas não devem:

* Comer carne, porque segundo se acredita no meio deixa a pessoa com a fisionomia cansada

* Tomar bebida alcoólica. Engorda da ressaca e pode provocar vexames

* Sair à noite. Badalar cansa

* Aceitar convites que não passem pela sua agência.

É uma forma de evitar algum tipo de "picaretagem"

* Tratar mal a equipe de apoio, como maquiadores, cabeleireiros e costureiras. Isso dá fama de briguenta e mal-educada.

O vocabulário das modelos

Scouter = olheiro

New face = novata

Book = álbum fotográfico

Break = intervalo

Casting = seleção

Composite = cartão com a sua foto

Manager = agente

As medidas

Segundo Cristiano Garrido, diretor da Polo Models, uma garota de no mínimo 1,75m deve ter as seguintes medidas máximas para poder ser modelo:

Busto: 90cm

Cintura: 64cm

Quadril: 90cm

Manequim: 36/38

Meninas modelo

A psicóloga Elaine Olmo faz um alerta sobre o desejo das garotas em se tornarem modelos.

"Tornar-se uma modelo, ser conhecida, estar na capa de revistas famosas, ser admirada mundialmente, ganhar muito dinheiro, tudo isso faz parte dos sonhos de muitas adolescentes. Na adolescência, a busca da identidade a estruturação da personalidade estão indefinidos. Medos e desejos acontecem a todo tempo.

A figura de um ídolo, a imagem (símbolo) da beleza

é passada pela mídia. O desejo de tornar-se famosa, levam adolescentes a procura de agências de modelo que muitas vezes estabelecem padrões de beleza, fazendo com que adolescentes para terem uma chance, submetam-se a esses padrões. Padrões esses, severos demais que acabam por conduzir a regimes rigorosos, a privações que podem vir a prejudicar a saúde.

É saudável lutar por aquilo que deseja, por aquilo que pretenda alcançar, mas não permitir que essa luta se torne uma obsessão, que venha a prejudicar física e psicologicamente.

Um mercado exigente, competitivo, injusto, atraente que faz da adolescente um ser obstinado com um único objetivo, alcançar o sucesso.

São mudanças, responsabilidades, obrigações, rotinas, horários a serem cumpridos, exigência de uma profissão curta, porém intensa.

Mil coisas passam pela cabeça dessas adolescentes, já não bastassem suas incertezas próprias da idade, vivenciar o desconhecido, o novo, tudo fica mais tranqüilo com o apoio e a compreensão dos pais.

Optar por uma profissão ainda cedo, requer disciplina possibilita ganhos, mas também perdas, que devem ser avaliadas pelos pais juntamente com a adolescente.

Abrir mão de uma vida 'normal' da idade para ser uma profissional com responsabilidade de adulto deve ser um questionamento necessário antes de tomar qualquer decisão. Cabe aos pais zelar pelo bem estar de seus filhos, participar da vida, independente da profissão que venham a escolher".

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