Desfile leva 10 mil ao Sambódromo
Desfile leva 10 mil ao Sambódromo
Texto: Adriana Rota
O Sambódromo coloriu-se de verde e amarelo na manhã ensolarada de ontem. Quarenta e duas turmas divididas em três grupamentos, num total de 2 mil pessoas, desfilaram em comemoração ao dia 7 de Setembro, data comemorativa da Independência do Brasil. Pelo menos 10 mil pessoas estiveram nas arquibancadas, segundo cálculos da Polícia Militar (PM).
O evento teve início por volta das 9 horas e ocorreu praticamente sem incidentes. Três pessoas procuraram o serviço do pronto-socorro móvel que estava no local por motivo de mal-estar relacionado ao calor, uma criança perdeu-se da família por alguns minutos e uma queda de energia elétrica, por cerca de uma hora, impediu o anúncio de algumas entidades que desfilavam. A falta de latas de lixo no evento cívico também incomodaram algumas pessoas.
Mas nada disso fez com os participantes perdessem a empolgação. Portando faixas, uniformes e alegorias que indicavam a entidade a qual pertenciam, a pé ou em veículos como carros, bicicletas, cavalos, cadeira de rodas, marchando ou fazendo contorcionismos e acrobacias, eles demonstravam emoção e orgulho.
O público carregava nas mãos bandeiras do Brasil ou trajavam vestes nas cores do País. Durante as apresentações, vibrava aplaudindo em pé e pedindo bis a cada execução. Boa parte dos militares mantinha postura de continência. Vendedores de gêneros alimentícios e adereços serviram a platéia durante todo o desfile, enquanto secretários municipais, vereadores, assessores da Administração e outros membros representativos da sociedade permaneciam sobre o palanque ou nos arredores.
Mais de cinqüenta policiais militares dos pelotões Ciclístico, Cavalaria, Corpo de Bombeiros, Rodoviária, Florestal, Comunitário, Ronda Escolar, Trânsito, Feminino e Grupamento Especial da Polícia Militar (Gepom) trabalharam na operação, mesmo estando de folga. Funcionários das secretarias, autarquias e empresas ligadas
à Prefeitura organizaram o evento.
No Sambódromo também houve espaço para protesto. O engenheiro Günther Karg ficou em frente ao palanque onde estava o prefeito Nilson Costa reivindicando providências sobre um vazamento de água no Centro Cultural, o "local da barbaridade", como escreveu na placa que segurava. "Há 4 meses estou assistindo àquele desperdício, enquanto falta água em diversos pontos da cidade. Já reclamei no Departamento de Água e Esgoto (DAE) várias vezes, mas nada foi feito. Resolvi, então, aproveitar a oportunidade para protestar", desabafou.
Panfletos onde constava a assinatura de um grupo intitulado Coletivo Ação e Resistência Punk e Anarquista (Carpa) circularam pelo Sambódromo pregando contra a obrigatoriedade do serviço militar, considerada uma exploração por parte da Pátria, das classes altas, que incitaria a violência, deixaria famílias mutiladas e provocaria gastos inúteis com as guerras, além de afastar o jovem dos estudos e do emprego. "O 7 de setembro não
é um dia festivo, mas de luta contra o militarismo e qualquer forma de autoritarismo", dizia um trecho do manifesto.
O prefeito classificou o evento como bem mais animado que em 1998, inclusive em número de pessoas. "No ano passado não tínhamos essa platéia porque Bauru estava vivendo um momento dramático. Agora, existe vibração, entusiasmo. Mais do que celebrar a Pátria, esse pessoal está celebrando por Bauru. Acho bonito porque essa é a data máxima da Nação", opinou.
Para a dirigente de Ensino Ednéia Sitta Cucci, os jovens estão necessitando do resgate que o desfile estaria proporcionando.
"Eles precisam valorizar os heróis, o civismo, conhecendo o passado mas sabendo desenvolver uma visão crítica deles, levando cada fato para o contexto da época. Isso porque as coisas sempre se repetem... Nas salas de aula estamos tentando enfatizar essa crítica", disse. Números do desfile Três horas de cerimônia
10 mil pessoas na platéia
Dois mil participantes
Nove turmas do Grupamento Militar
16 turmas do Grupamento Especial
16 turmas do Grupamento Escolar
53 homens dos diversos pelotões da PM
120 funcionários das secretarias, autarquias e empresas municipais
Uma criança perdida
Três pessoas com mal-estar
Seis mil watts de potência do equipamento de som Fala-povo Claudemir, vendedor e Ilza Neuber, do lar, com o neto Gabriel
- "É a primeira vez que a gente vem assistir ao desfile. Acompanhávamos todos os anos na cidade de onde viemos e tivemos curiosidade de saber como era aqui. Trouxemos até nosso netinho caracterizado. O Brasil é 99% independente, mas o 1% que sobra é muita coisa. Ainda falta muita liberdade, de expressão, de locomoção. Mas somos otimistas"
Edith M. da Silva Catani, do lar - "Vim ver meu filho desfilar e estou muito orgulhosa. Acho emocionante ver tudo isso, pensar na preparação que eles fizeram. Acho que o Brasil conseguiu alcançar sua independência, mas ainda temos de lutar muito para continuarmos caminhando" José Paz dos Santos Filho, camelô - "Todo ano venho vender bandeira e costuma ser bom, mas hoje está meio devagar. Acho que o pessoal até gostaria de comprar, mas ninguém tem dinheiro. Gosto também de curtir o desfile" Adélia Seki, dentista, uma de suas filhas e a cadelinha Lady - Vim porque duas filhas minhas estão desfilando, caso contrário não viria. Mas no final das contas estou até gostando, porque é possível sentir o patriotismo nas pessoas, coisa que não aparece no dia-a-dia. Quem está aqui também tem a oportunidade de sentir um pouco o que é a Pátria" Antonio Consoleto, serviços gerais - Venho todos os anos e acho muito gostoso, bem organizado. Fico emocionado e considero o desfile uma maneira de honrar a Pátria. A data me lembra liberdade. As coisas estão meio lentas, mas no caminho certo" José Augusto Natel, auxiliar administrativo - "Esse
é o quinto ano que desfilo tocando na banda. Acho que nem tudo que os livros contam é verdade sobre a Independência. Não acho que ela existe mesmo, porque parece que o Brasil pertence mais aos Estados Unidos do que a ele mesmo. Mas acho que participar desses eventos é uma chance de mudar a realidade"
Família Silva - "Tem uma pessoa da família desfilando, mas nós viríamos de qualquer maneira. Estamos em seis aqui, e até as pequenininhas estão gostando das cores e da música. Deixamos de dormir até mais tarde para prestigiar a Pátria, e elas já vão crescer com essa idéia na cabeça" José Ernesto Bermudes, estudante - "É meu quarto desfile. Fico contente em participar, porque tudo é bonito, o Brasil é muito lindo também. Eu amo nossa Pátria e estou aqui por ela e pela minha família. Esse tipo de coisa ajuda as pessoas a ficarem mais unidas" Carlos José Rodrigues da Silva, catador de latas - "Estou desempregado há 3 anos, vivendo de bico. Não amo muito os governantes, mas amo minha terra apesar das dificuldades, apesar de o negro nunca ter tido vez. Estou aqui para trabalhar mas também para assistir ao desfile. Fiquei orgulhoso ao ver a escola em que eu estudei passar" Marco Aurélio Faria, ator de teatro - "O desfile é muito bom. O Fernando Henrique, o "homem da mala preta" como diz nossa peça, tem de sair. Ele não fez as coisas que prometeu. O Izzo também, mas ele já está preso
Manoel Rodrigues de Lima, capitão reformado - "Fui membro da Força Expedicionária Brasileira (FEB) que lutou na Itália na Segunda Guerra. No momento do desfile
é claro que lembramos os momentos tristes da guerra, mas, especialmente, o que essas manifestações representam para a dignidade do brasileiro. Esses são pequemos cidadãos que farão a vida para um Brasil melhor"