Jornada discute infertiliadde em Bauru
Jornada discute infertilidade em Bauru
Texto: Sabrina Magalhães
Centro traz para a cidade especialistas de renome internacional para falar dos métodos de reprodução assistida
Cerca de 15% a 20% dos casais em idade reprodutiva têm problemas com infertilidade. Para eles, "muitas vezes a concepção depende de um empurrãozinho da Ciência". É com esse slogan e para discutir as diferentes técnicas de fertilização em laboratório que o Centro Laboratorial de Reprodução Humana - Gestar - realiza, no próximo sábado (25/9), a I Jornada de Reprodução Humana de Bauru, com especialistas de renome internacional, entre eles, Nilson Donadio, que trouxe a técnica do bebê de proveta para o Brasil, na década de 80.
De acordo com o urologista Aguinaldo Nardi, um casal que tenta a gravidez só deve se preocupar com uma possível infertilidade depois de 18 meses consecutivos de tentativas (sem usar qualquer método contraceptivo) sem sucesso. Isso porque as chances de uma mulher saudável engravidar no decorrer de um mês são de 25% a 30%, pois o óvulo maduro vive por apenas 24 horas, em média.
Depois desse um ano e meio sem conseguir a concepção, o casal deve procurar pelos especialistas para descobrir qual
é o problema. Os dois vão passar por vários exames urológicos/ginecológicos para tentar identificar possíveis patologias. "Em 40% das vezes a infertilidade
é da mulher. Nas outras 40% das vezes, o problema é com o homem. E há os casos que chamamos 'infertilidade sem causa aparente', quando não há nenhuma doença ou disfunção impedindo a gravidez."
Tratamento
De acordo com o embriologista Paulo Matheus, as primeiras tentativas de fertilização em laboratório foram feitas nos anos 70, quando foi tentado reproduzir fora do organismo o que acontece no aparelho reprodutor feminino - o encontro entre
óvulo e espermatozóide. Após a penetração do espermatozóide, o pré-embrião é transferido para o útero da paciente. "Só que essa técnica só funcionava para casos em que a infertilidade tinha causas obstrutivas", ou seja, quando a mulher tem algum obstáculo nas trompas que impede que o óvulo alcance o útero ou quando o homem tem algum obstáculo que impede que o espermatozóide seja ejaculado.
"Aí começaram a aparecer outros problemas, como os homens que produzem um número muito baixo de espermatozóides." Matheus explica que para atingir o óvulo, os espermatozóides
'nadam' juntos, como uma boiada. Quando são poucos, podem morrer antes de alcançar o óvulo. A técnica de fertilização in vitro (em laboratório) só reproduz o que acontece no organismo, então com poucos espermatozóides não se consegue nem fertilização in vivo, nem in vitro. Mais tarde descobriram que havia óvulos de qualidade ruim ou com uma membrana muito resistente, a qual os espermatozóides não conseguiram perfurar.
Fertilização por Icsi
As dificuldades deram início a outras pesquisas, até o desenvolvimento de um robô com microscópio em que microagulhas injetam o espermatozóide diretamente no núcleo do óvulo, é a fertilização por Injeção Intracitoplasmática de Espermatozóides (Icsi). Para isso, a mulher é submetida a um tratamento com hormônios específicos que estimulam a produção de uma quantidade maior de óvulos (cerca de 8 num único mês).
Alguns dias depois de tomar a medicação ela volta
à clínica e, sob analgesia, é feita uma coleta desses óvulos. Paralelamente, o homem faz uma coleta de sêmen. Os gametas masculino e feminino são devidamente preparados e resultam em alguns pré-embriões (média de oito). Quando os exames mostram que o útero da mulher está preparado para receber um embrião, alguns pré-embriões são transferidos para ela. "Isso é feito sem qualquer anestesia, como um exame ginecológico, rápido e simples", conta Matheus.
Segundo ele, em cada tentativa são transferidos 3 a 4 pré-embriões
(motivo pelo qual boa parte das fertilizações assistidas resultam em gestação múltipla). Os pré-embriões que sobram são congelados. "No caso da primeira tentativa não dar certo, o casal tenta uma nova transferência, mas desta vez pulando etapas, sem a necessidade da coleta e da fertilização. É só esperar a época certa e transferir os pré-embriões."
Métodos simples
Mas há casos em que não é necessário fazer um procedimento tão complexo e uma inseminação intra-uterina pode ajudar. O sêmen do homem é coletado
(pode ser sêmen de um doador, de banco de sêmen ou do próprio parceiro), preparado e introduzido no útero para, naturalmente, chegar ao ovário e fertilizá-lo.
E quando a causa da infertilidade é facilmente tratável, como uma disfunção hormonal feminina, pode ser promovido o chamado Coito Programado: A paciente toma uma medicação específica e é monitorada de forma que o casal seja orientado sobre os melhores dias para a relação sexual com fins de fecundação.
Jornada
Segundo Matheus e Nardi, o objetivo da I Jornada de Reprodução Humana de Bauru é trazer alguns dos melhores especialistas no assunto para debater com médicos da região as novidades do setor. "E esta é só a primeira jornada. O Gestar pretende trazer outros especialistas e promover outros eventos periodicamente a partir deste."
Um dos palestrantes desta Jornada é Nilson Donadio, professor-doutor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, médico que trouxe a técnica da Fertilização in Vitro (bebê de proveta) para o Brasil, em 1982. O embriologista Paulo Matheus fazia parte da equipe na época e agora traz seus conhecimentos para o Gestar, em Bauru. Donadio vai abordar "Indução da ovulação" e "Indicações e contra-indicações das técnicas de reprodução assistida".
Paulo Neves, professor-doutor da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp vai falar sobre os melhores caminhos e principais exames para o diagnóstico preciso das causas da infertilidade masculina. Ele debate também as situações em que o melhor tratamento é corrigir a causa da infertilidade ou quando o médico deve partir para a reprodução assistida.
E o professor-doutor da Faculdade de Medicina do ABC Paulista, Caio Parente Barbosa, vai abordar os caminhos para o diagnóstico da infertilidade feminina e o uso da endoscopia no tratamento da infertilidade. Conforme Nardi, Barbosa é um dos pioneiros na utilização de exames de endoscópicos no diagnóstico da infertilidade.
Serviço
A I Jornada de Reprodução Humana de Bauru será realizada no próximo sábado (25/9), no auditório da Associação Paulista de Medicina, a partir das 9 horas. As inscrições são gratuitas, mas devem ser feitas antecipadamente, pois as vagas são limitadas. Informações pelo telefone (14) 227-4220.
Gestar traz técnica de congelamento para região
O Gestar acaba de trazer para Bauru um equipamento que permite o congelamento de sêmen, óvulos e pré-embriões. De acordo com o embriologista Paulo Matheus é a primeira clínica do interior paulista a adotar a técnica.
"Este equipamento vai permitir que os pré-embriões sejam armazenados por tempo indefinido. Então, numa fertilização por Icsi, por exemplo, quando são preparados cerca de oito pré-embriões e apenas quatro são transferidos para a paciente, os outros ficam guardados. Se a primeira tentativa não der certo (ou se o casal pretende ter mais filhos em alguns anos), a mulher só volta à clínica, quando seu útero estiver preparado, para nova transmissão, sem precisar ingerir mais medicamentos de indução
à ovulação e sem ser submetida à nova analgesia para coleta dos óvulos."
Segundo o urologista Aguinaldo Nardi, o equipamento também traz conforto aos pacientes que serão submetidos a tratamento com radio e quimioterapia e correm risco de esterilidade. "O homem pode recorrer à criopreservação do sêmen. Se depois do tratamento contra o câncer ele ficar estéril e quiser ter filhos, seu sêmen está armazenado. E isso por um prazo indefinido."
Filosofia
Matheus salienta que o Gestar foi criado para trazer ao interior técnicas avançadas no tratamento da infertilidade.
"Nós percebemos que muitos pacientes do interior tinham que recorrer às clínicas da capital para se tratar e isso significa mais gastos, com estada em hotéis, despesas de viagem e faltas ao trabalho. E consideramos que era preciso levar essa modernidade até o paciente, tornando o tratamento mais acessível."
Mas ele destaca que a clínica é apenas um centro laboratorial, ou seja, um recurso a mais para os urologistas e obstetras da região. "A idéia é que os profissionais encaminhem seus pacientes para fazer o diagnóstico preciso da infertilidade e tentar a fertilização assistida. Nossa equipe é formada por urologista, embriologista e esterileuta, ou seja, só atendemos o casal até que a gravidez seja confirmada. O pré-natal e o parto ficam por conta do ginecologista/obstetra de confiança do casal."