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Casamento

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 5 min

Quando o casamento vira uma prisão

Quando o casamento vira uma prisão

Texto: Gustavo Cândido

Você está numa festa com sua esposa, que não sai do seu lado nem por um segundo. Na verdade não é porque ela não conhece mais ninguém no local mas simplesmente porque ela sente a necessidade de "tomar conta de você". De repente uma amiga de escola que você não vê há anos chega e o cumprimenta calorosamente.

É o suficiente. Ela fica vermelha, fecha a cara e exige que vocês voltem para casa no mesmo instante. O exemplo acima é bastante comum na vida conjugal de muitas pessoas.

É claro que não é só a mulher que desenvolve um sentimento de posse exagerado pelo marido, isso acontece com os dois lados na mesma intensidade e pode acabar com a relação. Se você é assim, cuidado!

"Eu não posso nem ir até a padaria sozinho que ela já acha que eu ver outra mulher", conta C., que preferiu não se identificar, sobre sua esposa, "o problema é que eu nem dou motivos para ela desconfiar, nunca olhei para outra mulher ou fiz algo de errado, mesmo assim ela não sai do meu pé". O mesmo acontece com Alice, cujo marido não permite que ela faça nada fora de casa sem que ele a leve e vá buscar depois, "me sinto vigiada", desabafa.

O controle excessivo na realidade não faz bem para nenhuma das partes e, segundo a psicoterapeuta Regina Furigo, também não adianta muito, "os maiores índices de traição acontecem com pessoas que controlam demais os seus parceiros", revela, "esse tipo de relacionamento aprisiona de uma tal forma que a pessoa nem tem espaço para respirar, isso não faz bem para ninguém e mais cedo ou mais tarde leva um deles a abandonar o casamento por não suportar mais".

De acordo com Regina Furigo existem diversas razões para que esse tipo de comportamento se manifeste, seja no homem ou na mulher.

Disfarçando o próprio desejo

Uma das razões, conforme a psicoterapeuta é a projeção. A pessoa na verdade tem um desejo ou uma tendência a querer das umas "escapadas" no casamento e se envolver com outras pessoas e por isso fica acreditando que o parceiro (ou a parceira) pode fazer o mesmo. Ou seja, nesse caso quem controla e vigia é quem deveria ser observado com mais atenção.

Esse caso é bastante comum com os homens, geralmente aquele que proíbe a mulher de fazer qualquer coisinha para não encontrar outro homem, na verdade tem medo que um sujeito como ele, que vai atrás de qualquer rabo de saia, "ataque sua mulher".

Medo da comparação

Outro fator que pode levar a um comportamento excessivamente possessivo

é a insegurança, que faz com que a pessoa tenha medo que o parceiro (a) a compare com outra e descubra que essa outra é melhor em algum aspecto ou mais bonita. "Não gosto que o meu marido olhe para mulheres mais bonitas do que eu, e se ele gostar", diz a secretária Sueli de Araújo, confirmando sua insegurança, "acho que sou insegura sim".

"A pessoa muito ciumenta acaba fazendo um trabalho contra ela mesma, já que muitas vezes o parceiro ou parceira nem sequer prestou atenção na outra pessoa. Quando ela reclama, daí ele (a) presta", conta Regina Furigo. Isso acontece, de acordo com ela, quando o potencial de insegurança da pessoa é muito grande, o que faz com que ela nivele as coisas por baixo e, ao invés de procurar melhorar e crescer enquanto pessoa e para o seu esposo (ou sua esposa), se preocupe em impedir que o companheiro (a) entre em contato com outras pessoas.

Essa insegurança bate mais forte quando existe uma diferença de idade entre o casal ou quando um dos dois já sofreu várias desilusões amorosas e tem medo que aconteça de novo. Nesses casos, qualquer pessoa que se aproxime é vista como uma ameaça à estabilidade da relação. Como acontece com o vendedor Sérgio, de 24 anos, que é casado com uma mulher de 43, "às vezes sinto que ela fica 'meio assim', quando uma menina mais nova conversa comigo e por isso não gosta que eu vá onde essas meninas ficam, como em barzinho, por exemplo. Acho que é por ela ser mais velha, o que para mim não faz diferença, mas parece que ela não entende", diz.

Gente que procura

Na verdade nem todas as pessoas que vivem uma verdadeira prisão no casamento estão nessa situação porque entraram de gaiatos numa coisa que pensavam que ia ser de um jeito e é de outra. "A gente costuma pensar que os casais se unem só pelas partes sadias que existem neles, como qualidades, mas algumas vezes eles se atraem, inconscientemente por uma parte não muito favorável do outro", diz Regina Furigo. Por exemplo: é comum que uma pessoa que acha que precisa ser controlada encontre na personalidade da outra algo de controlador. Muitas vezes esse controle acaba sendo "pedido" pelo que está sendo controlado, mesmo que ele não perceba.

Geralmente isso acontece com pessoas que têm uma visão de si mesmos como muito agressivas ou destrutivas, e que sentem a impossibilidade de controlar isso. O parceiro passa a ser o seu vigia para controlá-la e se torna uma pessoa hiperpossessiva atendendo um apelo "inconsciente" da outra.

Como resolver

Regina Furigo diz que pessoas hiperpossessivas devem procurar crescer, se desenvolver e aceitar desafios. "É preciso correr riscos, do contrário ela nunca vai estar pronta para aceitar as imposições da vida. Viver é correr riscos: de perder, de ganhar, aceitar as imposições da vida. Viver é correr risco", explica a psicoterapeuta.

"A pessoa tem que se conhecer e se confrontar com esse controle que ela exerce para se perguntar porque faz isso e para tentar superar".

Isso não quer dizer que ela tenha que necessariamente fazer terapia, "é importante que ela ouça a opinião de outras pessoas sobre o seu comportamento e seja sensível ao que os outros dizem", ensina a psicóloga, "muitas vezes quem vê a situação de fora aponta detalhes que a gente acha que não tem nada a ver mas que podem salvar uma relação".

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