Site de aluna da Unesp é premiado
Site de aluna da Unesp é premiado em feira de imagem
Texto: Eva Rodrigues
Com um pé no meio acadêmico mas já muito próximos do mercado de trabalho, futuros profissionais estão descobrindo e incluindo a mídia Internet nos projetos. No caso de Angela Cristina Bassichetti Corrêa, 25 anos, o projeto de conclusão do curso de Desenho Industrial, na Unesp/Bauru, acabou levando o 3º lugar na categoria web designer no concurso organizado pela feira Photobrazil 99.
Diferente de trabalhos resultantes de regras impostas pelo mercado ou pelo gosto do freguês, é fundamental salientar que os projetos apresentados na faculdade priorizam a preocupação com a fundamentação teórica - exigência desse tipo de trabalho - e com uma proposta que esteja diretamente relacionada ao curso.
Sob a orientação do professor Dorival Rossi, Angela escolheu a mídia Internet para contar a história de Alice no País das Maravilhas. Você pensou em um resultado infantil e didático? Esqueça. O trabalho utiliza-se da intrincada e complexa rede de interfaces da Internet para dar sua visão contemporânea de "Alice..." e o resultado deixaria o autor Lewis Carroll no mínimo embasbacado.
Para chegar ao trabalho desenvolvido pela aluna é necessário reconstruir o pano de fundo sob o qual foi escrito o livro. A
época é a do surgimento da pólvora e da máquina a vapor e estudiosos apontam relações da obra com esse início da era industrial (Alice caindo no buraco não seria Alice caindo em uma espécie de metrô?); outros preferem o recorte psicológico (tendência à pedofilia do autor); as relações espaço/tempo estão presentes em toda a obra e há indícios de que ele tenha sido um dos primeiros poetas concretos (o poema no livro chamado "O rabo").
Angela argumenta que seu projeto não poderia pegar apenas algumas dessas nuanças do livro e encontrou na Internet a mídia ideal para tratar toda a complexidade de elementos da história. Personagens do livro foram transportados para a atualidade ganhando novas interpretações. O gato de cheshire, por exemplo, ganhou esse nome em função de um queijo que era produzido no Condado de Cheshire que tinha o formato de um gato sorridente. "Esse personagem foi colocado no site como um modelo fotográfico que bombardeia Alice com imagens publicitárias tentando vender produtos. A falsa tartaruga com quem Alice conversa era uma referência à falsa sopa de tartaruga (feita na época com carne de vitela) e que no site transformou-se em uma velha vestida de carne dentro de uma panela. A lebre de março acabou se transformando na coelhinha da Playboy..."
Trajetória circular
O site, construído em HTML e flash e com ilustrações da própria aluna, não tem começo definido e é de difícil navegação. "No site, Alice circula através de um jogo de amarelinha no qual ela se perde constantemente pois os números foram colocados em linguagem binária (combinações de zero e 1) e a trajetória é circular. Queria que as pessoas se perdessem como Alice se perdeu no País das Maravilhas e também irritá-las como Alice se irritou na história e saiu dela", observa Angela.
A Alice da www não tem ares infantis e está mais próxima de um universo clubber (visto somente como opção estética) e alucinado (referência a uma possível ligação de Lewis Carroll com os ácidos). Para trabalhar a relação tempo x espaço, Angela encontrou na web a solução ideal. "Não tem sol, não tem cenário, são personagens soltos num fundo escuro, há links que não vão para lugar nenhum ou vários links que vão para o mesmo lugar..."
O site pode ser visto em www.feiradeimagem.com.br
Sobre o autor
Lewis Carroll era conhecido por seu gosto especial por menininhas, como na frase em que teria dito "Adoro crianças, menos os meninos". Na Inglaterra vitoriana, Carroll era pastor de uma igreja anglicana e nunca se casou. O livro Alice no País das Maravilhas foi resultado de fatos e personagens reais: Carroll convivia com a família Lidell, que tinha três filhas
(entre elas Alice, de 11 anos). Num dos muitos passeios de barco que costumavam fazer, Carroll começou a inventar histórias para distrair as meninas e usou Alice como personagem principal. Ela gostou e pediu para que ele escrevesse a história. Mais tarde, ele teria sido proibido pela família Lidell de manter contato com Alice (nunca se falou sobre o porquê da proibição).
Carroll costumava anotar tudo em um diário que teve páginas arrancadas e outras rasuradas por duas primas na ocasião de sua morte (o que conteriam essas páginas que não pudesse ser lido?). Ele afirmava gostar de fotografar meninas porque eram como flores e o álbum era um jardim eterno onde podia conservá-las do jeito que mais gostava.
Além de pastor, Lewis era professor de matemática, gostava de lógica (escreveu obras sobre os temas) e era considerado um dos melhores fotógrafos da era vitoriana.