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Dia da tia

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

Vida de tia

Vida de tia

Texto: Gustavo Cândido

No último dia 21, foi comemorado o Dia da Tia. Muita gente nem sabia que a data existia e com certeza o número de gente que comemorou a data foi menor ainda. Isso não significa que elas não tenham uma grande importância nas nossas vidas. Muitas vezes são as tias quem nos tratam com um carinho extra e servem de conselheiras e protetoras nas horas mais difíceis. Quem quer que seja que teve a idéia de instituir uma data para elas, fez muito bem, por que elas merecem.

A estudante universitária Camila Cerqueira não vive sem falar com a sua tia. "Falo pelo menos três vezes por semana, conto tudo", diz. Apesar de ter pai e mãe, Camila diz que sempre teve uma ligação muito forte com a tia Augusta (irmã de seu pai), a quem chama de Guta.

"Não sei por que, minha irmã também gosta muito dela mas não tem o relacionamento que eu tenho", conta, "acho que é porque vivia em sua casa desde pequena e a vejo como uma segunda mãe. Sei que ela também me vê como filha, embora tenha suas próprias filhas e filhos".

Camila não reclama de ter na tia uma "segunda mãe",

"ela também me dá puxões de orelha às vezes", explica. Acha que tem sorte de ter mais uma pessoa no mundo que a ame como filha, "me sinto mais segura", diz a estudante.

Tias são geralmente assim como Guta. Sonia Regina Ferreira Souza é uma dessas supertias, tem 12 sobrinhos e mais dois sobrinhos-netos e se dá muito bem com todos, dos mais velhos

(na faixa dos vinte) aos mais novos, "tem uma pequenininha de um ano e meio que não sai daqui de casa", diz.

Sonia não sabe qual a razão do bom relacionamento com os sobrinhos, "acho que é porque me dedico e gosto muito deles. Isso vem desde o meu primeiro sobrinho, que ainda hoje eu vejo como se fosse uma criança", afirma.

Será que o fato da tia não ter aquela responsabilidade dos pais, de criar, dar educação, ser chato às vezes, faz dela uma pessoa mais fácil de gostar? Sonia acha que talvez essa seja a resposta sim. Embora as maiores responsabilidades sejam dos pais, as tias também educam, mas com mais carinho, justamente por não terem tanto a responsabilidade de ensinarem tudo e pegarem no pé como os pais fazem. "Eu tenho uma filha e provavelmente acham que eu sou uma boa tia porque eu me dedico aos meus sobrinhos como eu me dedico a ela. Sempre confiam em mim", conta Sonia.

Confidencias

As tias são sempre as favoritas quando alguma sobrinha ou sobrinho, quer contar alguma coisa, não diretamente para os pais. "Até hoje sou procurada por minhas sobrinhas, principalmente as mais novas, quando elas querem contar um segredinho, pedir opinião ou falar sobre algum probleminha", revela Sonia Souza.

O mesmo acontece com Célia Neves, que tem 15 sobrinhos e sobrinhas, entre 35 e dois anos. Ela diz que muitas vezes os sobrinhos vêm primeiro até ela, antes de irem falar com os pais. "E quando eles não vêm, eu que vou até eles se percebo que há algo de errado. Dou uma de mãe sim. E fico brava mesmo, Sou de chegar e dar uma dura e eles acatam", diz Célia. Ela costuma falar que faz um "controle de qualidade" com os sobrinhos,

"toda vem que têm alguma dúvida sobre uma festa, um baile, uma roupa, vêm aqui na tia para eu poder ajudar e dar minha opinião".

Célia, que é professora, diz que mantém os sobrinhos sempre por perto, com os que não estão morando aqui em Bauru, ou não região ela sempre conversa por telefone para saber como vão as coisas.

Segunda mãe

Muitas vezes as tias fazem literalmente o papel de mãe. Como Ana Pereira Gomes, que criou os dois sobrinhos junto com a filha, desde a infância, quando a mãe deles faleceu,

"achei que meu irmão não tinha condições de cuidar das crianças e levai para a minha casa. Hoje tenho três filhos e estou contente de ter tomado essa decisão", conta emocionada.

"Não sei o que faria sem a minha tia", diz José Carlos Santos. Apesar de ter mãe e pai, ele conta que na verdade foi sua tia, que já faleceu, quem o criou e o educou.

"Não sei porque razão meus pais não ligavam muito para mim e para os meus irmãos, se hoje eu tenho uma profissão e sei alguma coisa, devo a minha tia que me incentivou e até me obrigou a ir à escola", diz.

Influência positiva

Segundo a psicóloga Rosana Martins Ribeiro a participação das tias nas vidas dos sobrinhos é boa, porque cria envolvimento emocional que é benéfico para a criança ou o jovem. Mas ela alerta que é preciso que a tia faça papel de tia, ou seja, "leve para passear, converse, brinque, oriente, mas sem tomar a posição de educadores dos pais", afirma. Para a psicóloga é perigoso para as crianças que as tias tomem o lugar dos pais (quando estes estão presentes e atuantes na vida delas), pois elas podem perder os parâmetros de quem respeitar e do que deve fazer ou não, já que muitos pais ensinam uma coisa e as tias fazem o contrário. "Os pais é que têm a responsabilidade de criar os filhos e não devem se esquecer disso", diz Rosana. Em alguns casos, a psicóloga conta que algumas crianças chegam a respeitar mais as tias do que a mãe, que é o que acontece quando a educação deles não é muito rígida em casa, ou seja,

é preciso que os pais sejam "pais de verdade" e atuem como educadores dos filhos, para que as tias possam ser apenas tias mesmo, com toda doçura que só elas têm.

Ficando para titia

Nem sempre ser chamada de tia é uma coisa agradável. A palavra acabou assumindo outros significados com os anos, o pior deles é associado ao fato de ser uma mulher mais velha e solteira. "Ninguém gosta que digam que você vai ficar para titia", diz Angélica Dias, de 25 anos, que ainda é solteira. De acordo com Rosana Ribeiro essa colocação preconceituosa é resultado de uma influência cultural. "Antes era comum que a vida da mulher se resumisse a casar, procriar e só. Era essa a função da mulher", diz. Quando a mulher não casava e virava tia, era como se tivesse fracassado na sua missão.

"Hoje, depois de todos os avanços da mulher em todas as áreas, esse papel mudou e existem muitas mulheres que preferem ficar solteiras", explica, "mas isso ainda vai mudar aos poucos nas cabeças das pessoas".

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