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Setor indústrial

Paulo Toledo
| Tempo de leitura: 8 min

Indústria passa por dificuldades

Indústria passa por dificuldades

Paulo Toledo

A indústria paulista vive um momento difícil, com desempenho abaixo do que era projetado no primeiro semestre. Porém, destaca Clarice Messer Seibel, 44 anos, diretora do Departamento de pesquisas e Estudos Econômicos

(Depecon) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), a situação não

é totalmente negra.

Ela destaca que a situação

é agravada pelo sistema tributário brasileiro, que considera torto, distorcido, várias vezes ao longo da cadeia produtiva e com todas as imperfeições possíveis e imaginárias e que, ainda, teve um aumento de 6% na carga tributária em 1999. Veja os melhores momento da entrevista:

Jornal da Cidade - Como está a situação da indústria?

Clarice Seibel - A conjuntura, em particular, da indústria de transformação no Estado de São Paulo, não está totalmente negra, mas muito aquém do que se imaginava, em abril ou maio. A expectativa que tínhamos para o segundo semestre, a começar dos últimos três meses, o terceiro trimestre, era muito mais positiva do que os números mostraram ser o caso. Víamos, para a indústria de transformação como um todo, um desempenho que, provavelmente, terá sido negativo.

Embora haja alguns sinais incipientes de direções corretas tomadas pelo governo, com a redução das taxa de juros Selic pelo Banco Central para 19%, a redução do compulsório para os depósitos à vista e a prazo, com o sistema liberando na economia alguma coisa estimada em R$ 10 bilhões que, de alguma maneira, em algum grau, vai acabar fluindo para crédito às empresas. Isso, evidentemente, é positivo. Há também notícias de um reforço no crédito para as microempresas e pequenas empresas, numa política própria e focada. Tudo isso é positivo, faz até um conjunto razoável, mas muito aquém de nos apontar na direção de um quarto trimestre compatível do que era a expectativa em abril e maio.

JC - Mas, há um estrangulamento no processo. Apesar da criação de possibilidades de produção, a massa salarial não está seguindo o mesmo ritmo, não é?

Clarice Seibel - Na verdade, existem vários fatores. Tudo tem dois lados: o positivo e o negativo. A desvalorização foi extremamente positiva no sentido de nos liberar das amarras que nos encontrávamos e das quais não conseguíamos sair, para canto nenhum que não fosse recessão, perda de mercado e, assim por diante. Foram beneficiados alguns setores mais voltado e com tradição no mercado de exportação, como é o caso da área de papel e celulose, que está com desempenho crescentemente favorável, tanto no segundo trimestre como no terceiro e, tudo indica, vai virar o ano 2000 dessa maneira. O setor têxtil teve, também pela desvalorização, a capacidade de apresentar recuperação como há muito tempo não se via, depois de um longo período de vacas magras, por conta da substituição das importações do produtos dessa área. Há esse lado, obviamente positivo, da desvalorização, setorial e de visão macroeconômica.

Mas, por outro lado, existem os problemas e um deles é que a desvalorização tem como conseqüência, também, essa redução da massa salarial, da perda do poder aquisitivo. Efetivamente, tivemos uma perda na massa de salários da indústria, tivemos uma perda no salário real médio praticado na indústria. Esses são fatos que, de uma certa maneira, acabam redundando em menor consumo, menor demanda e rebatendo nas vendas das empresas e, portanto, na própria escala de produção das empresa. Tem esse descompasso. Esse

é um lado da história, não o todo.

JC - O que mais tem influência?

Clarice Seibel - A questão tributária, que é muito grave. Só nos primeiros sete meses do ano, tivemos uma elevação da ordem de 6% na carga tributária. Isso penalizou fortemente e diretamente o setor produtivo. Além de todo um sistema tributário torto, distorcido, várias vezes ao longo da cadeia produtiva e com todas as imperfeições possíveis e imaginárias, tivemos essa elevação na carga.

Na pesquisa de opinião que o Depecon tem desenvolvido e mensalmente divulga - vamos entrar no terceiro número do "Indústria & Opinião"

- ficou muito evidente cada um dos dois lados dessa moeda ligada

à tributação. Na resposta de praticamente a totalidade dos entrevistados que participam da pesquisa, a reforma tributária aparece como a exigência número um do empresariado da indústria paulista para reativar negócios.

O outro lado na moeda é que a carga tributária foi apontada por quase 100% das empresas entrevistadas, em todos os portes, da micro à grande, como inimigo número um da indústria no que compete à sua capacidade de desenvolvimento de novos investimentos.

JC - Tem o deputado Carlos Eduardo Moreira Ferreira, ex-presidente da Fiesp e hoje à frente da CNI, e o senador Fernando Bezerra, licenciado da CNI, que hoje

é ministro. Então, por que não há uma pressão mais incisiva para que a reforma possa deslanchar no Congresso?

Clarice Seibel -

É incrível essa dificuldade. A relação que temos com a Comissão Especial de Reforma Tributária do congresso tem sido muito intensa, corpo a corpo, eu diria, desde sua própria instalação. Fomos ao Congresso diversas vezes. Os congressistas membros vieram à Fiesp por diversas vezes, como andaram visitando inúmeras entidades, na direção de conhecer qual a importância e envolver mais agentes na direção de um trabalho forte.

Essa comissão tem sido um dos raros fóruns no qual o sentido de urgência com relação a alguma matéria estrutural se vê presente. Apesar disso, já tivemos a transferência da data de 30 de setembro para 5 de outubro. Aliás, o presidente da Fiesp, Horácio Lafer Piva, se pronunciou fortemente crítico em relação a esse não cumprimento de prazo, porque é um sinal, apesar de serem poucos dias, da falta de urgência. O que é urgente, o que é importante não se muda. É até uma questão conceitual e de postura.

Eu diria que, nesta questão da reforma tributária, apresentamos uma proposta própria, que foi apresentada em Brasília, com uma presença bastante expressiva de parlamentares, apesar do recesso do Congresso. A partir daí, fizemos a cartilha da Reforma Tributária, da Fiesp-Ciesp, que foi distribuída tão amplamente quanto possível.

Temos um contato sistemático com os congressista, em particular com os da comissão, e com o próprio Poder Executivo, porque ninguém pode imaginar uma reforma tributária na qual o executivo não tenha papel absolutamente fundamental. Há matérias em que não há consenso, é claro. Seja naquilo que compete aos governos de Estado e nós temos tido uma atuação junto ao governo do estado de São Paulo, não só na pessoa do governador Mário Covas, mas também com os técnicos responsáveis pela área da Secretaria da Fazenda. Temos feito simulações no sentido de trazer uma alternativa à visão que

é colocada pelo Estado, que é extremamente cautelosa de uma possibilidade, que eles apresentam como forte, de queda na arrecadação, o que, sob um enfoque arrecadatório não poderia se permitir.

Então existe esse tipos de situação. A proposta que defendemos teve um sentido muito pragmático, de buscar os pontos de maior destaque dentro daquelas propostas que já haviam sido apresentadas.

JC - Diante desse quadro, que tipo de reforma se pode esperar? Será que vem a reforma necessária?

Clarice Seibel - Com certeza não é a reforma ideal. Mas, há pontos mínimos que tem que atentar para uma reforma que vai valer para vários anos do terceiro milênio. Então,

é muito complicado, por exemplo, admitir ou concordar que seja com base em empréstimos compulsórios, por exemplo, que serão financiados em investimentos de longo prazo neste País. Isso não pode entrar na cabeça de ninguém, não precisa ser industrial para sentir minimamente uma lógica. Princípios dessa natureza tem que ser obrigatoriamente atendidos. A simplificação é meritória, mas não é a única via que está sendo buscada. Teremos que encontrar uma outra maneira. Acho que a opinião pública é para ser ouvida e respeitada e se tentar ajustar uma ação que, com certeza, não está na direção que os eleitores desejaram, não está na direção desejada por aqueles que têm a capacidade empreendedora de implementar os investimentos que são necessários neste País para alavancar investimentos.

JC - O Coordenador do Grupo de Política Industrial da Fiesp, Roberto Jeha, disse que 85% das micro e pequenas empresas estão endividadas. É uma situação crítica para as indústrias?

Clarice Seibel - Nessas pesquisas que temos feito, o segundo elemento, depois da questão tributária, que é sempre apontado como empecilho enorme à questão do desenvolvimento é o crédito, seja pela burocracia de acesso às linhas de financiamento, seja pelas garantias exigidas, seja pelo próprio custo desse crédito, que não tem nada a ver com a realidade e deve ter no meio um monte de distorções entre a taxa básica de referência, aquela de 19%, e aquela que chega na ponta com um outro custo para empréstimo, seja para empresas, seja para os consumidores. Até porque

é inimaginável pensamos em desenvolvimento aqui, sem o mercado de capitais como fonte de financiamento, a par do sistema financeiro. Acho que é alguma coisa que está se esboçando um início de conversa, no âmbito do próprio setor privado e, também, no Banco Central e no Ministério do Desenvolvimento. Tanto o ministro Alcides Tápias, quanto o presidente do BC, Armírio Fraga, comentaram ultimamente, com ênfase, essa questão do mercado de capitais. A Fiesp está trabalhando nisso.

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