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Márcia Buzalaf
| Tempo de leitura: 4 min

Café transgênico não é viável

Café transgênico não é viável

Texto: Márcia Buzalaf

A produção de café geneticamente modificado não é viável, por ser uma cultura perene. Esta é a afirmação da pesquisadora-doutora do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), Mirian Peres Maluf, na palestra que ministrou durante o II Simpósio de Ciências Aplicadas da Faculdade de Agronomia e Engenharia Florestal de Garça. Uma cultura de café transgênico demoraria cerca de 20 anos para sua consolidação. Mirian apresentou uma visão diferente sobre os alimentos geneticamente modificados, mostrando a importância da pesquisa no setor e do desenvolvimento de algumas técnicas específicas de modificação genética.

A modificação genética dos alimentos a serviço do bem. Foi este o direcionamento dado pela pesquisadora do IAC. Segundo ela conta, atualmente, existem dois tipos de experimentos de café transgênico: um na França, realizado por um instituto chamado IRD; e outro feito pelo Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR).

Os dois experimentos de café transgênico são diferentes em sua finalidade. O francês tem as características voltadas justamente para a resistência do alimento. O IRD visa produzir um café resistente ao bicho mineiro. Este teste está sendo desenvolvido a campo atualmente. "Eles introduziram um gene que tem um efeito inseticida no café", explica. Na fase laboratorial, este café já comprovou sua eficácia na resistência ao bicho mineiro.

As pesquisas paranaenses têm uma finalidade diferente. Segundo Mirian, o IAPAR está desenvolvendo um café com maturação uniforme, o que geraria um certo controle no amadurecimento do fruto. "Eles usam uma metodologia que não introduz nenhum gene estranho e é isso que está gerando toda a polêmica", explica.

Esta metodologia paranaense foi primeiramente desenvolvida em tomates e visa controlar a síntese do etileno, que promove a maturação dos frutos. "Eles usam a imagem do gene invertido, que se une ao gene como um espelho e o gene não funciona mais. Ao invés de abrir a torneira de etileno, ele pinga devagar, o que permite o controle da maturação", explica.

Apesar de acreditar no desenvolvimento incontrolável de vários alimentos transgênicos, Mirian não acredita no café como uma cultura a se enquadrar nesta nova tecnologia.

Por ser uma planta perene, o café transgênico não seria viável. "Uma vez que a pessoa comprou a semente, ela vai comprar depois de uns 20 anos... Não é como a soja ou o milho, em que você tem um mercado constante de venda de sementes", afirma.

O tempo de desenvolvimento completo de uma espécie transgênica de café, segundo Mirian, seria de aproximadamente 15 a 20 anos.

Além disso, para se desenvolver uma cultura transgênica,

é necessário conhecer bem a genética molecular da espécie e, do café, pouco se sabe ainda a este respeito.

Em contraposição, as técnicas transgênicas seriam importantes para o café Arábica, que tem uma baixa variabilidade. "Isso poderia ser uma saída para o desenvolvimento de novos cultivares. Eu, como pesquisadora, acho inviável", conclui.

Transgênicos e tal

Para Mirian, a discussão sobre os alimentos transgênicos em geral é importante para o desenvolvimento das técnicas. A pesquisadora é reticente em relação aos efeitos dos alimentos geneticamente modificados, mas acredita que a pesquisa não pode parar com base apenas no receio da população.

A discussão tem sido importantes para guiar as culturas transgênicas. Mirian cita uma variedade de milho modificado, o VT, que foi excluídos das pesquisas por estar matando as lagartas. "O interessante não é abolir as pesquisas, mas ver o nível de VT que pode ser colocado na planta, como fazer este gene se expressar... Para isso, tem que se investir muito em pesquisa", opina a pesquisadora.

Como pesquisadora, Mirian critica a proibição dos testes em culturas transgênicas. Segundo ela, não há forma de desenvolvimento de uma nova tecnologia se não houver pesquisas e mais pesquisas, mas sem a comercialização dos produtos.

Para Mirian, a discussão dos transgênicos não tem coerência, já que ninguém questiona o uso indiscriminado dos agrotóxicos e dos inseticistas.

"Eles são altamente cancerígenos e provocam vários males e ninguém reclama", afirma. Para ela, os transgênicos podem inclusive reduzir o uso dos agrotóxicos nas culturas.

O desenvolvimento de produtos transgênicos, na opinião da pesquisadora, está diretamente ligado à quantidade de recursos disponíveis para a pesquisa. "Em relação ao material humano, o Brasil está bem, mas precisa de dinheiro para desenvolver mais pesquisas. Se não desenvolver os transgênicos a gente fica parado no tempo", afirma.

A única condição que Mirian coloca para a cultura de transgênicos é que o Brasil produza os dois tipos de produtos para não perder mercado nem deixar a população sem escolha. Por este motivo, ela também defende a rotulação dos alimentos geneticamente modificados.

Mirian elenca algumas das variedades que podem ser desenvolvidas com a modificação dos genes dos alimentos: controle de maturação, resistência ao solo como alumínio

(para plantar em regiões áridas), aumento do teor de proteína dos alimentos, injeção do antígeno de um vírus em uma fruta (um antígeno do sarampo na banana) e a própria redução da necessidade de defensivos agrícolas.

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