A política do amor
A política do amor
Texto: Fabiano Alcantara
Cia de Dramas e Folias inaugura oficialmente amanhã, com o monólogo "Nave", o Teatro de Caixa, espaço cultural alternativo no Centro de Bauru; eventos no local vão ter preços populares
Bauru já tem um teatro. Não é municipal, estadual, federal, nada disso, é um teatro alternativo, quase um teatro de garagem, pequeno, mas honesto, muito honesto. Trata-se do Teatro de Caixa, iniciativa da Cia de Dramas e Folias.
"É um espaço sem pirotecnia, para quem sabe perceber o teatro na simplicidade", afirma o ator e escritor Ezequiel Rosa.
Junto com ele estão Marisa de Oliveira, Marcos Nery e Elaine Massucci, um grupo que cansou da falta de condições para o "escoamento" dos seus, digamos assim, produtos culturais.
"Não vou fazer crítica, minha política
é o amor. Só queremos mostrar nosso trabalho, que já tem 13 anos, e poder sair de Bauru. Com o teatro, agora nós temos uma base operacional. Além de podermos ministrar oficinas e abrir para outros grupos de Bauru e região", afirma Ezequiel.
Amanhã e domingo, às 20h30 (R$ 3,00), o ator começa a segunda batalha, após uma luta para conseguir encontrar um espaço e adaptá-lo para o teatro. Ezequiel mostra o espetáculo solo "Nave", no qual apresenta uma visão lírica, onírica e esquizofrênica
(como toda boa arte) baseada nos navios negreiros.
No espetáculo, ele recita Clarice Lispector e Manoel Bandeira para fazer um paralelo entre a viagem dos navegantes escravos e a viagem do homem contemporâneo no planeta Terra. "Os versos que sintetizam o espetáculo são de Clarice: Vem por aqui/ Dizem-me alguns com os olhos doces/ Estendendo meus braços e seguros de que seria bom que os ouvissem quando dizem vem por aqui/ Eu olho-os com os olhos laços e há em meus olhos ironias e cansaços/ Eu cruzo os braços e nunca vou por aí", afirma.
Quem for conferir o espetáculo, e dar sua contribuição para o teatro alternativo, vai perceber porque Ezequiel trilha o caminho da independência. Com uma arte personalista e tratando sempre do amor, o ator e escritor vai construindo sua carreira aberto para influências que vão da comédia dell'arte ao butoh, passando pela folia de reis, a ópera bufa, e o teatro essencial de Denise Stockolos.
"Tudo que eu vejo e gosto eu como (no sentido antropofágico)", afirma. Quem pensa, no entanto, que o trabalho de Ezequiel é uma colcha de retalhos se engana. Intimista, apesar de preocupado com a resposta do público, sua arte se unifica na preocupação com a espiritualidade, herança do pai folião de reis. "Eu não consigo fazer teatro sem dosar o sagrado", afirma.
Tudo isso é muito sutil no seu trabalho, quem for ver "Nave" vai perceber. O teatro da Cia de Dramas e Folias é sobretudo divertimento. É assim, sensível, honesto, amoroso e divertido. Quem precisa de mais que isso?
Serviço
"Nave", espetáculo solo de Ezequiel Rosa, da Cia de Dramas e Folias, amanhã e domingo, às 20h30. Ingresso: R$ 3,00. O Teatro de Caixa fica na avenida Rodrigues Alves, 11-46 (entrada pela rua André Padilha, 1-39).