São Manuel vive dias de Juazeiro
São Manuel vive dias de Juazeiro
Texto: Marcos Zibordi
Lançamento do livro "Maria do Juazeiro" e exibição do filme "Milagre em Juazeiro" revivem fé na cidade
São Manuel - Neste fim de semana, a população teve contato com dois registros de, talvez, o milagre mais impressionante e mau contado da história religosa brasileira. Trata-se de Maria de Araújo, uma beata em cuja boca sagrou a hóstia dada pela padre Cícero Romão, em Juazeiro, Ceará, há mais de um século. O livro e o filme resgatam esses fatos e recolocam Maria do Juazeiro no seu devido lugar histórico e místico.
Quem conta a história em livro é outra Maria, natural de São Manuel, que fez o lançamento do seu "Maria do Juazeiro - A beata do milagre" sexta-feira, na Teatro Municipal.
Maria do Carmo Pagan Forti conta que na segunda metade do século XVIII Juazeiro era um vilarejo como qualquer outro do sertão cearense. A vida da cidade começaria mudar com a chegada de padre Cícero Romão Batista, em 1872. Nesta época, Maria de Araújo tinha por volta de nove anos de idade e vida consagrada à espiritualidade. Alguns fenômenos se manifestavam na beata, como o aparecimento das chagas da crucificação de Cristo em seu corpo, inclusive sangrando, desde 1885.
Mas é precisamente em 7 de julho de 1889, na madrugada em que se celebrava a festa do Preciosíssimo Sangue, que padre Cícero coloca a hóstia na boca da beata e ela sangra.
O milagre se difundiu rapidamente pela região, suscitando curiosidade dos devotos e a oposição da igreja. O sangramento se repetiria inúmeras vezes, inclusive na presença de padres e médicos designados pelo auto-clero para "investigarem" o caso.
Pior para Maria de Araújo e Padre Cícero. A igreja, justamente naquele período, tentava acabar com as manifestações populares da crença e pretendiam implantar um catolicismo romanizado, baseado nos sacramentos.
Mesmo assim, os romeiros só faziam aumentar em Juazeiro que, em uma década, quintuplicou a população, passando de dois para 15 mil habitantes. Todos os inquéritos feitos constataram que se tratava de um milagre, que a transformação da hóstia em sangue era real.
A publicação de um relatório médico atestando a ocorrência do fato, em 1891, foi uma bomba para a igreja, que fez pesar seu poder sobre o padre a a beata. Ela pobre, preta, mulher e costureira, foi mandada para Casa de Caridade de Crato e padre Cícero foi exortado pelo bispo D. Joaquim.
"Ele expede uma portaria dizendo que tudo que havia ocorrido em Juazeiro era mentira, embuste, que ninguém podia mais falar no assunto, sob pena de excomunhão", diz a autora. A máxima autoriade em Roma ratificou a posição do bispo, dizendo que "os fatos em Juazeiro são prodígios vãos".
Maria de Araújo fica presa, isolada e só um padre tem acesso a ela. Mesmo assim, a hóstia continuou sangrando. A superiora escrevia ao bispo pedindo instruções
"do que fazer com esta negra" em cuja boca sangrava a hóstia. Padre Cícero foi suspenso da ordem, porque continuava afirmando que se tratava do sangue de Jesus Cristo na boca da beata.
Anos mais tarde, por volta de 1901, ele envereda pela política, outra forma de estar ao lado do povo, como antes. "O pecado muito grande da igreja é que houve uma perseguição contra o povo. Ao confessar, se a pessoa dissesse que acreditava no milagre, não recebia a absolvição".
A crendice popular, manifestamente mais forte que as cânones administrativos e religiosos, dizia não acreditar no milagre para receber a absolvição (inclusive por aquele pecado que acabavam de cometer). Quem portasse uma famosa medalhina com a imagem do padre de um lado e da beata do outro, também era excomunhado. Batizados cujas crianças teriam o nome de Cícero, também foram proibidos.
Maria do Juazeiro ainda volta para a cidade, fica cuidando de crianças órfãs e é proibida pelo padre Cícero de sair de casa, assim como aos romeiros de verem-na.
"Ele tentava obedecer a igreja, mas não adiantava, porque os romeiros ficavam na porta".
Ela morreu em 1914, mas sua força era tão grande que os romeiros, ao chegarem em Juazeiro, visitavam primeiro seu túmulo.
A igreja ainda faria outras tentativas de destruir a história. Em 1930, na calada da noite, o vigário mandou tirar os restos mortais de Maria do Juazeiro da capela da igreja do Socorro
"porque devia continuar incomodando". Padre Cícero, ao saber da violação do túmulo, foi ao Cartório documentar o ocorrido.
A pressão era tamanha que a imagem da beata acabou sendo apagada. A popularidade de padre Cícero também ajudou desviar as atenções. "Tanto que todo mundo atribui o milagre a padre Cícero".
Exatamente cem anos após o primeiro sangramento da hóstia, em 1989, a Universidade Federal do Ceará montou um simpósio internacional sobre a beata. Foi a primeira vez que se falou publicamente de Maria do Juazeiro. "Não houve truque, absolutamente não houve. O bispo forjou os inquéritos, não aceitou o resultado. Se houve algum truque, foi no palácio Episcopal, em Fortaleza".
Resgatar a história da beata e a dignidade da crença popular e suas manifestações, da verdade contida na história não-oficial é o trabalho da pesquisadora. Juntando cartas, inquéritos e registros ainda guardados, o livro reinsere Maria do Juazeiro na história de um lugar, de um povo e de uma crença, que sobrevive sempre independente do aval oficial, contada de boca em boca, emocionando, ensinando e, princípio básico da religião, religando as pessoas.
Serviço
"Maria do Juazeiro - A Beata do Milagre", lançado pela Annablume editora, 138 páginas. Pedidos pelo telefone
(011) 212-6764 ou no endereço http://www.annablume.com.br
Livro traz xilogravuras de artistas cearenses
O toque especial da publicação são as xilogravuras de seis artistas da região do Juazeiro. A xilogravura é um processo de impressão que consiste em gravar na madeira, em auto-relevo, o original que será impresso. Faz parte dos primórdios processos de impressão, juntamente com a litografia (impressão em auto-relevo utilizando a pedra como matriz).
Dividido em duas partes, o primeiro capítulo reescreve a história do milagre da beata Maria do Araújo apresentando a "gênese, a dimensão e a abrangência do fato extraordinário, procurando mostrar sua importância na época". Vários personagens do livro também são apresentados neste capítulo.
"A beata Maria do Araújo" é revelada no segundo capítulo através de documentos e, especialmente, seus depoimentos no primeiro inquérito. Segundo a autora,
"vislumbra-se a pessoa da beata: seus sonhos, seus desejos, seus propósitos, o sentido de sua vida e que sentido o milagre tinha para ela, em especial".
O terceiro capítulo reconstitui a formação religiosa de Juazeiro, antes mesmo da chegada de padre Cícero. Trata também da "proposta pastoral da igreja na busca de uma reforma que a tornasse mais próxima da igreja de Roma, o que implicou numa purificação do catolicismo até então vivido pelo povo".
A parte II discute o conflito desvelado pelo milagre e as duas formas de viver a religião e que deflagaram a questão religiosa de Juazeiro. "No meio delas, as Igrejas, a mulher e o milagre".
Os capítulos cinco e seis Maria de Araújo é apresentada como mulher, preta, analfabeta e pobre deflagrando as crenças e valores do dois lados da questão religiosa.
"Ela agrega, no milagre, a igreja oficial e a igreja popular".
Em linguagem acessível, direta e reveladora, este livro
é indispensável para o entendimento da religiosidade em Juazeiro e, também, do Brasil que nem começamos conhecer.