13º salário: Consumidor paga dívidas e comércio deve ter saldo igual a 98
13º salário: Consumidor paga dívidas e comércio deve terminar com saldo igual a 98
Texto: Patrícia Zamboni
Diante da política econômica que vem sendo aplicada no Brasil há cinco anos, a maioria da população estará utilizando o 13º salário recebido este ano para um objetivo comum: pagar dívidas. Infelizmente, são poucas as pessoas ou famílias que vão conseguir reservar uma parte desse dinheiro para fazer uma viagem e comemorar a virada de mais um ano - sempre com a esperança de que seja melhor que o anterior. A afirmação é do economista Carlos Sette. Segundo ele, pelo terceiro ano consecutivo o perfil da utilização do 13º salário será o mesmo. "As pessoas ainda vão usar esse dinheiro para pagar dívidas, e muita gente vai aproveitar para tirar seu nome do SPC. Existem muitas pessoas enroladas com prestações de todo tipo, tanto de compras feitas no comércio como prestações atrasadas de casas na Caixa Econômica e na Cohab, como também cheques pré-datados que muita gente dá contando com o décimo terceiro. Então, eu penso que uma parte considerável do décimo terceiro ainda vai ser utilizada para pagamento de dívidas. Na prática, isso está acontecendo demais", observa Sette.
Outra constatação feita pelo economista é que uma parcela da população vai utilizar parte desse dinheiro para fazer compras, já que é muito forte na cultura brasileira o costume de presentear no Natal. Mas mesmo assim, a previsão é de que isso vai acontecer já bem próximo do Natal, porque para essas compras as pessoas vão utilizar a segunda parcela do 13º salário. Mas esse perfil pode ser flexionado de acordo com o estilo de vida de cada um ou de cada família, segundo Carlos Sette.
"Uma família que organiza seu orçamento, já vai utilizar a primeira parcela do décimo terceiro. Por exemplo, se a pessoa quer trocar a geladeira, a televisão ou o fogão que tem em casa, já começa a pesquisar. Isso porque o consumidor entende que comprrando antes do Natal faz melhor negócio do que comprando perto dessa data. E isso é verdade; na prática é isso que acontece mesmo", analisa Sette.
Mas segundo o economista, são poucas as pessoas e famílias que investem nessa organização do orçamento. Por isso, a previsão dos especialistas é de que o consumo maior ocorra após o recebimento da segunda parcela do 13º. Ou seja, poucos dias antes do Natal. "Nessa
época o consumo é forte, como tem acontecido nos anos anteriores", diz Sette.
Presentes baratos e compras à vista
Uma terceira previsão do economista é que, por mais um ano, os presentes procurados serão os mais baratos. Carlos Sette cita uma pesquisa feita pela Associação Comercial de São Paulo que diz que produtos de até R$ 30,00 terão giro muito rápido. "Isso não quer dizer que as pessoas não farão compras maiores, mas o grande volume do movimento do comércio vai ser em torno disso, porque ninguém compra um presente só. Uma pessoa que tem três filhos, por exemplo, já tem que comprar no mínimo três presentes. Então, ela vai escolher presentes mais baratos", observa Sette. As comemorações familiares e festas de amigo secreto, comuns nessa época do ano, também terão presentes nessa faixa de preço.
Outra situação prevista pelo economista Carlos Sette
é que as pessoas que tiverem um orçamento mais estabilizado vão reservar uma verba para fazer uma viagem, mesmo que seja de poucos dias. Isso deve acontecer principalmente entre a classe média, mas segundo Sette, esses passeios ocorrerão em menor escala em relação aos anos anteriores.
Uma quarta opção para a utilização do 13º salário, segundo Carlos Sette, é relacionada
às pessoas que temem perder o emprego. "Muita gente que está sentindo que pode perder o emprego ou que não sabem como vai ser o começo do ano que vem, vai guardar uma parte do décimo terceiro prevendo situações difíceis. Se a pessoa sente que vai ter corte de funcionários na sua empresa, não vai gastar por medo de ficar sem dinheiro", afirma Carlos Sette.
Mas essa realidade não atinge somente o consumidor final. Obviamente as empresas sentem o reflexo da política econômica e também enfrentam tempos difíceis, e o consultor empresarial Carlos Sette vive essa realidade. "Numa análise geral em relação ao mercado pode-se constatar que as empresas estão sem recursos para pagar o décimo terceiro, porque foi um ano muito difícil. Quem não se preparou, não está com saldo de caixa. Então, muitas empresas devem ir a bancos emprestar dinheiro para poder pagar o décimo terceiro dos funcionários. Além disso, muitas empresas vão deixar para pagar de uma vez só, e não dividir o pagamento em duas parcelas. Isso acontece justamente por essa falta de recursos", analisa Sette. Segundo ele, o ano passado essa opção foi utilizada em grande escala pelo setor empresarial.
Uma outra análise prévia feita pelo consultor de empresas e economista Carlos Sette é em relação
à modalidade de pagamento de contas no comércio. Diante de toda essa situação, que leva grande parcela dos consumidores a usar o 13º para quitar dívidas, pode ocorrer um aumento no volume de vendas à vista neste final de ano. "Muita gente não quer mais fazer prestação, porque já enfrentou problemas de não conseguir pagar e teve seu nome incluído no SPC, por exemplo. Vai haver um número considerável de cheques pré-datados no comércio, mas acho que vai ter muita venda à vista, principalmente nos valores baixos. Nas compras maiores, muitas pessoas acabam preferindo os descontos e facilidades que são oferecidas na compra à vista", diz Carlos Sette. "O comportamento das pessoas vai mudando porque elas têm que se adptar à realidade".
Pagar dívidas
O real e a atual política econômica do governo não têm sido bons aliados da população brasileira. Basta perguntar a um grupo de pessoas o que pretendem fazer com o 13º salário este ano para confirmar as previsões de Carlos Sette: pagar dívidas. Lígia Fernandez Zammataro, 39 anos, pretende fazer exatamente isso. "Não tenho muitas coisas pendentes para pagar, mas boa parte do décimo terceiro vai ser usada pra acertar contas. Se sobrar alguma coisa, eu e meu marido pretendemos viajar com as crianças, porque todos nós estaremos de férias", planeja Lígia. Para ela, esse ano foi bem mais difícil que 98. "Essa política econômica está prejudicando muito. Dizer que não existe inflação, isso é uma grande balela", diz Lígia.
Márcia de Campos, 44 anos, também vai utilizar o 13º para quitar dívidas. "Espero saldar minhas dívidas, sair do vermelho no banco e não vai sobrar dinheiro pra comprar presente pra ninguém. No ano passado as coisas já foram difíceis, mas esse ano foi pior ainda", lamenta Márcia.
Margareth Sonderman, 38 anos, também pretende pagar todas as suas dívidas e melhorar a situação da sua conta bancária. "Meu décimo terceiro vai ser pra isso, infelizmente. Não vai sobrar dinheiro pra fazer nem uma viagem com minhas filhas", diz Margareth.
A situação da família de Bianca Moreli M. Sanas, 31 anos, está melhor que no ano passado graças ao pagamento de férias vencidas do marido e à serviços adicionais que os dois fizeram nesse final de ano. "Meu marido fez alguns trabalhos por conta própria para engrossar o orçamento e eu também. Por causa disso, conseguimos guardar um dinheirinho para viajar um pouco com os nossos filhos. O ano passado não sobrou nada", afirma Bianca.
Comércio: final de ano igual a 98
Na visão de Cássio Carvalho, presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru (Aciba), até agora o movimento no comércio não é satisfatório, mas ele acredita na melhora da situação a partir do momento que as pessoas começarem a receber o 13º salário.
"A demanda ainda está um pouco reprimida, mas com o décimo terceiro acredito que as pessoas vão começar a comprar, porque tem muita gente que está só esperando receber esse dinheiro para poder fazer as compras de final de ano", observa Cássio Carvalho. Otimista, ele acredita que o comércio de Bauru terá um Natal um pouco melhor que o do ano passado. "Esse mês já mostra uma pequena reação e eu acredito que no mês que vem a demanda vai ser grande, melhor que a do ano passado. Depois do pagamento da primeira parcela do décimo terceiro há uma grande injeção de dinheiro no mercado", afirma Cássio Carvalho.
Na opinião de Walace Sampaio, presidente do Sindicato do Comério Varejista (SinComércio) de Bauru, este ano existem duas condições favoráveis em relação a 1998. "A primeira é a queda das taxas de juros, que não é a ideal que a gente pretende mas já houve uma redução sensível. A segunda é o nível de endividamento e inadimplência dos consumidores, que têm características muito melhores este ano do que nos anos anteriores. Isso porque já houve uma adequação dos consumidores à nova realidade, portanto pode-se prever um aumento de compras à prazo. Muitas pessoas que estavam inadimplentes se compuseram nesse período, então, o universo de consuidores à prazo esse ano deve ser superior ao ano passado", observa Sampaio. Para ele, a performance das compras à vista dependerão da negociação dos juros. Nos casos em que houver parcelamentos sem juros, o consumidor vai preferir o pagamento à curto prazo, segundo o presidente do SinComércio.
Por enquanto, nessa época (novembro) a situação o ano passado estava melhor do que este ano, mas Walace acredita que esse quadro será revertido e que o saldo final de 99 será igual ao de 98. "O faturamento real do comércio este ano, até o mês de setembro, está na faixa de quatro por cento menor que no ano passado. Em função de uma conjuntura mais favorável destes elementos que eu citei e de um certo otimismo que se respira nas projeções da economia para o ano 2000, a expectativa é que a gente consiga reverter esse quadro e ter um final de ano igual ao do ano passado, o que já será altamente favorável", afirma Walace Sampaio.
Segundo Sampaio, de acordo com pesquisas, o histórico de faturamento nos diversos setores da economia é o seguinte: setor de utilidades domésticas dobra as vendas em dezembro; os setores de calçados, vestuário, cinefoto e som têm um acréscimo de 80% nas vendas; supermercados vendem 30% a mais; e comércio em geral alcança uma média de 35% de aumento nas vendas. (Todos esses números são referentes ao mês de dezembro). Segundo Walace Sampaio, esse quadro deve se repetir esse ano.