Para especialistas, entidades terão que se profissionalizar
Para especialistas, entidades terão que se profissionalizar
Texto: Ieda Rodrigues
As entidades, o chamado terceiro setor, para sobreviverem, terão que obter renda através de produtos e serviços oferecidos
à comunidade. Em outras palavras, significa que a entidade terá que trabalhar como empresa para manter o atendimento social, já que a tendência é de aumento no número de pessoas assistidas e manutenção ou até redução das verbas governamentais.
A análise é de Renata Machado Gomide, assessora técnica da Agência de Desenvolvimento Social, e de Marcos Antonio Gonçalves, presidente da Associação para a Valorização e Promoção dos Excepcionais (Avape). Na semana passada, através da Secretaria de Desenvolvimento Social do Estado, eles ministraram curso para 63 pessoas representantes de entidades das regiões de Bauru, Marília e Presidente Prudente sobre como captar recursos por conta própria.
A Agência de Desenvolvimento Social, ligada à Secretaria de Assistência Social do Estado, foi criada recentemente. De acordo com Renata, o objetivo é promover as entidades sociais mediante créditos para financiamento de geração de renda que visem a auto-sustentação das entidades assistenciais.
Renata disse que a medida está sendo tomada porque o Estado tem consciência de que os recursos são cada vez mais escassos e entende que as entidades têm que se profissionalizar e ser mais eficientes naquilo que fazem. Ou seja, as entidades terão que se tornar empresas sociais e o mais importante, ser auto-sustentáveis.
No entanto, as entidades ainda estão muito distante desta condição. Conforme Renata, as entidades ainda são muito dependentes do Estado e do Município. "Mas terão que se profissionalizar. É um caminho sem volta, um processo irreversível porque a tendência é os recursos tornarem-se mais escassos devido a um aumento na demanda de atendidos", ressaltou.
A proposta defendida pela Agência de Desenvolvimento Social e Avape, é que, além de gerar renda para manter os seus assistidos, as entidades também criem frentes de trabalho. Marcos Gonçalves, presidente da Avape, disse que a entidade, que atende sete mil portadores de deficiência por ano e tem dois mil funcionários, é totalmente auto-sustentável.
A Avape, com sede em São Paulo e unidades em outras cidades, segundo Gonçalves, é a primeira entidade do mundo a conquistar o ISO 9.002, certificado normalmente concedido a empresas. Na unidade rural de Taubaté, por exemplo, a entidade atende a 32 portadores de deficiência que trabalham com agricultura orgânica, cultivo de plantas ornamentais, produção de húmus e criação de pequenos animais.
Os 110 portadores de deficiência atendidos na unidade de Riacho Grande, em programas de reabilitação profissional, atuam em oficinas de marcenaria, confecção de rodos e vassouras, jardinagem, artesanato, entre outros. Figuram entre os clientes da Avape empresas e instituições de grande porte como a Caixa Econômica Federal, Petrobrás, Volskwagem, Secretaria de Saúde de São Bernardo do Campo e comunidades.
Nos três dias do curso, o presidente da Avape falou da necessidade de uma nova visão na administração das entidades sociais: as entidades têm que produzir bens e serviços para competir no mercado e para gerar emprego e renda para os seus assistidos. "O terceiro setor no Brasil está crescendo muito e a tendência é que seja o futuro do mundo", ressaltou.
Gonçalves explicou que o primeiro setor, "o governo, está enfrentando crise financeira e até moral. O segundo setor, as empresas, também estão enfrentando problemas nunca vistos em função da globalização. Então, as entidades também terão que se profissionalizar
", ressaltou. Ele já vislumbra um futuro em que as entidades manterão padarias, lojas, restaurantes, fábricas entre outros bens e serviços.