Aqui está meu santo reis

Que veio lhe visitá

Aqui está meu santo reis

Que veio lhe visitá, ai..."

(Versos entoados durante a Folia de Reis, de domínio popular)

A tradição cultural perpetuada pela oralidade tem suas peculiaridades. Uma delas é a forte ligação emocional, talvez até afetiva, das pessoas que se envolvem com ela.

Nos festejos da Folia de Reis, realizados ontem em Bauru, numa casa do Núcleo Bauru 16, cerca de 15 pessoas promoveram um espetáculo que poucos já viram (quem viu, esqueceu) ou tiveram a oportunidade de acompanhar um dia.

Singelo, porém muito sincero. Tão sincero que é capaz de transformar uma simples varanda num misto de palco e altar, lugar onde a fé e a tradição popular pagã, por algumas horas, ficam de mãos dadas.

Chegando da rua, os foliões carregam a bandeira com a representação dos três Reis Magos, acompanhados pelos fogos. Os estouros parecem ajudar marcar o ritmo junto com a caixa e o pandeiro, para que as cantigas costuradas com violas, violão e cavaquinho ganhem força e falem alto, para quem quiser ouvir.

O palhaço-guardião chega de joelhos, simbolizando o sacrifício da jornada dos foliões. São muito bem recebidos. A música não pára, funciona como um aviso de chegada, sinal de boas-vindas, "Ô de fora, é santo reis, ai, ele veio visitá, para festejá seus dia, ai...".

Para os anfitriões, é uma bênção:

"Minha casa está benzida para o ano inteiro", dizia Seu Antônio Corrêa, enquanto, canhoto, afinava a viola, de ouvido.

Que alegria é a folia: "Enquanto estiver viva, vou festejar", falava Dona Ana, "lembra a minha infância". Na verdade, uma vida inteira de 79 anos.

A beleza da arte popular está aí, na simplicidade, nas cores, na musicalidade natural, na alegria de ver a realização de sua vontade, de sua fé. São coisas que não se ensinam nas escolas, muito menos na televisão, e que também não são preservadas no papel, que dirá na virtualidade dos computadores...

A esperança fica com os pequenos, que fazem parte da festa e não desgrudam os olhos (nem os ouvidos) um minuto sequer, talvez - quem sabe -, pesando como ele faria se fosse gente grande. Tomara que faça um dia!

Talvez um dia, eles também saiam do anonimato, como já aconteceu com muitas manifestações tradicionais, muitas vezes, por meio de algum oportunista qualquer. Mas aí, já não será a mesma coisa. Cultura popular existe até que alguém a transforme, mudando seu sentido para adaptá-la ao mundo: "o espetáculo seria muito maior!" (?). E, acreditem, não é isso que eles querem. Deus sabe disso.

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