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Câmbio flutuante

Márcia Buzalaf
| Tempo de leitura: 5 min

Câmbio liberado agrada comércio e indústria

Texto: Márcia Buzalaf

Há um ano atrás, o Governo Federal tomou uma medida que alterou o rumo da economia brasileira. Em 13 de janeiro de 99, foi anunciada a liberação do câmbio, que provocou várias ondas pessimistas, mas que, um ano depois, tem avaliação positiva dos economistas e dos setores da indústria e do comércio de Bauru e região.

Tanto o presidente do Sindicato do Comércio Varejista (SinComércio), Walace Sampaio, quanto o diretor adjunto da regional do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), Sérgio Togashi, vêem a mudança na política cambial com otimismo, principalmente para os frutos que deve colher ainda este ano.

Em 99, entretanto, os dois setores da economia tiveram que se adaptar. A indústria buscou a substituição da matéria-prima importada pela nacional; o comércio também teve que optar pelos produtos aqui produzidos, mais baratos para o comprador.

O economista e professor-chefe do Departamento de Ciências Econômicas da Instituição Toledo de Ensino

(ITE), Wagner Aparecido Ismanhoto, explica que a política econômica adotada neste último ano pode ser chamada de câmbio livre tutelado.

Isso significa que o governo estabeleceu uma faixa, chamada de banda cambial, em que a cotação da moeda pode flutuar. Quando o real sai desta banda, o governo interfere. O câmbio livre é considerado um sistema moderno de política econômica em todo o mundo. Mesmo assim, na opinião do economista, a cotação do dólar no Brasil ainda está defasado e deve ser corrigido mais.

O consumidor, que fica no final da cadeia produtiva, é quem mais influenciou a produção e o comércio, na opinião dos dois líderes de classe.

Ismanhoto lembra que os mesmos consumidores de todo o Brasil foram prejudicados por terem dívidas em dólar. Foi o caso dos que tinham contratos de leasing atrelados na moeda americana e das contas de cartão de crédito internacional.

Vender

O câmbio foi liberado justamente em um dos piores períodos de venda no comércio, o mês de janeiro. Mesmo assim, a avaliação do representante do comércio varejista é que a medida foi, sim, importante para a economia como um todo.

Walace Sampaio diz que a tendência pessimista prevista logo depois da liberação do câmbio - que estimava que a cotação do dólar atingiria R$ 3,00

- já está ultrapassada, e dá espaço para o otimismo de 2000.

O ano foi de ajuste, para Sampaio, e quem mais se prejudicou neste acerto foi justamente quem vinha investindo na venda de produtos importados. "Mesmo as lojas de R$ 1,99, que trabalhavam muito com artigos importados, estão recorrendo mais aos nacionais", exemplifica.

Sampaio destaca o importante papel que o varejo desempenhou para

"segurar" os preços. A maior confirmação disso é que o preço do atacado ficou muito acima do preço do varejo durante todo o ano. "O preço do atacado é feito por tabela cheia, enquanto que o varejo negociou o preço, e fez com que o índice fosse menor do que o do atacado", explica Sampaio.

A negociação, termo que começou a ser mais usado com o Real e ganhou força com a liberação do câmbio, também é uma marca forte deste aniversário de um ano. Segundo Sampaio, este tipo de negociação com o fornecedor é sadia e tende a ser cada vez mais usada pelo comércio em geral.

Por conta desta negociação e da manutenção relativa dos preços ao consumidor, a inflação do setor privado ficou bem aquém do que a do setor público. Na opinião de Sampaio, se não fossem os reajustes nas tarifas públicas - pedágios, telefonia e energia elétrica, principalmente - e nos combustíveis, a inflação de 99 seria muito menor. "Se o governo conseguir administrar estes preços públicos, nós vamos ter uma queda maior da inflação", opina Sampaio.

A recuperação dos investimentos no comércio devem chegar a medida em que as vendas evoluírem e os juros baixarem. Mesmo assim, na avaliação de Sampaio, a margem de lucro no comércio deve se manter estável por mais tempo, já que a pressão ainda é grande sobre os preços. O aquecimento de vendas está sendo esperado pelo comércio no segundo semestre deste ano.

Sampaio diz que o nível de emprego no comércio em Bauru e região manteve-se estável simplesmente porque já está em um patamar bastante baixo. O modelo adotado no sindicato patronal da cidade, juntamente com o representante dos comerciários, de rebaixamento do salário de algumas categorias para incentivar a contratação, partiu de Bauru.

Nesta mesma convenção, também foram criadas outras categorias de trabalhadores destinadas apenas para as micro e pequenas empresas de comércio. "É o caso da auxiliar de vendas, com um piso menor, para empresas de até quatro funcionários", cita Sampaio.

Exportar

A indústria saiu lucrando com a liberação do câmbio. Certo ou errado? Na teoria, o incentivo às exportações tende a ser o maior benefício da desvalorização cambial. Na prática, de acordo com Sérgio Togashi, do Ciesp, as exportações tiveram crescimento apenas no segundo semestre do ano passado

- mas ainda aquém do esperado.

Nos primeiros seis meses do ano passado, as altas taxas de juros impossibilitaram que a indústria investisse para crescer. Mais enxuta, com um quadro de funcionários 3,5% menor em Bauru, as indústrias concentraram todo o investimento feito apenas para manter o mercado que já tinham.

O preço de venda dos produtos da indústria se manteve no mesmo patamar dos anos anteriores. Togashi diz que a indústria teve que vender mais para poder compensar o aumento do custo fixo e variável.

Na balança comercial, a reação da liberação do câmbio também foi positiva. Sendo Bauru uma região que mais exporta do que importa produtos, ficou mais fácil substituir a matéria-prima importada usada na indústria pela nacional.

No Estado de São Paulo, as áreas da indústria que mais foram beneficiados com a liberação do câmbio foram a alimentícia em primeiro lugar, seguida pela têxtil, depois pelo setor de papel e, por fim, o mobiliário, que incluiu o calçadista. Em Bauru e região, a tendência se confirma. Segundo Togashi, quem realmente cresceu foi o setor alimentício, principalmente na exportação de carnes, e a produção de calçados.

Togashi diz que, diferentemente dos anos anteriores, a regional do Ciesp em Bauru teve uma exportação negativa em relação a 98.

Para 2000, espera-se uma reação logo no primeiro semestre. Tudo, é claro, se o governo fizer a "lição de casa": discutir e aprovar a reforma tributária, e facilitar o acesso ao crédito para as indústrias que efetivamente movimentam a produção brasileira.

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