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B. Requena
| Tempo de leitura: 4 min

Polícia procura seio que abunda no Rio

B. Requena é editor de Internacional do Jornal da Cidade

Os seios são, ao mesmo tempo, eróticos e sagrados. A Medicina já descobriu que, aos 80 anos de idade, o indivíduo ainda desfruta da imunidade a muitas doenças adquirida naqueles meses em que suga o leite materno. Quem teve ou tem o privilégio de receber da mãe esse primeiro alimento, ao contrário dos que, por um motivo ou outro são obrigados a consumir leite de outro mamífero ou industrializado, já salta para a vida com essa vantagem.

Lembro de um comentário do ex-ministro do Trabalho Murilo Macedo, em São Paulo, na década de 80. Quando, à semelhança do slogan daquele cigarro, os seios de Fafá de Belém tinham "a preferência nacional". Ocorre que, de uma hora para outra, Fafá foi mãe e apareceu em foto amamentando seu pimpolho na capa de uma conhecida revista brasileira. Enquanto nossa equipe de TV conectava os cabos, Murilo comentava, com a revista na mão, apontando para os fartos dotes de Fafá: "De uma hora para outra, deixou de ser erótico para ser sagrado".

Este fato me veio à memória no domingo à noite, quando, completamente estarrecido, vi pela TV a ação do Batalhão Anti-Seios da Polícia do Rio de Janeiro nas praias lotadas, a quase 40 graus deste delicioso verão. Eu estava trabalhando na redação, portanto, não pude acompanhar nos mínimos detalhes. Mas imagino que o comando das tropas anti-seios, que estavam armadas de fuzis, metralhadoras, granadas, cães farejadores de bronzeador etc. deve ter dito para aquela linda mulher que adquiria uma cor na areia: "Dona, a senhora não vê que com os peitos aí à mostra está assustando aqueles rapazes ali. À noite, eles têm que fazer vários assaltos e hoje não irão acertar um só tiro em ninguém! A senhora não tem consciência, mesmo. Veja aquele senhor ali, traficante aposentado. Vem curtir a praia num domingo à tarde e se defronta com um absurdo desses! E aquele outro ali, sim, o grisalho, com o correntão de ouro no pescoço. Tem um alto cargo político em Brasília. Ele já mama nas tetas do governo a semana inteira! Agora vem aqui, no domingo, para descansar, e vê uma coisa dessas! Para ele pode ser uma overdose! Vamos pedir a um deputado amigo nosso que proponha, na Câmara, um projeto que aumente a pena para seios à mostra. E ao governador que crie mais Batalhões Anti-Seios. É disto que o Rio está precisando! Não agüentamos mais a impunidade!"

Minha imaginação sobre o que teria ordenado o comando cessa e passo a lembrar de outras coisas. Por exemplo, que víamos, nas décadas de 60, 70, as garotas de "topless" na praia de Copacabana e nas reservadas paradisíacas de Cabo Frio, Angra dos Reis e outras e ficávamos prevendo:

"No ano 2000 já estarão todas de bottom-less". Qual nada! O Rio de Janeiro, caro Gil, nem de longe continua lindo! O que teria acontecido com aquele povo? Ali tudo foi sempre maravilha, notadamente seios e bundas. É incrível, porém verdadeiro: até nas esculturas da natureza! O Cristo Redentor está de frente para o Pão de Açúcar. Mas cá entre nós, aquilo não é mais um Seio de Açúcar?

Faltou à moça presa em flagrante na areia a proteção da deusa índia Guanabara, sempre representada, inclusive no bronze, com os mais lindos seios já vistos. Aliás, o Regimento Anti-Seios deveria saber que naquele local já havia seios à mostra milhares de anos atrás. O Batalhão também se esqueceu que ao não respeitar a imagem da mulher carioca, que simplesmente mostrava sua escultura natural, um logo do Brasil no mundo inteiro, ofendeu também todas as garotas de Ipanema e isto certamente não está passando despercebido. Poderá inspirar poesias enérgicas lá em cima.

Decidi escrever estas linhas porque fui tomado de muito dó das alminhas certamente inconformadas de Vinícius de Moraes, Tom Jobim, entre muitos outros. Fico a imaginar, lá no barzinho do Céu, Pixinguinha reunido com Cartola e Jacó do Bandolim, naquela mesa. Na outra, Vinícius, Tom, Emílio de Menezes, Stanislaw Ponte Preta e outros. Carrancudo e muito irado com o que está ocorrendo, Nelson Rodrigues chega chupando forte um cigarro. Com um jornal na outra mão, o autor de "Toda nudez será castigada" (incompreendido no caso de domingo passado, no Rio) dirige-se à mesa onde está Menezes e pergunta: "Emílio, você sabe quais são os motivos de tanto bafafá, nas praias do Rio?"

-Sei-os.

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