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Estelionato

Adriana Rota
| Tempo de leitura: 3 min

Corrente que promete dinheiro fácil é crime

Texto: Adriana Rota

Investir R$ 18,00 e obter um retorno de, pelo menos, R$ 500 mil num prazo de três meses. A proposta parece tentadora, mas pode render ao "aventureiro" uma pena que varia de um a cinco anos de reclusão. O "programa", vendido como a solução para todos os problemas financeiros,

é o mesmo que anos atrás foi denominado de "pirâmide" ou "corrente da felicidade". Ele consiste numa rede de comunicação via correio ou verbal na qual cada novo membro entrega R$ 3,00 para outros seis. Sucessivamente, todos usufruiriam do lucro.

O JC teve acesso a uma carta do esquema, enviada por uma pessoa de Avaré (SP) a um morador de Bauru. No envelope, consta apenas a caixa postal do remetente, sua cidade e o CEP. Em seu interior ele se identifica, contando sua história de desastres financeiros e colocando o recebimento da proposta, em 1997, como uma "graça de Deus". Aliás, o remetente utiliza-se várias vezes do expediente da cristandade para arrebanhar adeptos, citando até trechos bíblicos. Não há como saber, no entanto, se a história

é verdadeira ou padronizada.

A carta é um verdadeiro manual de instruções, que explica desde a maneira certa de acondicionamento do dinheiro no envelope, de modo a não levantar suspeitas, até como fazer para obter os 250 nomes e endereços das próximas vítimas.

Ensina a envelopar as cartas, para conferir "maior credibilidade ao negócio", mas não se identificar, porque

"desperta a curiosidade de quem recebe". A correspondência garante tratar-se de "um serviço 100% legal, de acordo com a legislação do correio, que diz que todo dinheiro recebido deve ser trocado por um serviço ou produto. Este

é o serviço".

DIG

Na opinião do titular da Delegacia de Investigações Gerais/Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos (DIG/Garra), J.J. Cardia, no entanto, não há nada de lícito neste procedimento. "É uma modalidade de estelionato. O envolvido corre o risco de perder dinheiro e ainda ter de responder

à Justiça pelo crime. Não tenho nenhum BO recente em Bauru, mas recebemos telefonemas de pessoas com dúvidas sobre sua legalidade. Isso ocorreu especialmente há cerca de um ano e meio, quando houve um 'derrame' de pirâmides na cidade".

A dificuldade em solucionar crimes deste tipo está em localizar a ponta da corrente, já que as vítimas (fatalmente, também criminosas), preferem perder dinheiro e calar-se para não serem enquadradas pelo crime. Cardia alerta, no entanto, que os destinatários devem se desfazer das cartas tão logo a recebam, quebrando a corrente. "Só os primeiros ganham dinheiro com isto. Obter vantagem com o prejuízo alheio é ilegal. Na ânsia de resolver seus próprios problemas, obtendo dinheiro fácil, estas pessoas envolvem outras despertando a cobiça".

Correio pode acionar a Justiça

Por mais sigiloso que possa parecer o esquema, é possível detectá-lo sem grandes problemas. De acordo com o assessor de comunicação da Diretoria Regional de São Paulo - Interior dos Correios, Moacir Dovalli Junior, isto já ocorreu em outros Estados brasileiros. "Nós podemos acionar a Justiça caso haja suspeitas de ato irregular. A própria legislação postal exige que o serviço esteja dentro da legalidade", afirmou.

Vítimas

A reportagem contatou três vítimas do golpe, que preferiram não ser identificadas. Uma delas chegou a iludir-se com a promessa de dinheiro fácil, mas desistiu a tempo de evitar prejuízos maiores (inclusive na esfera criminal).

"Um amigo ofereceu. Entrei sem pensar, porque é tentador. Não lembro exatamente quanto perdi, foi pouco, mas recomendo que ninguém entre nessa porque é 'fria'", alertou.

O segundo também tomou conhecimento através de um conhecido, "aparentemente idôneo e crente de que poderia dar certo". Ele afirmou nunca mais ter tido notícia da corrente formada em seu bairro, Mary Dota, mas salientou que o programa apresentava até uma "certa lógica", quando colocado na "ponta do lápis".

A outra pessoa optou por ignorar a correspondência, simplesmente cortando o ciclo, o que certamente trará prejuízo para os mais desavisados, mas evitará novas vítimas.

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