Literatura em debate
Texto: Ricardo Polettini
Escritor Paulo Condini e artista plástico Carlos Jacchieri comandam um debate hoje à noite, na Oficina Cultural "Glauco Pinto de Moraes", tendo como tema a literatura
Dando continuidade ao ciclo "A Cultura Preside a Mesa", iniciado este mês, na Oficina Cultural "Glauco Pinto de Moraes", será realizado hoje um debate sobre o tema literatura. Quem comanda o bate-papo são o escritor Paulo Condini e o artista plástico Carlos Jacchieri, que promoveram duas oficinas esta semana no local.
O objetivo é levantar as necessidades para as grandes áreas das artes em Bauru e apontar, junto aos participantes, possíveis soluções para que a produção da cidade cresça e ganhe força como produto cultural. Os próximos debates serão sobre música (dia 26), fotografia
(4 de fevereiro), artes plásticas (25 de fevereiro) e teatro
(26 de fevereiro), sempre às 20 horas.
Condini
O escritor Paulo Condini, 62 anos, é coordenador da Casa Mário de Andrade, em São Paulo e, em Bauru, promoveu a oficina "Reescriturando". Baseado em textos apresentados pelos participantes, ele mostrou, por meio de análises, alternativas para tornar os trabalhos mais adequados para seus fins e intenções iniciais de seus criadores.
No debate de hoje, ele vai estar compartilhando com o público um pouco de sua experiência na literatura, tanto como escritor como editor.
Condini está no meio editorial desde 1969. "Foi uma estratégia para abrir espaço para meu texto", lembra. Ele trabalhou por 30 anos editando livros. Só na Melhoramentos, esteve envolvido exclusivamente com literatura por quase 20 anos, conseguindo vários prêmios importantes para as obras publicadas pela editora.
Apaixonado pelas letras desde criança, começou a escrever já aos 12 anos. Mas foi apenas em 89, quando o setor de ficção e não-ficção para adultos da Melhoramentos foi fechado, que ele passou a se dedicar em tempo integral como escritor.
Porém, mesmo antes disso, seus livros conseguiram destaque. Em 84, o romance "Filhos do Rio", sobre uma Amazônia do século 26, ganhou o Prêmio Ficção da Associação Paulista dos Críticos de Arte
(APCA), dividindo-o com "Ana em Veneza", de Dalto Trevisan.
"Minha contribuição será essa, minha posição sobre o que é escrever. Vivencio o mercado editorial há muitos anos e partilhar isso é pelo menos um depoimento capaz de acrescer algumas informações ao público", disse.
Sobre a atual situação da literatura perante os outros meios, como a televisão e a Internet, Condini é otimista. "Todos esses meios são maravilhosos e abrem boas perspectivas, mas é preciso que a literatura vista seu uniforme e saia em campo. Eu busco em meus livros encontrar um tipo de texto que seja capaz de ser lido por alguém que freqüenta todos esses outros códigos sem se chatear", define.
Jacchieri
O artista plástico Carlos Jacchieri, 78 anos, faz parte de uma geração que entendeu a produção da arte não como um meio de consumo, mas como base para fazer cultura. "Foi uma opção da minha geração, formada por pessoas que estavam advertidas para lutar contra a adequação mercenária da produção da cultura, ainda estávamos ligados à tradição da Semana (de Arte Moderna) de 22", explica.
Jacchieri é considerado um dos fundadores do Teatro Brasileiro de Comédia e trabalhou nos estúdios de cinema da Vera Cruz e Maristela. Também foi um dos primeiros contratados por Assis Chateaubriand para a implantação da extinta TV Tupi, em São Paulo, onde trabalhou na organização dos estúdios e cenografia.
Militante político atuante da esquerda, também atuou como professor universitário e atualmente desenvolve o trabalho "A Infância da Arte", uma forma de recuperação das artes plásticas a partir da origem da arte pelo desenho da criança. "É uma comprovação desse processo da manifestação humana que hoje fundamenta a ciência da educação. A arte tem essa função também, não apenas de fazer objetos ornamentais para enfeitar parede de novo rico", argumenta.
Na oficina que ministrou esta semana, ele discutiu a ensaística, que segundo ele, "é o próprio movimento da dinâmica social, o caldo de cultura do nosso tempo histórico".
Para ele, a sociedade de mercado acabou com os tratados doutorais, e a única forma de promover mudanças significativas na sociedade é com a ensaística. "O ensaio trabalha sobre uma hipótese necessária para desenvolver um conhecimento. Depois que a hipótese provou que o que se previa era possível, aí se faz um tratado. Nós todos, como profissionais de qualquer área, temos que ser ensaístas para promover as mudanças necessárias
à sociedade, é uma nova possibilidade de existência humana", defende.
Jacchieri é enfático ao tratar dos meios de comunicação de massa e sua vocação para o mercado. "A Internet substitui definitivamente as páginas amarelas, os catálogos de produtos das lojas de departamento. A função da comunicação de hoje é mercantilista. Enquanto você tem a Internet vendendo produtos mundialmente, você tem a humanidade se matando pelas coisas mais bárbaras, racismo, fanatismo religioso, defesa de território, comida".
Esse, com certeza, será um bom tema para começar a esquentar o debate de hoje à noite. A Delegacia Regional de Cultura, responsável pela organização dos debates que vão acontecer na Oficina Cultural este mês, está promovendo com o Ciclo uma das raras oportunidades para que a classe artística de Bauru discuta a arte feita na cidade e defina o rumo de sua produção cultural para o futuro. Imperdível.
Serviço
Ciclo "A Cultura Preside a Mesa", hoje, com Paulo Condini e Carlos Jacchieri, sobre o tema literatura. A partir das 20 horas, na Oficina Cultural "Glauco Pinto de Moraes". Grátis. Realização: Delegacia Regional de Cultura. Rua Amazonas, 1-41. Informações: 231-1100.