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Férias

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 7 min

Férias devem se adequar às necessidades pessoais

Texto: Patrícia Zamboni

Chegaram as tão aguardadas férias. E agora, o que fazer para descansar? Essa é uma dúvida que se apresenta a muitas pessoas que querem relaxar ao máximo durante o período de férias mas não têm certeza de qual a melhor forma de fazer isso. Levando em consideração que, em média, passamos mais de 2 mil horas trabalhando por ano, essa preocupação é natural. Os poucos dias de descando que se tem ao longo de doze meses de dedicação ao trabalho têm que ser absolutamente aproveitados.

O estresse pode até ter se tornado uma palavra da "moda", mas deve ser levado a sério. O descanso da mente é fundamental a todas as pessoas, por mais que se julguem "acostumadas" a um ritmo de trabalho acelerado. Virar as costas para essa necessidade vital, pode ser o primeiro passo para adquirir um estresse. De acordo com Carmen Maria Bueno Neme, professora de Psicoterapia e Psicologia Hospitalar da Unesp-Bauru, o estresse é um conjunto de reações orgânicas e psicológicas advindas de estímulos que exigem do corpo e da mente uma adaptação a determinadas mudanças que ocorrem na vida. "Pode ser causado por uma doença, uma perda, falta de trabalho, pelo corre-corre do dia-a-dia e por diversas outras razões, como as próprias férias. Então, o estresse são reações fisiológicas e psicológicas que servem para levar o nosso organismo como um todo, entenda-se corpo e mente, de volta ao estado de equilíbrio. Ou seja, o estresse não é bom e nem ruim. Ele pode ser gerado tanto por estímulos negativos quanto positivos. Então, ganhar na Loto ou sair de férias

é estressante, porque exige de nós uma readaptação do cotidiano", afirma a professora.

Segundo ela, o ser humano possui um ritmo chamado de "ultradiano" que não pode ser desrespeitado. Esse ritmo consiste num ciclo de atividades intercalado por pausas que devem ser feitas durante o dia de trabalho. "Todos os dias, o ideal é que a cada 90 minutos a pessoa faça uma pausa de 10 a 20 minutos no trabalho para levantar, andar, tomar uma água, bater um papo, enfim, dar uma relaxada pra respeitar o que o próprio organismo necessita para o equilíbrio da mente e do corpo", observa Carmen Neme.

A informação de que a chegada das férias ou uma alegria como ganhar na loteria pode causar um estresse, se mostra totalmente estranha ao entendimento leigo. Por isso,

é preciso entender biologicamente e psicologicamente o que as mudanças de situação podem causar

à saúde das pessoas. "O que acontece é que a pessoa está tão cansada daquela rotina exaustiva de trabalho, do corre-corre diário, que na ânsia de fugir disso tudo ela assume um outro ritmo de vida totalmente diferente do que estava levando. Viajar por diversos países, ou pegar um carro, ir para a estrada com destino a uma cidade de praia, chegar lá e ficar procurando lugar para ficar e programar mil atividades para aqueles poucos dias de férias vai mudar o tipo de estímulo, mas a pessoa vai continuar não relaxando", orienta a professora. "Tanto

é assim que muitas pessoas sofrem ataque cardíaco aos finais de semana ou quando entram em férias, que é quando o organismo está passando por outra adaptação, e não relaxando. Ou seja, você já esticou a corda de um lado e agora vai esticar do outro. Chega o momento em que ela arrebenta", afirma.

As férias ideais, segundo a professora Carmen Neme, variam de acordo com as necessidades e preferências pessoais de cada indivíduo. O que vale para todos é que o relaxamento não vem no primeiro dia de descanso; esse é um processo lento no organismo do ser humano. A dica da professora especializada em psicoterapia é para que se aproveite as férias para repensar a sua rotina diária, para traçar metas, para cuidar do corpo e do bem-estar psicológico e praticar exercícios físicos moderados. "É necessário que sejam feitas coisas que vão ajudar o indivíduo a entrar nesse ritmo diferente. Isso pode, inclusive, ser usado na volta ao trabalho, já que é totalmente improdutivo você trabalhar doze meses por ano, ter 20 dias de férias e achar que vai ficar tudo bem. Isso é um grande engano. O ideal seria que nós tivéssemos pequenas férias ao longo do ano e um período um pouco maior para reorganizar a vida", observa Carmen Neme.

Segundo a professora, as viagens, ou seja, a mudança de ambiente, é totalmente recomendável para o descanso da mente. Porém, isso deve ser feito de forma comedida.

"Ir para o litoral, por exemplo, querer conhecer todas as praias da cidade e passear por todos os lugares, não vai descansar. O ideal é que a pessoa tente manter o ritmo mais harmonioso possível entre férias e período de trabalho. As pessoas precisam ter consciência de que não adianta nada tirar 30 dias de férias e depois voltar a trabalhar como loucas. Portanto, as férias também devem servir para a mudança de hábitos, porque no dia-a-dia de uma vida agitada ninguém consegue mudar", orienta a professora da Unesp. "Dormir bastante e conhecer lugares novos ajuda muito, mas não resolve o problema do estresse".

Férias adequadas a cada um

O médico neurologista Pedro Hortense faz a mesma observação que a professora Carmen Neme no que diz respeito às necessidades individuais de cada um para evitar o estresse. Ou seja, não existe uma receita, uma regra básica que vale para todos.

"Além das necessidades individuais referentes ao ritmo de vida de cada um, o fator financeiro também influencia demais no tipo de lazer ou descanso que a pessoa vai poder desfrutar durante suas férias. Se uma pessoa tem dinheiro e está estressada, pode optar por um turismo na Europa, por exemplo.

É claro que lá ela não terá estresse nenhum. Se as condições financeiras não forem tão favoráveis, terá que optar por um turismo próximo daqui, como um hotel fazenda, e há também os casos das pessoas que nem tem condições de sair da cidade. Cada um precisa adequar o seu descanso às suas possibilidades", orienta Hortense.

Outra observação interessante feita pelo médico

é para que, nas férias, a pessoa procure fazer atividades bem diferentes do que ela costuma realizar no seu dia-a-dia. "Eu, por exemplo, trabalho com pessoas desde cedo até à noite. Então, nas férias eu necessito de alguma coisa contrária do que eu faço todos os dias, como diminuir o contato com pessoas, relaxar mais, procurar um lugar aconchegante e sem muita agitação. Cada um precisa saber das suas necessidades e vontades", observa o médico. Hortense alerta para o fato de que férias não significa ter que fazer uma bateria de coisas ao mesmo tempo para "aproveitar". Isso não é descansar. "Não adianta nada a pessoa entrar em férias e querer conhecer o Nordeste inteiro, ficar 30 dias trocando de avião de capital em capital. Ou então, ir para a Europa e querer conhecer dez países em vinte dias. Isso não são férias para quem está com estresse. Isso pode ser feito por pessoas que têm mais tempo de folga e que não estão em situação de estresse", orienta.

Uma boa dica, para quem tem possibilidade financeira para tal,

é optar pelos "resorts", que oferecem uma diversidade de alternativas para o turista num mesmo complexo hoteleiro. "Nesse caso, num mesmo lugar o turista encontra um esquema feito para agradá-lo e serví-lo. Tem opções de esporte, cultura, biblioteca, atrações internas, e a praia bem pertinho. Além disso, você não precisará entrar num carro toda vez que quiser fazer alguma coisa diferente, pegar o estresse da estrada ou ficar trocando de avião. Você pode ficar quantos dias quiser sem precisar sair de lá. Quando a pessoa quer realmente descansar, ela precisa de um lugar em que não vai precisar ficar pensando no que fazer todos os dias, programando atividades, se deslocando o tempo todo para tentar relaxar", dá a dica o médico neurologista. "A pessoa que consegue fazer uma agenda de trabalho, ou seja, sabe controlar o seu tempo, tem capacidade também de fazer uma agenda de lazer para aproveitar ao máximo o tempo que tem de descanso", finaliza o neurologista Pedro Hortense.

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