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Aids

Marcos Zibordi
| Tempo de leitura: 6 min

Abandono é maior entre soropositivas

Texto: Marcos Zibordi

Pesquisa demonstra que família e parceira (o) acolhem mais o homem do que a mulher portadora do vírus HIV

O índice de abandono entre os portadores do HIV é maior entre as mulheres do que entre os homens. É o que constatou uma pesquisa realizada no Departamento de Enfermagem da Unesp de Botucatu, segundo a qual família e parceiros abandonam mais as mulheres que os homens.

Foram entrevistados 132 soropositivos do Ambulatório Especial da Faculdade de Medicina (FM), com indivíduos provenientes de várias partes do país. Baseada em entrevistas com 82 homens e 50 mulheres, a professora Marli Teresinha Galvão demonstrou que o comportamento da família e do companheiro acabam fazendo a mulher enfrentar um grau de dificuldade maior que o seu parceiro para lidar com a doença.

Na pesquisa, 12% das entrevistadas afirmaram que foram rejeitadas pela família, enquanto que os homens sofreram 3,6% de rejeição no núcleo familiar. Em relação ao companheiro, 10% das mulheres foram abandonadas pelo mesmo quando da descoberta da doença, enquanto que os homens foram abandonados na proporção de 1,2% por sua companheira.

O desamparo da mulher é agravado com a dependência econômica e o baixo nível de escolaridade. Das 50 entrevistadas, mais da metade não trabalhava (54%), enquanto que somente 8,5% dos homens eram inativos. Para piorar, as mulheres ativas exerciam profissões pouco qualificadas e geralmente largavam o emprego depois de descobrir que estavam infectadas.

Em relação ao grau de instrução, novamente o abismo: 68% das infectadas completaram o primeiro grau mas, entre os homens, 61% concluiu o segundo ou terceiro grau.

A mulher também mostrou-se menos preparada que o homem para enfrentar a doença. Entre as medidas usadas para controlar a evolução da infecção, os homens são os que mais usam medicamentos, buscam equilíbrio emocional, mudam seus hábitos e se preocupam em melhorar suas condições físicas. Até na procura por tratamentos alternativos eles têm mais iniciativa.

Boa parte das mulheres (44%) nada fez para controlar a evolução da doença, contra 25% dos homens que apresentaram esta conduta. Segundo a pesquisadora, o comportamento passivo da mulher pode representar uma tentativa de negar o problema, fato agravado pela probreza, pelo baixo nível de instrução e também pela imaturidade, pois a maioria das entrevistadas era mais jovem do que os homens.

Na avaliação da pesquisadora, o melhor desempenho dos homens também pode estar relacionado ao modo de vida dos entrevistados. Apoiada na constatação de que a maioria dos infectados contraiu a doença por relação homossexual ou bissexual, ela acredita que o grau de conscientização

é maior entre as pessoas que pertencem a um determinado

"grupo de risco". O espírito de luta que os homossexuais sempre tiveram de ter para enfrentar os preconceitos parece ser um fator positivo na hora de enfrentar a doença, pondera a pesquisadora.

O pressuposto de que a maioria das mulheres foi infectada pelo marido infiel tornou-se questionável a partir do resultado dessa pesquisa, pois a maioria das entrevistadas era separada, desquitada, divorciada ou viúva. Apenas 1/3 era casada. Diante do aumento da proporção de mulheres infectadas no Brasil, o pior foi constatar que 38% das mulheres não faziam nada para evitar a transmissão da doença, enquanto que entre os homens esta conduta foi verificada em 10% dos casos.

A pesquisadora ressalta , no entanto, que o grau de desinformação

é grande entre os dois sexos. Embora 40,2% dos entrevistados tenham citado a camisinha como a principal medida de prevenção, só 13,4% disseram que não se pode doar sangue ou

órgãos. Por outro lado, as medidas que trariam pouca ou nenhuma prevenção, como não misturar talheres, por exemplo, foram freqüentemente citadas.

Para a coordenadora do estudo, a mulher ficou em desvantagem em quase todos os aspectos analisados na pesquisa. Entretanto, os homens perdem num quesito. É que apesar deles terem maior grau de instrução, independência econômica e melhor suporte emocional, o sexo masculino é pouco honesto com sua parceira ou parceiro. Na hora de contar a verdade, só metade deles (58,6%) teve coragem de revelar o diagnóstico, enquanto que entre as mulheres este índice foi quase absoluto: 82%.

Uso de preservativo

Ao contrário do que muita gente pensa, o uso do preservativo

é necessário entre os casais soropositivos. Manter relação sexual sem preservativo entre portadores do HIV aumenta a carga viral dos dois indivíduos, desse modo acelerando a evolução da doença.

Os resultados da pesquisa da professora Galvão permitem concluir que ainda há necessidade de se manter informação continuada sobre a importância do uso do preservativo, além de se garantir sua distribuição gratuita e de qualidade, pelos baixos níveis de instrução e qualificação profissional dos indivíduos. Sugerem, ainda, que as campanhas de divulgação de medidas preventivas considerem as diferenças sociais e culturais das mulheres que se infectam.

Após o diagnóstico da doença, o uso do preservativo

é baixíssimo. Dos 132 soropositivos pesquisados, somente 15,9% continuou mantendo relação sexual com camisinha, sendo que as mulheres alegaram usar menos (14%) que os homens (17,1%). Ainda dentro do mesmo universo de pesquisa, 26,5% não usam preservativo nas relações sexuais, sendo que a mulher usa menos que os homens.

Excluindo-se os que usam e os que não usam camisinha nas relações sexuais após a descoberta da doença

(42,4%), sobram os que preferiram a abstinência sexual após contraírem o vírus. São 57,6% dos entrevistados.

Mulher infectada encontra parceiro e contraria estatística

Após ter descoberto que era soropositiva aos 20 anos e perder o companheiro que morreu de Aids alguns meses depois, uma paciente do Ambulatório Especial da Faculdade de Medicina de Botucatu conseguiu contrariar a estatística segundo a qual as mulheres são mais abandonadas que os homens. Ela encontrou, dois anos após a descoberta da infecção, um companheiro não infectado que aceitou sua condição. Eles já vivem juntos há quatro anos, mantendo relações sexuais com preservativo.

Agora com 26 anos, a paciente acha que os homens abandonam mais suas parceiras porque são "menos românticos".

Pessoas próximas do seu primeiro companheiro, com quem viveu dois anos, suspeitavam que ele fosse soropositivo. Mas ele nunca fez o exame e quem acabou trazendo a certeza da infecção foi a paciente, incentivada pela mãe a fazer o teste. Em três deles foi apontada a presença do HIV. Seu companheiro morreu com quarenta anos. "Fui infectada através dele".

Ela diz que foi difícil aceitar sua condição inicialmente, mas que não escondeu de ninguém a doença e acabou adquirindo forças para enfrentá-la, principalmente após iniciar o novo relacionamento. "Tive que contar, não tinha como esconder. E ele aceitou numa boa". Ela tem um filho de sete anos, não infectado, que ainda não sabe da doença da mãe. "Eu não tive coragem de falar para ele. Uma hora eu vou ter que contar. Não tem como uma mãe esconder do próprio filho que ela está doente, mas vou esperar mais um tempo".

Apesar da aceitação, a paciente alega que o companheiro não comenta o assunto em casa, mas quer saber sempre do resultado dos acompanhamentos clínicos da parceira. Ela faz acompanhamento médico desde que descobriu ser portadora do vírus e não desenvolveu nenhuma doença oportunista até agora. "Eu penso assim: eu tenho mas eu não tenho, porque não estou doente até agora".

Desde que se descobriu portadora, ela toma três tipos de medicamentos para combater a evolução da doença.

"O medo das pessoas é a falta de informação. No começo da Aids, eu via jornal uma falação toda hora. Agora você não vê um comunicado sobre novos medicamentos descobertos, você não ouve falar nada. Eles só lembram do assunto no Carnaval". A paciente aponta também a necessidade de uma campanha continuada, de janeiro a janeiro, e não só no Carnaval, porque entende que o risco é constante.

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