Lista de espera por um rim tem dois mil candidatos
João José da Silva Neto tem 36 anos e é vigilante. Há 11 meses ele está na fila de espera por um rim. Sua expectativa é que ainda este ano, receba um órgão novo que o livre da diálise. Assim como ele, 2 mil pessoas no Estado de São Paulo aguardam um rim. A lista única não respeita a ordem de inscrição e segue critérios científicos e imunológicos tentando manter a ética e a moral na transplantação de órgãos.
No ano passado em Bauru, sete pacientes foram transplantados e todos sobreviveram. Três órgãos foram retirados de pacientes com morte encefálica e o restante de doadores vivos. Desde 86, quando Bauru passou a fazer parte do São Paulo Interior Transplante(SPIT), já foram feitos 66 transplantes de rim.
A seleção de pacientes que vão receber um
órgão novo respeita critérios que muitos desconhecem, avisa a médica Tereza M.S.Faifer, membro do Conselho Consultivo do SPIT. Segundo ela, a ordem de inscrição não é garantia do recebimento do órgão.
"O critério não é por ordem de inscrição. Utilizamos critérios científicos e imunológicos. As condições clínicas do paciente e a idade são fatores que influenciam na destinação do órgão doado."
Para que todas as regras previstas em Lei Federal sejam rigorosamente cumpridas, segundo a médica, foi criado o SPIT, com uma lista única para transplante de rim. "Recebe o órgão aquele receptor que tiver compatibilidade do tipo sangüineo ABO, tiver a prova cruzada com o sangue do cadáver negativo."
A médica lembra que a idade e o tempo de diálise também entram no processo de seleção do candidato ao transplante. " Não tem faixa etária pré-estabelecida, mas evita-se os pacientes muito idosos e as crianças muito novas. Os pacientes sensibilizados possuem maior pontuação e têm prioridade."
Para conseguir um órgão e ser transplantado, o doente renal percorre um longo caminho. "Quem tem perda da função renal crônica e entra num estágio de insuficiência renal crônica terminal pode ser inscrito na lista de candidatos a um transplante."
O centro que faz a diálise desse paciente é que o inscreve para o transplante. Para estar inscrito na lista, o candidato tem que encaminhar vários tipos de exames para Ribeirão Preto. "O exame de tipagem imunológica desse paciente é que vai ser colocado no banco de dados. A cada três meses, estocamos sangue desse paciente e encaminhamos para lá, a fim de renovar o soro."
Com o sangue estocado do candidato e o do cadáver, Ribeirão Preto seleciona e informa para o centro quem será o receptor, ou seja quem vai receber o órgão. "O órgão
é encaminhado ao centro onde está o receptor, que faz o transplante."
Os principais problemas
Os principais problemas que causam a insuficiência renal crônica, segundo a médica Tereza Faifer são as nefrites crônicas, a hipertensão arterial, o diabetes de longa duração e outras patologias menos freqüentes.
O transplante só é indicado, de acordo com Faifer, quando o rim não tem recuperação. "O
órgão não funciona e a vida só é mantida através de um método artificial que é a diálise."Quando o paciente atinge este estágio entra no programa de hemodiálise.
Sobrevida
A sobrevida do transplantado, segundo a médica, vai depender de uma gama de fatores. "Depende da medicação que o paciente fizer uso. O transplantado está mais sujeito a infeções porque as drogas usadas, diminuem a defesa do organismo deles."
A médica lembra que por ficarem mais vulneráveis, os transplantados contraem infecções masi graves, que muitas vezes leva a morte. "As mortes dependem da faixa etária, da doença base e da medicação."
Ela não tem estatísticas do percentual de pacientes transplantados que sobrevivem. "Sabemos que o primeiro transplante de rim realizado em Bauru aconteceu em dezembro de 86 e transplantado está vivo."
Comprar órgãos é ilícito
Comprar órgão é ilegal e enquadrado como ilícito penal, sujeito a prisão, garante a integrante do SPIT. "Mesmo que o indivíduo tenha dinheiro e traga o doador, ninguém pode fazer esses transplante. Temos o compromiso, sob pena de ser excluído do SPIT, se fizermos transplante de pessoas não relacionadas."
A médica acredita que selecionar o paciente e coloca-lo na lista de espera seja a melhor saída. "Antigamente não retirávamos órgãos nem de conjugês. Com a nova lei, é permitido. Para que o médico faça transplante de pessoas não parentes há necessidade de autorização judicial. O pedido tem que ser protocolado no Ministério Público com comprovação de que há identidade genética entre os indivíduos."
O comércio de tecidos, órgãos ou partes do corpo humano é crime com pena prevista de três a oito anos de reclusão e multa. Incorre na mesma pena, quem promove, intermedia, facilita ou afere qualquer vantagem para a transação.
Doação presumida
A doação presumida teve um impacto negativo, no início, segundo a médica. "Quando a nova legislação foi aprovada e todo aquele que não se manifestasse contra, seria um doador, houve uma reação da sociedade. A lei não respeitava a cultura e a religiosidade de cada um. Nós, médicos do SPIT sempre pedimos autorização da família do cadáver. A situação foi regulamentada e hoje é necessário a autorização da família."
Vida Normal
Fábio Almir da Silva Ezidério, 19 anos, recebeu um rim há três meses e já leva uma vida normal.
"O meu pai foi o doador. Não cheguei a entrar na fila de espera."
Ele lembra que passou um ano e meio, mais ou menos, com problemas renais que associados a uma outra patologia obrigaram-o a fazer o transplante. "O transplante foi normal. Um mês depois eu já estava bom."