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Educação

Ana Maria Ferreira
| Tempo de leitura: 7 min

Investir na formação do professor

é o caminho para educação

Texto: Ana Maria Ferreira

Esta, com certeza, será a era da Educação no Brasil. Os investimentos ainda não são suficientes para as escolas e universidades públicas, que lutam para sobreviver num mercado cada dia mais competitivo, onde quem tem mais verbas e recursos acaba formando o melhor time de profissionais. Em muitos casos, professores migram do já desgastado ensino público para o particular, que acena com uma ampla infraestrutura e salários dignos com a formação e o investimento feito pelos mestres e doutores, ao longo dos anos.

Sintonizada com a tendência de qualidade no ensino a escola Criarte promoveu, esta semana, um minicurso sobre os rumos da escola no momento atual, com a psicóloga e pesquisadora Vera Lucia Trevisan, especialista em ensino e formação de professores, doutoranda pela PUC de São Paulo.

O Jornal da Cidade falou, com exclusividade com a especialista sobre a importância da discussão na Educação.

Jornal da Cidade - Qual é a importância da formação contínua do professor no seu ponto de vista? Esse é o caminho para a Educação?

Vera Lucia Trevisan - A importância da formação contínua, é parte deste movimento que nós estamos começando hoje, aqui na Criarte. Primeiro, é estar adiante mostrando ao professor, com uma atitude efetiva, que é importante a atualização e o aprofundamento nos temas sobre educação; e segundo, é proporcionar a discussão - porque a educação é um campo muito vasto - sobre o currículo enquanto escolha calcada não só em teorias, em pesquisas, mas no contexto de que comunidade é esta e pensar que cidadão eu quero formar, que profissões vão existir quando esses alunos forem adultos, e que adulto é esse, que valores são esses que nós temos que começar a resgatar e a discutir dentro da escola. A escola só enfocou o cognitivo, a inteligência e se esqueceu do afetivo, do social, do outro, fazendo com o que o indivíduo se volte apenas para o próprio umbigo. E estamos diante de uma sociedade que pede um profissional que saiba liderar, que tenha equilíbrio emocional e muitas habilidades desenvolvidas.

E esse é um caminho para a educação: desenvolver um maior número de habilidades, lidar com a diversidade, acolher o múltiplo, trabalhar com a inclusão no sentido de que é o momento da escola se modificar para receber as diferenças.

JC - Esta pode ser considerada uma proposta de reformulação do ensino?

Vera- Ela inclui uma proposta de reestruturação curricular e de elaboração do projeto pedagógico da escola, que tem que tomar por base a política, o ser humano como um ser político, ético, cidadão. Ela tem que contar, portanto, com as condições do contexto em que ela se insere, criar espaço para a discussão. Este será um projeto que terá que contar com a marca da comunidade escolar, falando em ensino particular. No ensino público esse movimento também vem sendo proposto, só que escola pública sofre mais que a particular para atingir esses objetivos, porque ela tem uma gestão que depende de muitos fatores, fazendo com que as ações e os resultados demorem mais a aparecer.

JC- Mas se discute esse tipo de necessidade na formação do indivíduo dentro da escola pública?

Vera - Sem dúvida. Na área de pesquisa, por exemplo, existem mais pesquisas feitas em escola públicas do que em escolas particulares. Aqui mesmo na região onde existem universidades públicas, vocês podem comprovar isso, que a grande maioria dos trabalhos têm sido desenvolvidos na escola pública.

O movimento que eu tenho observado no doutorado é que há um reconhecimento da academia que a escola particular é um campo muito interessante à pesquisa. A função da pesquisa não é de servir, ela não tem uma função pragmática, ela quer elucidar fatos, ampliar teorias, fornecer subsídios que deveriam ser para a humanidade, e não para este ou aquele setor. Essa seria a relação da escola particular e da pública. Não estou, de maneira alguma, colocando-as no mesmo nível, elas tem suas especificidades.

JC - Na sua opinião as escolas particulares e públicas estão traçando rumos muito diferentes?

Vera - Eu acho que ambas estão em busca de um ensino de qualidade, de formas muito diferentes, e o por quê nós todos sabemos. Vivemos um momento na Educação em que a grande questão não é a linha da escola, mas sim a qualidade dessa escola. A qualidade está na relação com a clientela, seja ela particular ou pública. Hoje o aluno ele começa a exigir muito mais da escola.

JC - O conceito de qualidade é muito diferente atualmente?

Vera - Sem dúvida, hoje não dá mais para permanecer especialista e dizer "eu sou um ótimo engenheiro, mas eu não consigo falar com as pessoas etc". A qualidade hoje é alguma coisa que envolva habilidades múltiplas, que vai resultar na capacidade do indivíduo de atuar em diferentes espaços sociais, em diferentes contextos, em diferentes situações.

JC - Com relação ao ensino superior, existe uma especulação de que a duração de alguns cursos possam ser igualada a dos cursos técnicos?

Vera - Isso é uma realidade. Há um movimento de que vários cursos poderão ser oferecidos num tempo menor. Existem até já algumas faculdades oferecendo, universidades públicas eu não tenho conhecimento, particulares sim. Há uma proposta concreta, inclusive legitimada pelo governo, infelizmente através de decreto, sobre formação de professores num tempo menor, enfim, eu acho que isso não resolve o problema da qualificação do nosso profissional, pode resolver sim um problema de estatística no número de pessoas no Brasil com ensino superior. Não compete a mim julgar a importância de se ter uma estatística melhor ou não para o País, mas acho que ficam claros os interesses que estão por trás disso.

Entretanto, eu penso que isso pode , por outro lado, facilitar, chamar mais as pessoas para o ensino superior, embora não garanta a conclusão dos estudos , em função do custo dessas escolas particulares.

A qualidade da formação de um profissional passa pela escola infantil, pelo desenvolvimento das suas habilidades e, passa ainda pela reestruturação do currículo do ensino superior que tem de articular melhor a teoria e a prática na formação desse profissional. Normalmente, os cursos de ensino superior estão estruturados com uma carga grande teórica no primeiro e segundo ano e com os estágios partir do terceiro e quarto ano. Isso distância demais a teoria da prática .

JC - Existem mais de 2 milhões de jovens na faixa entre 18 e 24 anos fora da Universidade. Na sua opinião a Universidade ainda é uma elite?

Vera - Sem dúvida que é, e eu diria ainda que o ensino superior no Brasil é perverso. Ele segue uma lógica que é minimamente perversa, porque os indivíduos que estudam em escola particular vão cursar a universidade pública. Esses indivíduos, que teoricamente, tiveram melhores condições de vida e estudaram em melhores universidades, serão melhores profissionais e, portanto, terão melhores chances no mercado de trabalho. Na contramão os indivíduos que freqüentaram o ensino público vão cursar uma faculdade particular, embora o ensino público seja oferecido na mesma instância tanto na escola básica quanto na de nível superior, o aluno dessa escola básica não consegue entrar na universidade pública. Essa inversão, escola particular vai para universidade pública e escola pública vai para faculdade particular, isso é que é perverso, mais do que esse número de alunos no ensino superior. Se não houvesse essa inversão nós teríamos muito mais alunos, porque a evasão escolar diminuiu muito.

JC - O que é mais importante numa escola: método, material didático, professores etc?

Vera - É tudo que a escola utiliza, desde a concepção de como ela vê a educação até a equipe de professores, que é fundamental, é quem faz a educação, e se a equipe tem qualidade você vai ter uma escola melhor, sem discussão.

Esse momento que nós estamos vivendo é um momento interessante para a educação. Eu acho que as escolas que se dispuserem a fazer essa discussão, abrindo para investir na formação do professor, na discussão com os pais, com certeza vai ter uma qualidade diferenciada das demais que estão fechadas ao debate.

JC - Como você resumiria sua pesquisa?

Vera - Eu diria que o homem tem uma capacidade incrível de se transformar , se tornar mais capacitado no que ele se propõe a fazer. É com essa crença no professor e na capacidade de transformação enquanto ser humano que dá para acreditar no futuro. É pela educação que as coisas vão mudar e ao meu entender pela formação do professor que é o profissional que lida diretamente com a educação.

JC - Qual a maior falha que você vê na formação do professor?

Vera - Acho que é o não envolvimento com uma formação contínua do professor. Ele começa a trabalhar e estacionar.

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