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Cooperativa

Marcos Zibordi
| Tempo de leitura: 7 min

Trabalho comunitário resulta em cooperativa

Texto: Marcos Zibordi

Em Pederneiras, uma associação de moradores coroa o trabalho de três anos com inauguração da cooperativa de costureiras

A Associação de Moradores do núcleo habitacional Maria Helena inaugurou quinta-feira a Cooperativa de Costureiras, um projeto que já integra 12 pessoas da comunidade e dá mostras de que pode se ampliar muito mais. A Cooperativa é o reflexo direto de um trabalho que vem sendo desenvolvido pela Associação de moradores e que realmente integra e projeta as pessoas da comunidade.

O projeto da Cooperativa de Costureiras começou ser desenvolvido com quatro profissionais que formaram oito alunas do bairro durante o ano de 99.

Agora constituída legalmente, a Cooperativa pretende atingir o número de 50 cooperados. Por ser fruto da associação de moradores, está isenta de qualquer encargo social, o que diminui o preço dos serviços. Antes mesmo de começar funcionar, a cooperativa tinha contratos firmados para a confecção do uniforme dos trabalhadores braçais da Prefeitura para fazer 280 calças e camisas. Os 120 uniformes dos motoristas a cobradores da empresa circular da cidade também serão feitos pela cooperativa.

Os cooperados pretendem confeccionar todo tipo de roupa. As interessadas que pretendam ingressar na cooperativa terão que passar pelo curso de formação da Associação, cujas matrículas começam ainda neste mês.

Para as mulheres que já participam, o ingresso foi bem simples. Elas assinaram um contrato de obrigações com os compromissos e direitos da nova associada. 20% do lucro vai ficar para a cooperativa, numa espécie de fundo para futuros investimentos e pagamento das cinco prestações que ainda restam de três máquinas de costura e uma de corte compradas pela cooperativa. 10% serão reservados

à manutenção e o restante será dividido entre as cooperadas.

A administração da cooperativa é composta de presidente, secretária e tesoureira. O Sebrae, que foi um grande incentivador da cooperativa, ainda vai ministrar dois cursos aos cooperados abrangendo administração cooperativa e gerenciamento.

A idéia vem dando tão certo que outras associações de bairro estão sendo "sacudidas" pelo trabalho da cooperativa. As estampas serigráficas das roupas será feita pela serigrafia da associação de moradores do núcleo Antonio di Conti. Existe também a proposta de parceria com a estamparia Prisma, de Pederneiras e os uniformes da Emeis e dos marinheiros da Navegação Tietê podem ser os próximos contratos da cooperativa.

Na tarde de quinta-feira, quando as mulheres da comunidade arrumavam o salão para a inauguração de logo mais à noite, sentia-se um clima de felicidade, de realização e, acima disso, de conquista da cidadania.

Elas relatam que antes não se sentiam capazes e nem tinham noção do poder que estava em suas mãos. Elas agora não pensam em deixar a cooperativa por nenhuma outra proposta de emprego.

Cooperação de verdade

A inauguração da cooperativa de costureiras é a última grande conquista da associação de moradores do núcleo habitacional Maria Helena. Mas esta associação vem se destacando no trabalho comunitário e voluntário por parte dos seus integrantes há três anos, exatamente o tempo em que existe o núcleo. Várias brigas da comunidade foram encampadas pela associação e as reivindicações deram resultado.

Segundo informa Sebastião Martins, o "Kiko", 38 anos, presidente da associação desde que ela existe, a primeira conquista foi conseguir a renegociação dos valores pagos pelos mutuários nas prestações das casas junto à Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU).

Como a maioria dos moradores do núcleo é constituída de trabalhadores rurais do corte de cana e colheita de laranja, a queda no valor dos salários em 98 foi o argumento para pedir a diminuição das prestações.

"Tivemos casos de redução de até 50%", diz Kiko. São 608 casas no núcleo e mais 205 em construção. O valor médio da prestação hoje é de R$ 60 para quem renegociou o financiamento em 12 anos.

Ainda em 98, outro projeto visando atender as necessidades dos trabalhadores do núcleo foi iniciado e funciona até hoje. Trata-se do projeto "Mães Solidárias", em que mães que não trabalham cuidam dos filhos das trabalhadoras rurais, que geralmente saem de casa por volta de cinco horas da madrugada e retornam do trabalho no começo da noite. As mães solidárias cuidam das crianças até que a creche comece o dia letivo, por volta de 7 horas da manhã, e após o fechamento, por volta de 17 horas, até que as mães cheguem.

Mas não pára nisso. Os moradores derrubaram o veto que proibia o comércio de bar, loja, quitanda e supermercado nas casas do núcleo. O Centro Comunitário iniciou reformas em 97 e ainda está em obras. A cooperativa das costureiras irá ocupar um novo espaço que está sendo construído dentro do Centro Comunitário. Atualmente ele conta com a sala de costura, cozinha e duas salas, uma sendo usada para evangelização de crianças e outra para escritório.

A ampliação de mais uma sala de aula na escola que fica ao lado da associação e a construção de uma sala de vídeo também foram realizadas com recursos próprios da associação. Em dezembro de 99, formaram-se os primeiros adultos e crianças alfabetizados naquela sala.

Descoberta da cidadania

Elaine Maria Ferreira, 35 anos, diretora da Emei Profa. Nagiba Maria Rizek Maluf, escola que fica ao lado do Centro Comunitário,

é outra a atestar a versatilidade e a seriedade do trabalho da associação.

A escola é nova e vai completar um ano neste mês de fevereiro. Segundo a diretora, foi implantado por iniciativa e sugestão da associação de moradores o projeto de educação ambiental que envolve as 360 crianças da escola. Elas plantam, cultivam e manejam as flores do jardim, já que a Prefeitura não dispõe de funcionários para executar o serviço. Neste ano, eles começarão distribuir mudas das flores do jardim da escola entre os moradores do núcleo.

Sempre contando com o trabalho voluntário, quatro mães se dispuseram desde o ano passado a desenvolverem o "Clube da Leitura" na escola. Seu trabalho consiste em pesquisar e trazer sugestões de leitura aos alunos em período diferente do das aulas regulares, desta forma também mantendo o aluno por um tempo maior dentro da escola. A diretora da escola, que foi tesoureira de uma associação em outro bairro, conta que a primeira experiência não tinha dado certo. Ela, que atua há 13 anos na educação, tendo inclusive passado por outros bairros da cidade e região, se diz surpreendida com o cooperativismo dos moradores do núcleo Maria Helena. "A associação provocou na escola o espírito comunitário".

Outra "provocação" da associação em relação à escola foi a implantação do projeto de Esportes. O presidente da Associação de Moradores conseguiu cinco voluntários para o curso de Educação Física e, de quebra, uma parceria com a Associação Atlética Banco do Brasil

(AABB), que cederá as instalações para as atividades esportivas dos alunos.

Um projeto para implantar a prática regular do teatro na escola foi apresentado no início deste ano por um morador do bairro. Também voluntariamente, ele vai trabalhar com os alunos durante o letivo desenvolvendo a nobre arte.

Outros dois exemplos refletem o respeito e a importância que a Associação de Moradores do núcleo Maria Helena já conquistou. Após duas tentativas frustradas de participarem da associação dos seus bairros de origem, Silvana Ceschin, 37 anos, e Benedita Carvalho Maria, 42 anos, a "Benê", foram convidadas à participarem da associação do núcleo Maria Helena.

Elas duas foram responsáveis pela implantação do curso de corte e costura e sua confiança no sucesso da cooperativa é total. Vindas do bairro Antonio di Conti, elas dizem ter encontrado no núcleo Maria Helena o clima e a disposição ideal para realizarem e se descobrirem enquanto cidadãs capazes.

Exemplos assim são seguidos por pessoas como Cláudia Melo Silva, 29 anos, dois filhos, secretária da Cooperativa e que quer estudar computação o contabilidade para contribuir com as futuras necessidades dos cooperados. O tom dos depoimentos é sempre este, de confiança e esperança. São pessoas simples, distantes dos centros de decisão, com pouca ou nenhuma formação, que conseguiram na raça conquistar um pouco mais de dignidade num núcleo habitacional. E eles conseguiram mais. Conseguiram dar outro rumo para aquela história.

Em volta daquela praça onde as crianças jogam futebol no final da tarde, vendo as mães saírem com seus filhos da escola e da creche, com o Centro Comunitário ao lado,

dá vontade comemorar os tais 500 anos no próximo mês de Abril.

Serviço

Associações de bairro que quiserem saber mais sobre como montar e gerenciar uma cooperativa, devem fazer contato com qualquer agência ou posto de atendimento do Sebrae. Contatos com a Cooperativa de Costureiras de Pederneiras podem ser feitos nos seguintes telefones: (014) 252-5646 (Silvana), 252-6792 (Benê) e 252-6311 (Nice).

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